Gramática 文 · 08

Colocação pronominal

Onde colocar os pronomes átonos em português europeu — a ênclise de base, a próclise das palavras atrativas e a rara mesóclise do futuro e do condicional.

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A colocação pronominal é o conjunto de regras que determina onde se coloca o pronome pessoal átono — o clítico — relativamente ao verbo de que depende. São pronomes como me, te, se, lhe, nos, vos, o, a, os, as: formas sem acento próprio que se apoiam foneticamente no verbo. Em português, esse apoio pode dar-se em três posições, e a escolha entre elas — longe de ser livre — obedece a princípios bem definidos que distinguem nitidamente a norma europeia da brasileira.

Três posições

Os clíticos podem ocupar três posições em relação ao verbo:

  • ênclise — o clítico vem depois do verbo, ligado por hífen: deu-me;
  • próclise — o clítico vem antes do verbo, sem hífen: não me deu;
  • mesóclise — o clítico aloja-se dentro da forma verbal, partindo-a: dar-me-á.

A ênclise é a posição de base do português europeu. A próclise é imposta por um conjunto de palavras que «atraem» o clítico para diante do verbo. A mesóclise, caso particularíssimo, só aparece no futuro e no condicional, e apenas quando nada desencadeia a próclise.

A ênclise: a posição neutra

Na ausência de fatores que obriguem a outra colocação, o português europeu coloca o clítico depois do verbo. É o caso das orações afirmativas com o verbo em início absoluto e das frases declarativas comuns.

Deu-me o livro ontem.

[ˈdew mɨ]

Deu-me o livro ontem (lit. «deu-me»).

O João lembrou-se do nosso encontro.

O sujeito O João não atrai o clítico: mantém-se a ênclise.

Note-se que um sujeito nominal comum, como O João, não desencadeia próclise: a frase neutra conserva a ênclise. É justamente este ponto que mais separa a norma europeia da brasileira, em que a próclise se generalizou.

A próclise: as palavras atrativas

Certas palavras, ao anteceder o verbo, atraem obrigatoriamente o clítico para antes dele. Chamam-se palavras atrativas ou proclisadoras. As principais são:

Tipo de atratorExemplosFrase
Advérbios de negaçãonão, nunca, jamais, nem, nadaNão me disse nada.
Advérbiosjá, sempre, ainda, talvez, só, também, bemte avisei.
Conjunções subordinativasque, porque, quando, se, embora, comoSei que se enganou.
Pronomes relativosque, quem, onde, o qualO homem que me ajudou.
Pronomes/advérbios interrogativosquem, que, quando, como, porquêQuem te contou isso?
Sujeitos indefinidos e quantificadoresalguém, todos, tudo, poucos, ambosTodos o sabiam.

A lógica é uniforme: sempre que o verbo é precedido por um destes elementos, o clítico recua para a próclise. Compare-se a frase neutra com a sua versão negada:

Lembrou-se do encontro. → Não se lembrou do encontro.

A negação não força a próclise: o clítico passa de depois para antes do verbo.

A próclise é também a regra nas orações subordinadas (Disse que me telefonava), nas interrogativas e exclamativas introduzidas por palavra interrogativa, e nas frases com advérbios focalizadores como ou também.

A mesóclise: dentro do verbo

A mesóclise é o traço mais singular do sistema e quase exclusivo do português europeu culto e escrito. Ocorre apenas no futuro do indicativo e no condicional (futuro do pretérito), e somente quando nenhuma palavra atrativa exige a próclise. Nestes casos, o clítico insere-se no interior da forma verbal:

Dar-te-ei uma resposta amanhã.

[daɾ tɨ ˈɐj]

I shall give you an answer tomorrow.

Falar-lhe-ia, se pudesse.

Falaria com ele, se pudesse.

A explicação é histórica. O futuro e o condicional românicos formaram-se da perífrase infinitivo + haver: amar + hei deu amarei; amar + havia deu amaria. Enquanto a perífrase ainda se sentia como duas palavras, o clítico encaixava-se entre o infinitivo e o auxiliar — e essa colocação fossilizou-se. Por isso a mesóclise corta o verbo precisamente na antiga junção: amá- + -lo- + -ei.

A seguinte tabela mostra a mesóclise do verbo amar com o clítico o em todo o futuro do indicativo:

Futuro com mesóclise — amar + o
eu amá-lo-ei
tu amá-lo-ás
ele/ela amá-lo-á
nós amá-lo-emos
vós amá-lo-eis
eles/elas amá-lo-ão

Basta, porém, uma palavra atrativa para que a mesóclise dê lugar à próclise: Dar-lhe-ei o livro, mas Não lhe darei o livro — nunca *Não dar-lhe-ei.

Formas combinadas e ajustes fonéticos

Quando dois clíticos se encontram — um de complemento indireto e outro de complemento direto —, fundem-se numa só forma contraída:

Indireto + diretoForma combinadaExemplo
me + o/amo / maDeu-mo ontem.
te + o/ato / taEu to dou.
lhe + o/alho / lhaEntreguei-lho.
nos + o/ano-lo / no-laTrouxeram-no-lo.
vos + o/avo-lo / vo-laDir-vo-lo-ei.

Os clíticos de terceira pessoa o, a, os, as sofrem ainda alterações segundo a terminação do verbo a que se encostam na ênclise. Após verbo terminado em -r, -s ou -z, essa consoante cai e o clítico toma a forma -lo, -la: amar + o torna-se amá-lo [ɐˈma.lu] ; fez + o torna-se fê-lo [ˈfe.lu] . Após terminação nasal (-ão, -õe, -m), o clítico toma a forma -no, -na: dão + odão-no.

Alomorfes do clítico de 3.ª pessoa na ênclise
Terminação do verboForma do clíticoExemploPronúncia
-r, -s, -z*-lo, -la**amar + o* → *amá-lo*[ɐˈma.lu]
-ão, -õe, -m*-no, -na**dão + o* → *dão-no*[ˈdɐ̃w̃.nu]
outras*-o, -a**deu + o* → *deu-o*[ˈdew.u]

Locuções verbais

Com um auxiliar seguido de infinitivo ou gerúndio, o clítico admite alguma mobilidade: pode encostar-se ao auxiliar ou ao verbo principal. Sem atrator, a norma europeia prefere a ênclise ao auxiliar (Vou dizer-te ou Vou-te dizer) ou, mais frequentemente, ao infinitivo (Vou dizer-te a verdade). Havendo palavra atrativa, o clítico vai para diante do conjunto: Não te vou dizer nada.

Síntese

A colocação pronominal resume-se a uma hierarquia simples: a ênclise é o ponto de partida; uma palavra atrativa impõe a próclise; e, no futuro e no condicional sem atrator, a posição enclítica converte-se em mesóclise, encaixe herdado da origem perifrástica destes tempos. Dominar estas três posições — e reconhecer os atratores que as comandam — é uma das marcas mais seguras do domínio da norma europeia escrita.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Evanildo Bechara. Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)