Gramática 文 · 23
Negação e interrogação
Como o português nega — com a partícula não, a concordância negativa e palavras como nunca, nada e ninguém — e como forma perguntas, por entoação, partícula é que e pronomes interrogativos.
ptA negação e a interrogação são duas operações que transformam uma frase declarativa afirmativa — a frase «de base» — sem alterarem o seu conteúdo lexical. Negar é inverter o valor de verdade do enunciado; interrogar é convertê-lo num pedido de informação. O português resolve ambas de modo notavelmente económico: a negação assenta numa partícula pré-verbal e num sistema de concordância negativa; a interrogação dispensa, na maior parte dos casos, qualquer inversão de palavras.
A negação frásica: a partícula não
A frase é negada antepondo o advérbio não ao verbo (ou ao auxiliar). Nada mais é necessário: não há equivalente do do-support inglês nem alteração da ordem dos restantes elementos.
O Pedro chegou. → O Pedro não chegou.
Pedro arrived. → Pedro did not arrive.
Entre o não e o verbo só se intercalam os pronomes clíticos: não o vi, não me disseram nada. O não nega tipicamente toda a frase, mas pode incidir sobre um constituinte isolado em contextos contrastivos — Vou hoje, não amanhã —, caso em que se fala de negação de constituinte.
Palavras negativas e concordância negativa
O português possui um conjunto de palavras de polaridade negativa: os advérbios nunca e jamais, os pronomes nada, ninguém e nenhum(a), e a conjunção nem. O traço mais característico do sistema é a concordância negativa (ou «dupla negação»): quando uma destas palavras aparece depois do verbo, o não pré-verbal mantém-se obrigatoriamente.
Não vi ninguém. · Não sei nada. · Não vou nunca mais.
I saw no one. · I know nothing. · I'm never going again.
As duas marcas negativas não se anulam — somam-se para exprimir uma única negação. Acumular vários termos negativos reforça a negação, em vez de a cancelar: Nunca ninguém me disse nada disso.
Quando, porém, a palavra negativa precede o verbo (tipicamente como sujeito ou tópico antecipado), o não desaparece, porque a posição pré-verbal já contém a negação:
| Palavra negativa depois do verbo | Palavra negativa antes do verbo |
|---|---|
| Não veio ninguém. | Ninguém veio. |
| Não aconteceu nada. | Nada aconteceu. |
| Não falei com nenhum deles. | Nenhum deles falou. |
Dizer Ninguém não veio é agramatical no português padrão. A conjunção correlativa nem… nem coordena dois termos negados — Não trouxe nem o livro nem os apontamentos — e nem sozinho equivale a «nem sequer»: Nem reparei.
A interrogação total (sim/não)
As perguntas de resposta sim/não (interrogativas totais) distinguem-se da declarativa correspondente apenas pela entoação — um contorno ascendente — e, na escrita, pelo ponto de interrogação. Não há inversão sujeito-verbo, ao contrário do inglês ou do francês.
A Joana já chegou? · Queres vir connosco? · Não viste o aviso?
[ɐ ʒuˈɐnɐ ʒa ʃɨˈɣo]
Has Joana arrived yet? · Do you want to come with us? · Didn't you see the notice?
A resposta afirmativa faz-se com sim ou, mais idiomaticamente, repetindo o verbo: a pergunta Já almoçaste? responde-se naturalmente com Já ou Almocei, e não com um sim isolado.
A interrogação parcial: pronomes e advérbios interrogativos
As perguntas que pedem uma informação específica usam um interrogativo, colocado no início da frase.
| Forma | Pergunta por | Exemplo |
|---|---|---|
| quem | pessoa | Quem telefonou? |
| que / o que | coisa | Que disseste? |
| qual / quais | escolha | Qual preferes? |
| quanto(s) | quantidade | Quantos faltam? |
| onde | lugar | Onde moras? |
| quando | tempo | Quando partimos? |
| como | modo | Como se faz? |
| porque / porquê | causa | Porque choras? |
Muito frequente — e típica do registo corrente europeu — é a construção com a partícula é que, que permite manter o interrogativo no início sem qualquer outra alteração da ordem:
Onde é que puseste as chaves? · Quem é que ficou com a conta?
Where did you put the keys? · Who got stuck with the bill?
A causa distingue-se na grafia: porque (conjunção e advérbio em frase) e porquê (forma tónica, usada isoladamente ou em fim de frase): Porque não vieste? mas Não vieste porquê? e Não sei o porquê.
Perguntas indiretas e de confirmação
Nas interrogativas indiretas, a pergunta é subordinada a um verbo como perguntar ou saber. A interrogativa total é introduzida por se; a parcial conserva o interrogativo. Em ambas, não há ponto de interrogação nem inversão.
Perguntou se eu vinha. · Não sei quando ela chega.
She asked whether I was coming. · I don't know when she arrives.
As perguntas de confirmação (tag questions) acrescentam à afirmação uma fórmula breve que pede aquiescência: não é?, pois não?, está bem?, ou o simples não? final — Tu moras aqui, não é?
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)