Variantes 異 · 05

Português angolano

A variedade falada em Angola — cada vez mais língua materna e não só veículo de unidade nacional —, com fonética, léxico e gramática próprios e uma norma ainda em formação.

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O português angolano (ou português de Angola) é a variedade do português falada e escrita na República de Angola. Herdada do período colonial, deixou há muito de ser apenas a língua de uma elite letrada: é hoje a única língua oficial do país, o principal veículo de comunicação entre comunidades de línguas diferentes e, para uma parte crescente da população — sobretudo urbana e jovem —, uma verdadeira língua materna. Dessa nativização emerge, pouco a pouco, uma norma angolana com fisionomia própria.

Uma língua oficial num país multilingue

Angola é um território profundamente plurilingue. Ao lado do português convivem várias línguas africanas de família banta — o umbundu (a mais falada, no planalto central), o kimbundu (na região de Luanda), o kikongo (no norte), o tchokwe, o nganguela e o oshiwambo, entre outras —, além de línguas khoisan no extremo sul. Nenhuma delas tem, porém, o estatuto de língua oficial: esse papel cabe ao português, escolhido após a independência (1975) como língua de administração, de ensino e de unidade nacional, precisamente por não se identificar com nenhum dos grupos etnolinguísticos do país.

Segundo o censo de 2014 — o primeiro realizado depois da independência —, cerca de 71% dos angolanos falam português, proporção que em Luanda se aproxima da totalidade. O dado decisivo, porém, é qualitativo: para muitos angolanos nascidos nas cidades, o português já não é uma segunda língua aprendida na escola, mas a língua do lar.

Da norma de Lisboa a uma norma de Luanda

Por razões históricas, a norma-padrão de referência em Angola continuou, depois de 1975, a ser próxima do português europeu: é essa a variedade ensinada na escola e usada na escrita formal. Mas a fala real afastou-se dela, num continuum que vai do português culto — muito próximo do europeu — ao português popular dos musseques (os bairros periféricos de Luanda), onde o contacto intenso com as línguas bantas reestruturou a língua com mais profundidade.

Como soa

O traço fonético mais saliente do português angolano é a menor redução das vogais átonas. Onde o português europeu apaga ou centraliza as vogais não acentuadas — tornando a fala “comprimida” e de difícil compreensão para quem não a domina —, o angolano tende a pronunciá-las de forma mais plena e aberta. Uma palavra como menino soa [meˈninu] em Angola, contra o europeu [mɨˈninu] . O resultado é um ritmo mais marcado por sílabas, que muitos ouvintes descrevem como mais “cantado” e mais nítido.

A entoação, a realização de certas consoantes e a influência prosódica das línguas bantas completam um sotaque imediatamente reconhecível em todo o espaço lusófono.

Léxico: os angolanismos

É no vocabulário que a variedade angolana mais visivelmente se afirma. O contacto com o kimbundu e o umbundu deu ao português palavras que designam realidades locais — pratos, músicas, relações sociais — e muitas outras de uso corrente:

PalavraOrigemSignificado
candenguekimbunducriança, miúdo
kota (ou cota)kimbundu dikotapessoa mais velha; pai/mãe
makakimbunduproblema, discussão
cambakimbundu dikambaamigo
funjekimbundupapa de farinha, prato de base
kizombakimbundufesta; género musical
bazargíria angolanair embora, partir

Algumas destas palavras fizeram o caminho inverso e instalaram-se na gíria juvenil de Portugal: bué (“muito”), bazar (“pôr-se a andar”) e cota (“pai” ou “pessoa mais velha”) são hoje correntes em Lisboa, levadas pelas comunidades de origem angolana.

O candengue bazou com os cambas para a kizomba.

[u kɐ̃ˈdẽɡɨ baˈzo]

O miúdo foi-se embora com os amigos para a festa.

Tendências gramaticais

No português popular angolano observam-se reestruturações típicas das situações de aquisição em massa de uma segunda língua, algumas partilhadas com o português moçambicano: variação na concordância de número e de género, regências preposicionais próprias (por exemplo, ir na escola em vez de ir à escola) e alterações na colocação dos pronomes clíticos. Estes traços são mais frequentes na fala informal e menos na escrita culta, que se mantém próxima do padrão europeu.

Uma norma em formação

A afirmação de um português angolano não é apenas um facto da fala: é também um projeto cultural. A literatura desempenhou aqui um papel pioneiro — José Luandino Vieira, em Luuanda (1964), incorporou a sintaxe e o léxico do kimbundu na prosa portuguesa, e autores como Pepetela, José Eduardo Agualusa e Ondjaki deram continuidade a essa apropriação criativa da língua. Cresce, entre linguistas angolanos, o debate sobre a codificação de uma norma própria, que reconheça a variedade nacional sem a cortar do diassistema comum. O português angolano é, nesse sentido, uma língua que está a deixar de ser herdada para passar a ser, plenamente, angolana.

Fontes

  1. Amélia Arlete Mingas. Interferência do Kimbundu no Português Falado em Lwanda . Chá de Caxinde (2000)
  2. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  3. Ana M. Carvalho (org.). Português em Contato . Iberoamericana / Vervuert (2009)