Gramática 文 · 22
A voz passiva
As duas passivas do português — a analítica (ser + particípio, com agente introduzido por «por») e a pronominal com «se» — e a concordância que ambas exigem.
ptA voz é a categoria gramatical que indica a relação entre o verbo e o seu sujeito. Na voz ativa, o sujeito é quem pratica a ação; na voz passiva, o sujeito sofre-a. Passar uma frase da ativa à passiva não acrescenta informação nova — reorganiza-a, promovendo a sujeito aquilo que era o complemento direto e relegando o agente a um plano secundário, quando não o apaga por completo. O português dispõe de duas construções passivas distintas: a analítica (ou de particípio) e a pronominal (ou com se).
Ativa: O júri premiou o romance. → Passiva: O romance foi premiado pelo júri.
O complemento direto (o romance) torna-se sujeito; o sujeito ativo (o júri) passa a agente da passiva.
A passiva analítica
A passiva analítica forma-se com o verbo auxiliar ser + particípio passado do verbo principal. O auxiliar carrega a flexão de tempo, modo e pessoa; o particípio funciona como um adjetivo e concorda em género e número com o sujeito.
A ponte foi inaugurada em 1966. · As cartas serão enviadas amanhã. · Os documentos tinham sido assinados.
Repare na concordância do particípio: inaugurada, enviadas, assinados acompanham o género e o número do sujeito.
Qualquer tempo e modo é possível, porque a flexão recai sobre ser: é lido, era lido, foi lido, será lido, seria lido, que seja lido, ter sido lido. Só verbos transitivos diretos admitem esta passiva, já que ela depende da existência de um complemento direto que possa ser promovido a sujeito.
O agente da passiva
O autor da ação, na passiva, chama-se agente da passiva e é introduzido pela preposição por (frequentemente contraída: pelo, pela, pelos, pelas). A preposição de aparece em alguns casos de estado ou sentimento — amado de todos, conhecido de muitos —, mas é hoje sobretudo literária.
O traço mais útil da passiva é, justamente, poder omitir o agente quando este é desconhecido, óbvio ou irrelevante. É o que a torna tão frequente no discurso jornalístico, científico e administrativo.
O ladrão foi detido pela polícia. → O ladrão foi detido.
Sem agente expresso, a atenção concentra-se no paciente e no facto, não em quem agiu.
A passiva pronominal
A segunda passiva constrói-se com o pronome se, dito se apassivante (ou partícula apassivadora), junto de um verbo na 3.ª pessoa. Equivale, em sentido, a uma passiva analítica de agente indeterminado.
Vende-se uma casa. = Uma casa é vendida. · Construíram-se duas escolas. = Duas escolas foram construídas.
O nome (casa, escolas) é o sujeito gramatical; o verbo concorda com ele.
O ponto decisivo — e o erro mais comum — é a concordância: como o nome é o verdadeiro sujeito, o verbo vai ao singular ou plural conforme esse sujeito. Vende-se uma casa, mas vendem-se casas; aluga-se um quarto, mas alugam-se quartos. Os letreiros que escrevem «vendem-se carros» estão, portanto, gramaticalmente certos.
A colocação do se
Sendo um pronome átono, o se apassivante segue as regras gerais de colocação pronominal do português europeu: ênclise por defeito (Resolveu-se o problema), mas próclise quando há uma palavra atrativa — negação, advérbio, conjunção subordinativa, pronome relativo (Não se resolveu o problema; quando se resolveram os problemas).
Passiva de ação e passiva de estado
Convém distinguir a passiva verdadeira, com ser, da construção com estar
- particípio, que exprime não uma ação mas o estado resultante dela. A primeira descreve um acontecimento; a segunda, uma situação.
| Construção | Exemplo | Valor |
|---|---|---|
| ser + particípio | A porta foi fechada (pelo guarda). | ação / passiva de ação |
| estar + particípio | A porta está fechada. | estado resultante / passiva de estado |
A porta foi fechada refere o ato de fechar; a porta está fechada descreve a sua condição atual, sem dizer quem ou quando. Por isso a passiva de estado raramente admite agente: ?a porta está fechada pelo guarda soa estranho.
Particípios duplos
Vários verbos possuem dois particípios — um regular, usado de preferência com ter e haver, e outro irregular (curto), preferido com ser e estar. Na voz passiva escolhe-se, em regra, a forma irregular.
| Verbo | Regular (ter/haver) | Irregular (ser/estar) |
|---|---|---|
| aceitar | tinha aceitado | foi aceite |
| pagar | tinha pagado | está pago |
| entregar | tinha entregado | foi entregue |
| imprimir | tinha imprimido | foi impresso |
Quando usar cada uma
As duas passivas não são livremente permutáveis. A analítica impõe-se quando o agente é expresso ou facilmente recuperável e quando importa marcar o tempo com precisão. A pronominal é mais leve e impessoal, própria de instruções, avisos e generalizações — Fala-se português, Proíbe-se fumar, Servem-se refeições —, e é justamente nela que a concordância merece atenção redobrada.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)