Gramática 文 · 07

Pronomes pessoais

O sistema português de pronomes pessoais — formas de sujeito, formas átonas de complemento (direto e indireto) e formas tónicas usadas depois de preposição.

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Os pronomes pessoais são as palavras que designam diretamente os participantes do discurso — quem fala (eu, nós), com quem se fala (tu, vós) e aquilo ou aquele de que se fala (ele, ela, eles, elas). Em português, o pronome muda de forma consoante a função sintática que desempenha na frase: uma é a forma que serve de sujeito (eu), outra a que serve de complemento (me), outra ainda a que aparece depois de preposição (mim). Dominar este sistema é dominar boa parte da gramática da frase portuguesa.

Pronomes de sujeito

As formas de sujeito (também ditas retas ou nominativas) identificam o agente do verbo e impõem-lhe a concordância em pessoa e número.

PessoaSingularPlural
1.ªeunós
2.ªtuvós
3.ªele / elaeles / elas

Como o verbo português marca a pessoa na própria terminação, o pronome de sujeito é em regra omitido — o português é uma língua de sujeito nulo. Diz-se normalmente Falo português, e não Eu falo português; o pronome só aparece para enfatizar ou contrastar o sujeito (Eu pago, tu esperas).

Pronomes átonos de complemento

As formas átonas (ou clíticas) não têm acento próprio e apoiam-se foneticamente no verbo. Distinguem o complemento direto (objeto da ação) do complemento indireto (o destinatário ou beneficiário).

PessoaDiretoIndireto
1.ª sing.meme
2.ª sing.tete
3.ª sing.o / alhe
1.ª pl.nosnos
2.ª pl.vosvos
3.ª pl.os / aslhes

Vi o Pedro → Vi-o. · Dei o livro ao Pedro → Dei-lhe o livro.

Direto (o = «o Pedro») vs. indireto (lhe = «ao Pedro»).

As formas de 3.ª pessoa o, a, os, as alteram-se por razões fonéticas. Depois de verbo terminado em -r, -s ou -z, essas consoantes caem e o pronome toma a forma lo, la, los, las (amar + oamá-lo [ɐˈma lu] ; fazes + ofá-lo). Depois de forma verbal terminada em ditongo nasal, o pronome toma a forma no, na, nos, nas (dão + odão-no; põem + aspõem-nas).

Quando coexistem um complemento direto e um indireto de 3.ª pessoa, ambos átonos, contraem-se numa só palavra: me + omo, te + oto, lhe + olho, nos + ono-lo, vos + ovo-lo.

Ele emprestou-me a chave → Ele emprestou-ma. · Eu dou-te os bilhetes → Eu dou-tos.

ma = me + a; tos = te + os. A contração é obrigatória, não opcional.

A posição do pronome átono em relação ao verbo — antes (próclise), depois (ênclise) ou no meio do futuro e do condicional (mesóclise) — segue regras próprias, tratadas em colocação pronominal. Em português europeu, a posição de base é a ênclise (Chamo-me Ana), ao passo que palavras como não, que, ou todos atraem o pronome para antes do verbo (Não me chamo Ana).

Pronomes tónicos e preposicionais

Depois de preposição usam-se as formas tónicas (com acento próprio). Na 1.ª e 2.ª pessoas do singular, são distintas de todas as outras: mim e ti.

PessoaFormaPessoaForma
1.ª sing.mim1.ª pl.nós
2.ª sing.ti2.ª pl.vós
3.ª sing.ele / ela / si3.ª pl.eles / elas / si

Isto é para mim. · Vou contigo, não vou sem ti. · Ela só pensa em si.

Depois de preposição nunca se usa eu/tu: diz-se «para mim», nunca «para eu».

A forma reflexa si refere o próprio sujeito (Ele trouxe o livro para si — para ele próprio). Em português europeu, si serve também de pronome de tratamento cortês, equivalente a você depois de preposição (É para si, dito a um interlocutor).

As formas com a preposição com

A preposição com funde-se com o pronome numa forma própria, herdada do latim:

comigo · contigo · consigo · connosco · convosco

com + mim/ti/si/nós/vós. São as únicas formas possíveis: nunca «com mim».

Síntese

A cada pessoa gramatical correspondem, pois, três séries de formas — sujeito, complemento átono e tónica/preposicional — que se escolhem segundo a função na frase. A clareza no seu uso, em particular a distinção entre o/a e lhe e a correção das contrações (mo, lho, connosco), é uma das marcas mais seguras do domínio do português europeu culto.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)