Gramática 文 · 16

Formas nominais do verbo

O infinitivo, o gerúndio e o particípio — as formas verbais sem flexão de pessoa nem de modo — e a preferência do português europeu por «estar a + infinitivo» onde o Brasil usa o gerúndio.

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Chamam-se formas nominais do verbo as três formas que não exprimem por si só nem pessoa, nem número, nem modo ou tempo: o infinitivo, o gerúndio e o particípio. A designação vem de partilharem propriedades com os nomes: o infinitivo funciona muitas vezes como substantivo, o particípio como adjetivo e o gerúndio como advérbio. Por oposição, as formas que marcam a pessoa (amo, amavas, amaríamos) dizem-se finitas.

As três têm desinências fixas, regulares na maioria dos verbos:

cantar · cantando · cantado  ·  beber · bebendo · bebido  ·  partir · partindo · partido

Infinitivo em -r, gerúndio em -ndo, particípio em -do, nas três conjugações.

O infinitivo

O infinitivo é a forma de citação do verbo — aquela por que ele aparece nos dicionários — e termina sempre em -r: falar, vender, sentir. Designa o processo verbal na sua máxima generalidade e pode ocupar a posição de um nome: errar é humano, o cantar das aves.

O português distingue duas espécies de infinitivo. O infinitivo impessoal é invariável (é bom estudar). O infinitivo pessoal ou flexionado, traço raro entre as línguas românicas, recebe desinências de pessoa quando tem sujeito próprio: é bom estudares «é bom que tu estudes», para chegarmos a horas. Trata-se de um recurso de tal modo característico que lhe é dedicado um artigo à parte.

O gerúndio

O gerúndio termina em -ndo e exprime um processo em curso ou uma circunstância que acompanha a ação principal. Tem valor sobretudo adverbial:

Saiu de casa cantando. · Sendo assim, fico. · Tendo terminado, partimos.

Modo, condição e anterioridade: o gerúndio simples e o composto (tendo + particípio).

No português europeu o gerúndio mantém-se vivo nestes empregos adverbiais e em orações reduzidas, mas recuou no valor progressivo — o de indicar uma ação a decorrer no momento. Esse valor exprime-se preferencialmente por uma perífrase, como se verá adiante.

O particípio

O particípio termina, na forma regular, em -do e desempenha duas funções principais. Combinado com os auxiliares ter e haver, forma os tempos compostos, e aí é invariável: tinha falado, havíamos partido. Combinado com ser ou estar, ou usado como adjetivo, concorda em género e número com o nome: as cartas foram escritas, a porta está fechada.

Particípios duplos

Numerosos verbos possuem dois particípios: um regular, em -ado / -ido, e um irregular, mais curto. A norma tradicional reserva a forma regular para os tempos compostos (com ter / haver) e a forma curta para a passiva e o valor adjetival (com ser / estar), embora o uso real seja menos rígido.

Particípios duplos frequentes
InfinitivoRegular (ter/haver)Curto (ser/estar)
*aceitar*aceitadoaceite
*entregar*entregadoentregue
*ganhar*ganhadoganho
*pagar*pagadopago
*limpar*limpadolimpo
*matar*matadomorto

No português europeu, formas curtas como aceite, ganho, gasto e pago predominam hoje também junto de ter e haver (tinha aceite, tinha pago), ao passo que a forma regular se sente cada vez mais arcaizante.

«Estar a + infinitivo» versus o gerúndio

A marca sintática mais conhecida do português europeu nesta matéria é a construção do aspeto progressivo. Para dizer que uma ação está a decorrer, a norma europeia usa estar a + infinitivo:

Estou a ler o jornal. · Ela está a falar ao telefone.

[ʃˈto ɐ ˈleɾ]

Aspeto progressivo no português europeu: estar a + infinitivo.

A mesma construção estende-se a outros auxiliares de aspeto: andar a, continuar a, começar a (ando a estudar alemão, continua a chover). O gerúndio progressivo (estou lendo), embora gramatical e historicamente legítimo, soa hoje, em Portugal, regional ou literário.

Em síntese

As formas nominais são o esqueleto não conjugado do verbo: o infinitivo nomeia o processo, o gerúndio descreve-o em decurso ou como circunstância, e o particípio fá-lo concordar com o nome ou formar os tempos compostos. A escolha entre estar a + infinitivo e o gerúndio é, dentro deste conjunto, o ponto em que a sintaxe europeia mais visivelmente se separa da brasileira.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)