Léxico 語 · 09

Diminutivos e aumentativos

Os sufixos -inho/-zinho e -ão fazem muito mais do que medir o tamanho: graduam o afeto, a delicadeza, a ironia e o desprezo. Um capítulo central da pragmática do português.

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A formação de diminutivos e aumentativos é um dos recursos mais vivos e mais carregados de expressividade do português. À primeira vista, trata-se de graduar o tamanho: casacasinha, casacasarão. Mas a função literal é, na prática, a menos importante. O que os falantes graduam sobretudo é o afeto e a atitude — ternura, intimidade, cortesia, ironia, desprezo. É no diminutivo que o português investe boa parte da sua delicadeza social.

Os sufixos e a sua origem

O diminutivo prototípico forma-se com -inho/-inha, do latim -īnus, e com a variante -zinho/-zinha, que acrescenta um -z- de ligação. O aumentativo recorre sobretudo a -ão (feminino -ona), herdeiro do acusativo latino -ōne(m). Há ainda sufixos secundários, de uso mais restrito ou mais marcado.

Os principais sufixos avaliativos
SufixoValorExemploSignificado
-inhodiminutivo*livrinho*livro pequeno / querido
-zinhodiminutivo*cafezinho*café (com afeto)
-itodiminutivo (regional)*pequenito*pequenino
-ãoaumentativo*casarão*casa grande
-onaaumentativo (fem.)*mulherona*mulher corpulenta
-aço/-açaaumentativo intensivo*golaço*golo extraordinário

-inho ou -zinho?

A escolha entre -inho e -zinho não é livre: depende da forma da palavra base. Em regra, -inho substitui a vogal final átona (gatogatinho, casacasinha), enquanto -zinho se acrescenta à palavra inteira, preservando-a. Por isso -zinho é a forma escolhida quando a base termina em vogal tónica, em ditongo nasal ou em consoante, e quando se quer manter visível o radical.

café → cafezinho · pão → pãozinho · mulher → mulherzinha · cão → cãozinho

-zinho conserva a palavra base por inteiro, incluindo a nasalidade de pão e cão.

Esta diferença tem uma consequência morfológica notável no plural: nas formas em -zinho, pluraliza-se as duas partes — base e sufixo —, como se a palavra ainda fosse composta.

pãozinho → pãezinhos · flor → florzinha → florezinhas · animal → animalzinho → animaizinhos

O plural age sobre o radical (pães, flores, animais) e sobre o sufixo (-zinhos) ao mesmo tempo.

Para além do substantivo

Os sufixos avaliativos não se limitam aos nomes. Aplicam-se com igual à-vontade a adjetivos (pequeninho, baixinho, quietinho), a advérbios (cedinho, devagarinho, agorinha) e a certos numerais e quantificadores (um bocadinho, um pouquinho). Nestes casos o diminutivo já não mede coisa nenhuma: intensifica ou suavizacedinho é “bem cedo”, devagarinho é “muito devagar, com cuidado”.

Afeto, cortesia, atenuação

O diminutivo é, antes de mais, um instrumento de aproximação afetiva e de cortesia. Oferecer um cafezinho, pedir um favorzinho ou avisar que se demora só um instantinho não diz nada sobre tamanhos: ameniza o pedido, encurta a distância, torna a interação mais calorosa. É a chamada função atenuadora — o falante diminui simbolicamente aquilo que pede para pedir menos.

Espera aí um bocadinho, é só um instantinho.

O diminutivo não fala de tempo curto: pede paciência com delicadeza.

Quando o pequeno é desprezo

A mesma forma que exprime ternura pode exprimir desdém. O contexto e a entoação decidem: um livrinho de nada desvaloriza o livro; chamar a alguém advogadozinho ou poetazinho é negar-lhe estatura. O diminutivo torna-se então depreciativo — diminui no sentido de menosprezar. É esta dupla face, afetiva e irónica, que faz dele um terreno tão delicado de interpretar.

O aumentativo: tamanho, força e gozo

O -ão aumentativo aponta para o grande (um carrão, um casarão), mas raramente fica pela medida. Pode exprimir admiração (um golaço, um livrão), excesso ou rudeza (um palavrão é um insulto, não uma palavra grande), e muitas vezes masculiniza nomes femininos, com troca de género: a mulhero mulherão, a casao casarão.

Vários antigos aumentativos lexicalizaram-se, perdendo o valor de grandeza e tornando-se palavras autónomas — frequentemente com mudança de género em relação à base:

Aumentativos já lexicalizados
BaseForma em -ãoSignificado atual
*a porta**o portão*portão (não "porta grande")
*a carta**o cartão*cartão
*a sala**o salão*salão
*a caixa**o caixão*caixão

Um traço de carácter da língua

Poucos recursos revelam tão bem a economia afetiva do português como estes sufixos. Num único morfema, o falante regula a temperatura social da frase — torna o pedido mais gentil, a crítica mais mordaz, o elogio mais caloroso. Saber usar -inho e -ão com propriedade é, em boa medida, saber a pragmática da língua.

Fontes

  1. Graça Maria Rio-Torto et al.. Gramática Derivacional do Português . Imprensa da Universidade de Coimbra (2016)
  2. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  3. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (eds.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  4. Alina Villalva. Morfologia do Português . Universidade Aberta (2008)