Gramática 文 · 05

Artigos e contrações

O artigo definido e indefinido em português, a sua concordância em género e número, e o sistema de contrações com preposições (do, na, pelo, ao, à) que define a língua escrita e falada.

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O artigo é a palavra que antecede o nome para o atualizar: indica se o ser referido é já conhecido do interlocutor ou se é introduzido pela primeira vez, e concorda com ele em género e número. O português tem duas séries de artigos — o definido e o indefinido — e um traço que o distingue de muitas línguas vizinhas: a fusão sistemática do artigo com certas preposições, dando as chamadas contrações (do, na, pelo, ao).

As duas séries de artigos

O artigo definido (o, a, os, as) apresenta o nome como identificável, quer porque já foi mencionado, quer porque é único no contexto. Descende do demonstrativo latino ille / illa (“aquele / aquela”), de que conserva o valor de mostrar e individualizar.

O artigo indefinido (um, uma, uns, umas), oriundo do numeral latino unum / unam (“um, uma”), apresenta o nome como novo ou não particularizado. No plural, uns e umas exprimem quantidade aproximada (“alguns”).

Comprei um livro. O livro é sobre Camões.

Comprei um livro [novo na conversa]. O livro [esse mesmo] é sobre Camões.

A concordância é obrigatória e completa:

masculinofeminino
definido, singularoa
definido, pluralosas
indefinido, singularumuma
indefinido, pluralunsumas

As contrações com preposições

Quando um artigo definido segue as preposições de, em, a ou por, funde-se obrigatoriamente com ela numa única palavra. Não há opção: escrever de o livro ou em a casa é agramatical.

preposição+ o+ a+ os+ as
dedodadosdas
emnonanosnas
aaoàaosàs
por (per)pelopelapelospelas

A série de por conserva, fossilizada, a forma medieval da preposição (per) e o antigo artigo lo / la, de que restou o -l-: per + lo → pelo.

Vou ao mercado e volto pela ponte; penso nisto desde manhã.

[ˈvow aw mɨɾˈkaðu i ˈvoltu ˈpelɐ ˈpõtɨ]

Vou ao mercado e volto pela ponte; penso nisto desde manhã.

Com o artigo indefinido, a contração é frequente na norma europeia e considerada correta, embora a forma analítica também se aceite: de + um → dum, em + um → num (e os respetivos femininos e plurais, duma, nuns, numas…).

A crase e o acento grave

A contração de a (preposição) com a (artigo feminino) resulta em duas vogais idênticas que se fundem numa só: é a crase, assinalada graficamente pelo acento grave à [a] . O acento marca uma vogal aberta e longa, em contraste com o a preposição isolado, breve e fechado.

A crase ocorre sempre que um verbo ou expressão que rege a introduz um nome feminino determinado, e também com as horas:

Fui à biblioteca às nove e fiquei atento à palestra.

Fui à biblioteca às nove e fiquei atento à palestra.

Não há crase diante de nome masculino (aí surge ao) nem diante de palavra que não admita artigo: Vou a Lisboa (sem artigo, logo sem crase), mas Vou à Madeira (porque se diz a Madeira).

Contrações com demonstrativos e pronomes

A mesma fusão estende-se aos demonstrativos e a alguns pronomes. As preposições de e em contraem-se com este, esse, aquele e suas variantes, e a contrai-se com a série de aquele, retomando o acento grave:

  • de + este → deste; de + aquilo → daquilo; de + ele → dele;
  • em + esse → nesse; em + um → num; em + ele → nele;
  • a + aquele → àquele; a + aquilo → àquilo.

Falo daquele autor, não deste; refiro-me àquilo que disseste.

Falo daquele autor, não deste; refiro-me àquilo que disseste.

Quando usar — e omitir — o artigo

O português é generoso no uso do artigo definido. Emprega-o, ao contrário do inglês, diante de nomes abstratos e de uso genérico (O tempo voa; Gosto da música) e, na norma europeia, diante do possessivo (o meu carro, a tua ideia). Surge ainda com a maioria dos nomes de países (a França, o Brasil), embora alguns o dispensem (Portugal, Angola, Moçambique).

Omite-se, em contrapartida, diante da maior parte dos nomes de cidades, em muitas locuções fixas (em casa, a pé, de cor) e perante nomes próprios em registo formal.

Dominar este sistema é, na prática, dominar boa parte da fluência: as contrações estão entre as palavras mais frequentes da língua, e a sua ausência ou troca delata de imediato o falante estrangeiro.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Eduardo Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  3. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)