Gramática 文 · 18

Ser, estar e ficar

O sistema copulativo do português distingue a essência (ser) da circunstância (estar) e da mudança (ficar) — uma trindade de cópulas que codifica gramaticalmente o aspeto.

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Onde muitas línguas dispõem de um único verbo ser, o português distribui essa função por três cópulas distintas: ser [seɾ] , estar [ɨʃˈtaɾ] e ficar [fiˈkaɾ] . A escolha entre elas não é estilística: cada uma codifica uma relação diferente entre o sujeito e a propriedade que se lhe atribui. Ser exprime a essência, estar a circunstância, ficar a mudança. Por trás desta divisão está uma categoria central da gramática — o aspeto.

Ser: a essência e a identidade

Ser atribui ao sujeito propriedades vistas como inerentes, permanentes ou definitórias — aquilo que ele é, e não apenas como se encontra num dado momento. Liga-se à identidade, à classificação, à origem, à matéria, à posse, à hora e à definição.

O Pedro é médico. · A mesa é de madeira. · Hoje é terça-feira. · Dois e dois são quatro.

Profissão, matéria, tempo do calendário e verdade permanente: domínios típicos de ser.

Em termos linguísticos, ser combina-se com predicados de indivíduo (individual-level): propriedades que caracterizam a entidade enquanto tal, sem referência a um intervalo de tempo particular. Por isso ser é também a cópula da voz passiva de ação (A ponte foi construída em 1900).

Estar: o estado e a circunstância

Estar apresenta o sujeito num estado transitório, resultante de circunstâncias ou sujeito a mudança: como ele está agora, não o que é por natureza. Cobre estados físicos e anímicos passageiros, a localização e o resultado de um processo.

A sopa está fria. · Estou cansado. · O João está em Lisboa. · A porta está aberta.

Estado passageiro, localização e estado resultante: domínios típicos de estar.

Estar seleciona predicados de estádio (stage-level): propriedades válidas para uma fase ou um intervalo, não para a entidade em abstrato. O contraste com ser é o coração do sistema, e o mesmo adjetivo muda de sentido conforme a cópula:

AdjetivoCom ser (essência)Com estar (circunstância)
bomé bom — bondoso, de boa qualidadeestá bom — saboroso agora; em boa forma
nervosoé nervosa — de temperamento ansiosoestá nervosa — ansiosa neste momento
vivoé vivo — esperto, vivaçoestá vivo — não está morto
ricoé rico — abastadoestá rico — ficou delicioso (de comida)

Ficar: a cópula da mudança

Ficar introduz uma terceira dimensão: a transição de um estado para outro. Onde ser e estar descrevem, ficar narra uma passagem — corresponde, em boa medida, ao inglês to become ou to get. É, por natureza, uma cópula incoativa (de entrada num estado).

Ele ficou doente. · A casa ficou limpa. · Fiquei contente com a notícia.

Entrada num novo estado: ficar marca a mudança que ser e estar não exprimem.

Em português europeu, ficar assume ainda a localização permanente de referentes não deslocáveis, onde o falante de outras variedades poderia hesitar:

A Sé fica no centro da cidade. · Braga fica a norte do Porto.

Para a localização fixa de edifícios e lugares, o PE prefere ficar a estar.

Ser, estar e o aspeto verbal

O par ser/estar projeta-se também na expressão do aspeto progressivo. O português europeu forma o progressivo com estar a + infinitivo, construção que dá a um acontecimento a leitura de ação em curso.

Estou a ler o jornal. · Eles estavam a sair quando cheguei.

Estou a ler = «estou no meio da ação de ler». O progressivo europeu usa estar a + infinitivo.

Duas passivas: ação e estado

A oposição aspetual reaparece na voz passiva. Ser + particípio descreve a ação; estar + particípio descreve o estado resultante dessa ação.

A loja foi fechada às oito. (ação) · A loja já estava fechada. (estado)

Foi fechada relata o ato de fechar; estava fechada descreve a situação que dele resultou.

Ficar, coerente com o seu valor incoativo, exprime aqui a entrada no estado resultante: A loja ficou fechada sublinha a mudança — passou a estar fechada e assim permaneceu.

Uma fronteira que se atravessa

As três cópulas não são compartimentos estanques. Um mesmo predicado pode admitir as três, com nuances aspetuais nítidas: é casado (estado civil, propriedade identitária), está casado (situação atual, talvez contrastiva), ficou casado (resultado de um casamento). Dominar o sistema é, sobretudo, sentir esta gradação entre o que se é, o que se está e aquilo em que se fica — entre a essência, a circunstância e a mudança.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Mateus, Brito, Duarte, Faria et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Evanildo Bechara. Moderna Gramática Portuguesa . Lucerna (1999)