Gramática 文 · 04
O plural
Como se forma o plural dos nomes e adjetivos em português — da regra geral do -s aos plurais consonânticos, aos nomes em -l e ao célebre tríplice destino de -ão (-ões, -ães, -ãos).
ptEm português, o número — singular ou plural — marca-se sobretudo no fim da palavra, por meio de um morfema que, na origem, é o -s herdado do acusativo plural latino. A formação do plural dos nomes e dos adjetivos obedece a um pequeno conjunto de regras previsíveis, condicionadas pela letra (e pelo som) em que a palavra termina. A única zona genuinamente intrincada é a dos nomes terminados em -ão, que se repartem por três terminações distintas.
A regra geral: acrescentar -s
As palavras terminadas em vogal ou em ditongo oral formam o plural pela simples adição de -s:
casa → casas · estudante → estudantes · pé → pés · lei → leis · troféu → troféus
Vogais e ditongos orais recebem apenas -s. É o padrão de longe mais frequente.
Plurais em -es: nomes terminados em -r, -z e -s
As palavras terminadas em -r ou -z acrescentam -es; a terminação em -z revela, no plural, o seu valor sibilante:
flor → flores · mar → mares · luz → luzes · rapaz → rapazes
-r e -z pedem -es.
As terminadas em -s dividem-se conforme a tonicidade. Se a palavra é aguda (ou monossílaba tónica), junta-se -es; se é grave ou esdrúxula, permanece invariável, distinguindo-se o número apenas pelo artigo:
o país → os países · o mês → os meses · o lápis → os lápis · o vírus → os vírus
Agudas em -s ganham -es; graves/esdrúxulas em -s não mudam.
Nomes terminados em -m: o -m torna-se -ns
Onde o singular tem -m, o plural tem -ns — uma mera convenção ortográfica para representar a nasalidade diante de -s:
homem → homens · jardim → jardins · som → sons · atum → atuns
-m → -ns. A vogal nasal mantém-se; muda só a notação.
Nomes terminados em -l: o -l cai e entra -is
As palavras terminadas em -l perdem o -l e tomam -is. O resultado depende da vogal anterior:
- -al, -el, -ol, -ul → -ais, -éis, -óis, -uis: animal → animais, papel → papéis, anzol → anzóis, paul → pauis;
- -il átono (palavra grave) → -eis: fóssil → fósseis, réptil → répteis;
- -il tónico (palavra aguda) → -is: funil → funis, fuzil → fuzis.
Repare-se no acento gráfico que surge em papéis e anzóis: o ditongo resultante é tónico e aberto, e a acentuação assinala-o.
O caso de -ão: -ões, -ães ou -ãos
Os nomes em -ão são o ponto onde a intuição falha, porque uma única terminação moderna esconde três terminações latinas diferentes, que evoluíram em paralelo. Daí os três plurais possíveis:
| Singular | Plural | Origem latina | Tipo |
|---|---|---|---|
| balão, coração, nação | balões, corações, nações | -ONE(M) | -ões |
| pão, cão, alemão, capitão | pães, cães, alemães, capitães | -ANE(M) | -ães |
| mão, irmão, cidadão, órfão | mãos, irmãos, cidadãos, órfãos | -ANU(M) | -ãos |
O padrão -ões é, de longe, o mais produtivo: é o que tomam quase todos os nomes novos e a esmagadora maioria dos existentes. O grupo -ães é pequeno e fechado; o grupo -ãos reúne sobretudo palavras paroxítonas (órfão, órgão, sótão) e alguns nomes muito antigos (mão, irmão).
Abertura da vogal: a metafonia
Num grupo de nomes masculinos, o plural não muda apenas a terminação: abre a vogal tónica, fechada [o] no singular e aberta [ɔ] no plural. É um resíduo de metafonia (inflexão vocálica condicionada pela vogal final latina) que ainda hoje se ouve e que distingue pares como estes:
| Singular | Plural | Significado |
|---|---|---|
| *ovo* [ˈo.vu] | *ovos* [ˈɔ.vuʃ] | egg(s) |
| *porco* [ˈpoɾ.ku] | *porcos* [ˈpɔɾ.kuʃ] | pig(s) |
| *osso* [ˈo.su] | *ossos* [ˈɔ.suʃ] | bone(s) |
| *olho* [ˈo.ʎu] | *olhos* [ˈɔ.ʎuʃ] | eye(s) |
A abertura não é geral: bolo [ˈbo.lu] mantém o o fechado no plural bolos [ˈbo.luʃ] . Trata-se de uma lista lexical, que o falante nativo conhece de ouvido.
Casos especiais
Os nomes compostos flexionam segundo a natureza dos seus elementos: pluralizam ambos quando são nome + nome ou nome + adjetivo (couve-flor → couves-flores, guarda-noturno → guardas-noturnos), mas só o primeiro elemento quando o segundo o determina ou quando se trata de verbo + nome (guarda-chuva → guarda-chuvas). Os diminutivos em -zinho pluralizam as duas partes: pão → pãezinhos, flor → florezinhas. Já as palavras terminadas em -x são invariáveis (o tórax → os tórax), tal como muitos estrangeirismos ainda não adaptados.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)