Gramática 文 · 25

Diferenças gramaticais entre o português europeu e o brasileiro

As divergências sintáticas que mais separam o português europeu do brasileiro: gerúndio, colocação dos clíticos, o tratamento por você e a regência das preposições.

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O português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) partilham uma mesma gramática de base e são plenamente inteligíveis na escrita formal. Mas, sobretudo na língua corrente, separam-nos um conjunto de divergências sintáticas — mais do que ortográficas ou lexicais — que um falante reconhece de imediato. Quatro delas são particularmente sistemáticas: a expressão do aspeto progressivo (gerúndio), a colocação dos pronomes átonos, o sistema de tratamento em torno de você, e a regência de algumas preposições.

O progressivo: estar a + infinitivo vs. gerúndio

A diferença mais audível está na forma de exprimir uma ação em curso. O português europeu recorre, de modo dominante, à perífrase estar a + infinitivo; o brasileiro mantém o gerúndio herdado do latim, hoje minoritário em Portugal nesta função.

Estou a ler o jornal. · Ela estava a trabalhar quando cheguei.

O progressivo europeu constrói-se com estar a + infinitivo.

Não se trata de o gerúndio ter desaparecido do PE: ele subsiste, vivo, em orações adverbiais (Chegando a casa, telefonou), em construções de modo (Saiu a correr ao lado de Saiu correndo) e na linguagem escrita. O que mudou foi o domínio do progressivo, onde a perífrase com infinitivo se generalizou em Portugal a partir dos séculos XVII–XVIII. Curiosamente, o gerúndio progressivo não desapareceu por completo do território europeu: sobrevive em alguns dialetos do sul (Alentejo, Algarve), onde ainda se ouve estou fazendo ao lado da forma hoje padrão estou a fazer — lembrança de um estado de língua anterior.

A colocação dos pronomes átonos

Os pronomes clíticos (me, te, se, o, a, lhe, nos…) ocupam posições diferentes nas duas variedades. No PE, a posição não marcada é a ênclise — o pronome depois do verbo, ligado por hífen:

Dá-me o livro. · Chamo-me Ana. · Viu-o ontem na rua.

Em PE, sem fator atrativo, o clítico segue o verbo (ênclise).

A próclise (pronome antes do verbo) só ocorre, em PE, quando há um atrator que a desencadeia: a negação (não me disse), certos advérbios (já te avisei, também se enganou), conjunções subordinativas (sei que te viu), pronomes relativos e interrogativos (quem te chamou?), e orações com palavras como ou todos. Acrescente-se a mesóclise, hoje quase só europeia e literária, em que o clítico se insere no interior do futuro e do condicional:

Dar-te-ei a resposta amanhã. · Far-se-ia o necessário.

[ˈdaɾ tɨ ˈɐj]

A mesóclise — clítico no meio do verbo — sobrevive sobretudo no PE culto.

Você e as formas de tratamento

O pronome você tem estatutos opostos nas duas margens. Em Portugal é uma forma de tratamento de terceira pessoa que exprime uma cortesia intermédia — nem a intimidade de tu, nem a deferência de o senhor / a senhora — e que, por ser ambígua e por vezes ríspida, é muitas vezes evitada: prefere-se tu com os próximos e o senhor com os mais distantes, ou ainda o tratamento pelo nome ou pelo cargo (A Maria quer um café?).

Tu queres um café? (íntimo) · O senhor aceita um café? (formal)

Em PE, a segunda pessoa familiar é tu; a formal, o senhor / a senhora.

A concordância segue a forma: tu leva o verbo na segunda pessoa (tu tens), com os possessivos teu/tua; você e o senhor levam o verbo na terceira (você tem, o senhor tem), com seu/sua.

A regência das preposições

A sintaxe das preposições — sobretudo com verbos de movimento e de chegada — revela um contraste nítido. O PE distingue a e para segundo a duração da deslocação, e usa a para a ideia de chegada a um ponto:

Vou a Lisboa amanhã. (e volto) · Vou para Lisboa. (mudo-me) · Cheguei a casa tarde.

Em PE, a marca a deslocação pontual ou a chegada; para, a permanência.

O verbo chegar rege, em PE, a preposição a (cheguei à escola); muitos verbos mantêm regências que o uso brasileiro alterou (assistir a um filme, namorar alguém).

Síntese

O quadro reúne os quatro contrastes nucleares. Note-se que, em todos eles, a forma europeia não é “mais correta”: é a norma de uma variedade, espelhada por uma norma brasileira igualmente coerente e plena.

DomínioPortuguês europeuPortuguês brasileiro
Progressivoestou a falarestou falando
Clítico (neutro)ênclise: dá-mepróclise: me
Futuro + clíticomesóclise: dar-te-eipróclise: te darei
Tratamento geraltu (+ 2.ª pessoa)você (+ 3.ª pessoa)
Movimento/chegadacheguei a casacheguei em casa

Estas divergências são, na sua maioria, fruto de conservação de um lado e inovação do outro — e nem sempre é o Brasil o inovador: o gerúndio progressivo brasileiro é, na verdade, o uso mais antigo, que Portugal substituiu. A distância entre as duas gramáticas é real, mas circunscrita: opera sobre um mesmo sistema, o que explica por que razão, lida em voz alta, uma frase de Lisboa e uma de São Paulo continuam a ser, sem esforço, a mesma língua.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Mário A. Perini. Modern Portuguese: A Reference Grammar . Yale University Press (2002)
  4. Paul Teyssier. Manual de Língua Portuguesa (Portugal–Brasil) . Coimbra Editora (1989)