Gramática 文 · 24
Sintaxe e ordem das palavras
A ordem dos constituintes e a estrutura da frase em português — uma língua SVO de núcleo inicial, mas com uma flexibilidade de ordem governada pela informação, pela inversão e pelos clíticos.
ptA sintaxe estuda o modo como as palavras se combinam em sintagmas e frases. O português é, na sua ordem básica, uma língua SVO — sujeito · verbo · objeto — e de núcleo inicial: o verbo precede os seus complementos, a preposição precede o seu termo, o nome precede, em regra, o seu modificador. Sobre este esqueleto regular, porém, assenta uma flexibilidade considerável, ditada menos por regras rígidas do que pela estrutura informativa da frase.
A ordem de base
Numa frase declarativa neutra, os constituintes dispõem-se na ordem sujeito, verbo e complementos:
A Maria comprou um livro na livraria.
Sujeito (A Maria) · verbo (comprou) · objeto direto (um livro) · complemento (na livraria).
O português é uma língua de sujeito nulo (pro-drop): graças à riqueza da flexão verbal, o sujeito pronominal pode ser omitido sempre que é recuperável. Comprei um livro é uma frase completa — a desinência -ei já identifica a primeira pessoa. Exprimir o pronome (Eu comprei…) acrescenta ênfase ou contraste, não informação gramatical nova.
Uma ordem flexível
Ao contrário do inglês, em que a ordem das palavras codifica a função sintática, o português marca grande parte das relações por concordância e por preposições, o que liberta a ordem para sinalizar o que é dado e o que é novo. O constituinte que encerra a frase tende a receber o foco; um elemento deslocado para o início fixa o tema de que se fala.
| Ordem | Exemplo | Efeito |
|---|---|---|
| S V O | O João leu o livro. | neutra |
| O, S V (clítico) | O livro, o João leu-o. | tópico destacado |
| V S | Chegou o comboio. | apresentação do sujeito |
| V O S | Leu o livro o João. | sujeito focado, marcado |
A inversão sujeito-verbo
A posposição do sujeito (ordem VS) é, em português, muito mais corrente do que nas línguas germânicas. É a ordem natural com verbos inacusativos — de existência, aparecimento ou acontecimento — em que o único argumento se comporta como objeto:
Falta um euro. · Resta-nos pouco tempo. · Aconteceu uma coisa estranha.
O sujeito (um euro, pouco tempo, uma coisa estranha) segue o verbo: ordem verbo-sujeito.
A inversão ocorre também depois de certos advérbios e constituintes frontalizados (Talvez venha o teu pai), em orações relativas e, sobretudo, na fala que introduz discurso direto: — Não sei — disse o rapaz.
A interrogação sem inversão auxiliar
Numa diferença marcante face ao inglês, o português não recorre a inversão do auxiliar nem a verbo de apoio (do-support) para interrogar. A pergunta total (sim/não) distingue-se da afirmação apenas pela entoação ascendente — e, na escrita, pelo ponto de interrogação:
O comboio já chegou? — A Ana fala francês?
A mesma ordem da afirmação; só a entoação (e o ponto final de interrogação) assinala a pergunta.
Nas perguntas parciais, o constituinte interrogativo (quem, que, onde, quando, como, porquê) ocupa a posição inicial, podendo provocar a inversão do sujeito: Que comeu o João?, Onde está o gato?. O reforço é que (Onde é que está o gato?) permite manter a ordem direta e é muito frequente na oralidade.
Os clíticos e a ordem
A posição dos pronomes átonos é um dos pontos em que a sintaxe portuguesa exige mais finura. A regra de base do português europeu é a ênclise — o clítico segue o verbo e liga-se a ele por hífen (Vi-o ontem). Mas certas palavras atrativas — a negação, conjunções subordinativas, muitos advérbios, palavras interrogativas e quantificadores — desencadeiam a próclise, deslocando o clítico para antes do verbo (Não o vi, Quando o viste?). Trata-se, pois, de um fenómeno em que a ordem dos elementos depende do contexto sintático imediato — e que o português europeu resolve de modo próprio. (Ver Colocação pronominal.)
Dentro do sintagma
A ordem interna dos sintagmas confirma o carácter de núcleo inicial. No sintagma nominal, o adjetivo qualificativo ocupa, por defeito, a posição pós-nominal (uma casa branca, um problema difícil). A anteposição é possível, mas marcada: ora confere valor estilístico ou afetivo, ora muda mesmo o sentido —
um grande homem ≠ um homem grande
Anteposto, grande significa «notável»; posposto, refere o tamanho físico.
Determinantes e numerais, esses, precedem sempre o nome (estes três livros).
Em síntese
O português combina um esqueleto SVO estável e previsível com uma notável liberdade de superfície: o sujeito nulo, a inversão verbo-sujeito, a interrogação por entoação e a dança dos clíticos fazem da ordem das palavras menos um conjunto de regras mecânicas do que um instrumento ao serviço do significado e da informação.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)