Gramática 文 · 15

O infinitivo pessoal

O infinitivo flexionado — uma forma verbal que, caso raríssimo entre as línguas do mundo, conjuga o infinitivo por pessoa e número. É uma das assinaturas do português.

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O infinitivo pessoal — ou infinitivo flexionado — é uma forma verbal que conjuga o infinitivo por pessoa e número, dotando-o de terminações que indicam quem pratica a ação: falar, mas falarmos; partir, mas partires. É um traço que o português partilha apenas com o galego e que, no panorama das línguas do mundo, constitui uma raridade notável: um verbo que, sendo nominal e indeterminado por natureza, mesmo assim concorda com um sujeito. Poucos fenómenos identificam tão depressa a língua portuguesa a olhos de um romanista.

As formas

O infinitivo pessoal forma-se a partir do infinitivo impessoal, acrescentando-lhe as terminações de pessoa. Nas primeiras e terceiras pessoas do singular a forma coincide com o infinitivo simples; as restantes recebem desinências próprias.

Infinitivo pessoal de *falar*
eu falar
tu falares
ele/ela falar
nós falarmos
vós falardes
eles/elas falarem

As desinências são invariáveis e aplicam-se a todas as conjugações, regulares ou irregulares, sem qualquer alteração do radical:

PessoaDesinênciafalarcomerpartir
eufalarcomerpartir
tu-esfalarescomerespartires
ele/elafalarcomerpartir
nós-mosfalarmoscomermospartirmos
vós-desfalardescomerdespartirdes
eles/elas-emfalaremcomerempartirem

Note-se que a forma de nósfalarmos [fɐˈlaɾmuʃ] , partirmos [pɐɾˈtiɾmuʃ] — se distingue do infinitivo impessoal pelo -mos, e que a de eles termina sempre em -em. A forma de vós (-des) é hoje literária ou regional, como o próprio pronome.

Quando se usa

A regra de ouro é simples: o infinitivo pessoal usa-se quando a oração de infinitivo tem sujeito próprio, sobretudo se este difere do sujeito da oração principal. A flexão torna explícito quem age, sem necessidade de uma conjunção ou de um verbo conjugado.

É preciso trabalharmos mais.

[ɛ ˈpɾɛʃizu tɾɐβɐˈʎaɾmuʃ ˈmajʃ]

É necessário que nós trabalhemos mais — o «-mos» basta para dizer «nós».

É particularmente frequente depois de preposições e locuções que introduzem orações adverbiais — para, por, sem, até, ao, depois de, antes de, apesar de — em que o sujeito do infinitivo é distinto do principal:

  • Comprei estes livros para vocês lerem. — para que vocês os leiam.
  • Ao entrarmos na sala, todos se calaram. — quando nós entrámos.
  • Depois de as crianças adormecerem, saímos.
  • Agradeço-vos por terdes vindo.

Quando o sujeito do infinitivo é o mesmo do verbo principal e está junto dele, o infinitivo impessoal costuma bastar: queremos partir, e não queremos partirmos. A flexão impõe-se, porém, sempre que se quer marcar com clareza o sujeito, dar-lhe ênfase, ou quando a forma verbal está afastada do seu sujeito. Compare-se:

É difícil aceitar isto. / É difícil aceitarmos isto.

A primeira é geral, impessoal («é difícil de aceitar»); a segunda diz que somos nós quem tem dificuldade em aceitar.

Esta possibilidade de oscilação dá ao português uma subtileza estilística rara: muitas vezes ambas as formas são gramaticais, e a escolha entre flexionar ou não flexionar exprime uma nuance de foco e de pessoalidade.

O sósia: futuro do conjuntivo

Nos verbos regulares, o infinitivo pessoal é idêntico ao futuro do conjuntivo: quando falarmos, se partires. A coincidência é só aparente. Distinguem-se pela sintaxe — o futuro do conjuntivo pede uma conjunção como se, quando ou logo que — e, decisivamente, pela morfologia dos verbos irregulares, em que os dois paradigmas divergem por completo, porque o futuro do conjuntivo se constrói sobre o radical do pretérito:

PessoaInfinitivo pessoalFuturo do conjuntivo
euser · fazer · terfor · fizer · tiver
tuseres · fazeres · teresfores · fizeres · tiveres
nóssermos · fazermos · termosformos · fizermos · tivermos
elesserem · fazerem · teremforem · fizerem · tiverem

Assim, para eles virem (infinitivo pessoal de vir) opõe-se a se eles vierem (futuro do conjuntivo). Saber distinguir os dois é uma das chaves da boa morfologia verbal portuguesa.

Uma exceção que confirma a regra

Há um contexto em que a tradição gramatical desaconselha a flexão mesmo com sujeito plural: depois dos verbos causativos (mandar, deixar, fazer) e dos verbos de perceção (ver, ouvir, sentir), quando estes regem diretamente o infinitivo. Diz-se mandei-os sair e ouvi-as cantar, e não mandei-os sairem. O infinitivo funciona aqui como complemento do verbo principal, sem sujeito autónomo, e por isso permanece impessoal.

De onde vem

A origem do infinitivo flexionado é uma das questões mais debatidas da linguística românica, porque o latim não possuía uma forma equivalente. Duas explicações disputam o terreno.

A primeira, de raiz fonética, faz descender o infinitivo pessoal do imperfeito do conjuntivo latino (amārem, amārēs, amāret, amārēmus, amārētis, amārent), cujas terminações correspondem com regularidade às portuguesas (-mus > -mos, -tis > -des, -nt > -m). Esta mesma origem explicaria a fusão formal, nos verbos regulares, com o futuro do conjuntivo.

A segunda, de raiz morfológica, vê no fenómeno uma inovação do galego-português: um infinitivo que, por analogia, adotou as desinências pessoais já presentes no futuro do conjuntivo, espraiando-se depois por todo o paradigma. A favor desta hipótese pesa o facto de surgirem vestígios de infinitivos flexionados em textos antigos leoneses, o que sugere uma criação ibero-românica e não uma herança direta. As gramáticas históricas modernas tendem a conjugar os dois fatores: uma base formal herdada, reinterpretada e generalizada por analogia.

Uma assinatura da língua

Seja qual for a sua génese, o infinitivo pessoal é hoje um dos traços mais caracteristicamente portugueses. Onde o castelhano, o francês ou o italiano recorrem a orações conjuncionais (para que nós saibamos, pour que nous sachions), o português dispõe de uma economia elegante: para sabermos. Permite construir orações de infinitivo com sujeito próprio, claro e flexionado, e dá à prosa portuguesa uma fluidez sintática que os tradutores das outras línguas românicas frequentemente invejam.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Theodoro Henrique Maurer Jr.. O Infinito Flexionado Português: estudo histórico-descritivo . Companhia Editora Nacional (1968)
  3. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (org.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  4. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)