Gramática 文 · 17

Verbos irregulares

Os verbos que fogem ao modelo das três conjugações — os pretéritos fortes herdados do latim, o supletivismo de ser e ir, as alternâncias do radical e os grandes irregulares de alta frequência.

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A conjugação portuguesa é, no essencial, regular: conhecido o infinitivo, a vogal temática e o modelo da conjugação, deduzem-se por analogia mais de cinquenta formas. Os verbos irregulares são aqueles em que essa dedução falha — porque o radical muda, porque os sufixos não são os esperados, ou ambos. São poucos, mas estão entre os verbos mais usados da língua, e por isso a sua irregularidade é tão saliente quanto inevitável de aprender.

O que torna um verbo irregular

Um verbo diz-se irregular quando alguma das suas formas se afasta do paradigma do verbo-modelo da sua conjugação (amar, vender, partir). Convém distinguir dois tipos de afastamento:

  • irregularidades sistemáticas, que seguem uma regra própria e previsível e afetam grupos inteiros de verbos (as alternâncias do radical, as alterações ortográficas de ficar → fiquei ou começar → comecei);
  • irregularidades lexicais, idiossincráticas, que é preciso memorizar verbo a verbo (ser, ir, fazer, pôr).

A maior parte das irregularidades concentra-se em dois pontos do paradigma: a primeira pessoa do presente do indicativo (faço, digo, peço), de que derivam todo o presente do conjuntivo e o imperativo, e o pretérito perfeito, de que derivam o mais-que-perfeito, o imperfeito do conjuntivo e o futuro do conjuntivo.

Os pretéritos fortes

O grupo irregular mais coeso é o dos pretéritos fortes (ou perfeitos fortes). Nos verbos regulares, o acento do pretérito cai na terminação — cantei, cantou, vendi, vendeu. Nos fortes, herdados de perfeitos latinos rizotónicos, o acento recua para o radical na primeira e na terceira pessoas do singular:

Pretérito perfeito de *fazer*
eu fiz
tu fizeste
ele/ela fez
nós fizemos
vós fizestes
eles/elas fizeram

Repare-se em fiz e fez, tónicos no radical e sem a vogal temática regular. Este mesmo molde — vindo de formas latinas como FĒCĪ (fazer), DĪXĪ (dizer), HABUĪ (haver), POTUĪ (poder), SAPUĪ (saber) ou TENUĪ (ter) — explica famílias inteiras: disse, trouxe, quis, soube, coube, houve, pôs, pôde, teve, esteve, veio.

Ele não pôde vir, mas pode telefonar amanhã.

O acento circunflexo distingue o pretérito *pôde* (POTUIT) do presente *pode* — única diferença gráfica e tónica entre as duas formas.

Supletivismo: ser e ir

O caso extremo de irregularidade é o supletivismo: quando o paradigma de um verbo reúne formas de raízes etimológicas diferentes. Em português, ser e ir partilham, no pretérito perfeito, exatamente as mesmas formas — fui, foste, foi, fomos, fostes, foram —, herdadas do perfeito do latim esse. Só o contexto desfaz a ambiguidade:

Fui ao Porto de comboio. · Em novo, fui professor.

A mesma forma *fui* vale para *ir* (deslocação) e para *ser* (identidade); o sentido decide-se pela frase.

O verbo ser acumula ainda formas de outra origem no presente (sou, és, é) e no imperfeito (era), o que faz dele o verbo mais irregular da língua.

Alternâncias do radical

Muitos verbos da terceira conjugação têm uma vogal e ou o no radical que se altera de forma regular consoante a sílaba seja tónica ou átona. Na primeira pessoa do presente do indicativo, o e sobe a i e o o sobe a u; nas restantes pessoas tónicas reaparece o timbre médio. É uma irregularidade previsível, não lexical:

InfinitivoEu (presente)Tu (presente)
servirsirvoserves
dormirdurmodormes
preferirprefiropreferes
subirsubosobes

A estas juntam-se as alterações puramente ortográficas, que mantêm o som do radical: c → qu (ficar → fiquei), g → gu (chegar → cheguei), ç → c (começar → comecei), g → j (proteger → protejo).

Os irregulares de alta frequência

Um punhado de verbos concentra a irregularidade mais imprevisível — e são, não por acaso, os mais frequentes. Convém sabê-los de cor:

InfinitivoPresente (eu)Pretérito (ele)
sersoufoi
estarestouesteve
tertenhoteve
haverheihouve
irvoufoi
virvenhoveio
vervejoviu
dardoudeu
fazerfaçofez
dizerdigodisse
trazertragotrouxe
pôrponhopôs
poderpossopôde
quererqueroquis
saberseisoube

Note-se que vir e ver se cruzam de modo traiçoeiro: vimos tanto é o presente de vir como o pretérito de ver, e só a frase distingue nós vimos do Porto (vir) de ontem vimos o filme (ver).

Particípios duplos e verbos defetivos

Alguns verbos são abundantes: têm dois particípios, um regular (usado nos tempos compostos, com ter) e um irregular, mais curto (usado como adjetivo e na voz passiva, com ser ou estar) — tinha aceitado mas a proposta foi aceite; tinha entregado mas o trabalho está entregue. Outros são defetivos, isto é, não possuem certas formas: de abolir ou falir evita-se a primeira pessoa do presente, e reaver só se conjuga onde haver conserva o v (reavemos, reouve).

Aprender os irregulares

A estratégia mais eficaz não é decorar listas avulsas, mas fixar os pontos de irradiação: a primeira pessoa do presente, de onde sai todo o conjuntivo, e a terceira pessoa do pretérito, de onde saem os tempos do passado. Dominados estes dois pivôs nos quinze verbos do quadro acima, quase toda a irregularidade do português fica ao alcance — porque o resto da conjugação, mesmo neles, continua a obedecer ao sistema.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  3. Edwin B. Williams. From Latin to Portuguese . University of Pennsylvania Press (1938)