Gramática 文 · 19
Preposições e contrações
As preposições do português, a regência que prendem a verbos, nomes e adjetivos, e o denso sistema de contrações com artigos, demonstrativos e pronomes que marca a língua.
ptA preposição é uma palavra invariável que liga dois elementos da frase, subordinando um ao outro: estabelece, entre eles, uma relação de lugar, tempo, causa, fim, posse, companhia ou matéria. É uma classe fechada — não se criam preposições novas —, mas das mais frequentes e gramaticalmente densas da língua. Em português, ela traz consigo duas particularidades notáveis: governa a forma do que se lhe segue (a regência) e funde-se foneticamente com a palavra seguinte num rico sistema de contrações.
O inventário
As preposições ditas simples (ou essenciais) são poucas e antiquíssimas, herdadas em bloco do latim:
a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trás.
A elas juntam-se preposições acidentais — palavras de outras classes que passam a funcionar como preposição (conforme, durante, exceto, mediante, salvo, segundo) — e as locuções prepositivas, grupos fixos terminados em preposição: antes de, depois de, através de, acerca de, a respeito de, em vez de, por causa de, junto a, perto de.
As quatro mais usadas — a, de, em, por — são também as que mais sentidos acumulam. De, por exemplo, exprime origem (venho de Lisboa), posse (o livro de Ana), matéria (uma estátua de pedra), causa (morrer de fome) e assunto (falámos de política), entre muitos outros valores.
Regência: a preposição que o verbo pede
Muitos verbos, nomes e adjetivos exigem uma preposição fixa para introduzir o seu complemento. A esse vínculo chama-se regência: não é livre, faz parte do significado da palavra e tem de se aprender caso a caso. Trocá-la soa a erro ou muda o sentido.
Assisti ao concerto. · Gosto de música. · Preciso de ajuda. · Penso em ti. · Casou com ela.
Cada verbo seleciona a sua preposição; a escolha é fixa e idiomática.
A regência verbal é um dos pontos em que o português europeu e o brasileiro mais divergem, sobretudo com verbos de movimento e de uso quotidiano.
Nomes e adjetivos herdam muitas vezes a regência do verbo correspondente: o gosto pela música, a necessidade de ajuda, fiel a alguém, capaz de tudo, contente com o resultado.
As contrações
A marca mais visível do sistema preposicional português é a contração: a fusão obrigatória de certas preposições com o artigo, o demonstrativo ou o pronome que se lhe segue. Quatro preposições contraem com o artigo definido:
| o | a | os | as | |
|---|---|---|---|---|
| de | do | da | dos | das |
| em | no | na | nos | nas |
| a | ao | à | aos | às |
| por | pelo | pela | pelos | pelas |
De e em contraem ainda com o artigo indefinido (dum, duma, num, numa), com os demonstrativos (deste, desse, daquele; neste, nisto, naquilo), com os pronomes pessoais (dele, dela, neles) e com alguns advérbios (daqui, daí, dali, donde). A preposição a contrai com os demonstrativos iniciados por a-: àquele, àquela, àquilo.
O caso de à: a contração e a crase
A forma à resulta da soma da preposição a com o artigo feminino a (a + a = à). O acento grave não marca tonicidade: assinala a crase, isto é, a fusão de duas vogais iguais numa só. No português europeu, essa fusão tem tradução fonética: a preposição-artigo simples a pronuncia-se reduzida, [ɐ] , ao passo que a contração à conserva a vogal aberta, [a] .
Vou a Lisboa. · Vou à cidade.
[ˈvo ɐ liʒˈβoɐ · ˈvo a siˈðaðɨ]
Sem artigo, a preposição é breve [ɐ]; com artigo contraído, ouve-se o [a] aberto da crase.
Com e as formas pronominais
A preposição com não contrai com o artigo, mas funde-se com os pronomes pessoais tónicos em formas próprias, herdadas do latim: comigo, contigo, consigo, connosco, convosco. São obrigatórias — não existe *com mim nem *com nós.
Não confundir
A fronteira entre por que, porque, porquê e por quê, ou entre a preposição a e a forma verbal há, é fonte constante de hesitação. Convém ainda distinguir a fim de (“com o objetivo de”) de afim (“semelhante”), e de encontro a (“em colisão com”) de ao encontro de (“ao favor de”). São casos em que a preposição, átona e quase apagada na fala, exige atenção redobrada na escrita.
Para o detalhe das contrações com o artigo do ponto de vista deste último, veja-se Artigos e contrações; para a regência nominal e a concordância, Concordância e regência.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)