Gramática 文 · 21
Concordância e regência
Como as palavras se ajustam umas às outras — a concordância nominal e verbal — e como verbos e nomes exigem as suas preposições — a regência —, com os casos que mais hesitação causam.
ptDuas forças mantêm coesa a frase portuguesa. A concordância obriga certas palavras a copiar os traços gramaticais — género, número, pessoa — de outras: o adjetivo ajusta-se ao nome, o verbo ao sujeito. A regência governa a relação inversa: é a palavra nuclear — um verbo, um nome, um adjetivo — que exige um complemento e, muitas vezes, impõe a preposição com que ele se introduz. Dominar uma e outra é dominar boa parte da sintaxe da língua.
Concordância nominal
O nome impõe o seu género e número aos elementos que o acompanham: artigos, adjetivos, determinantes, numerais e particípios. A regra geral é simples e regular.
as duas casas brancas estão abertas
O feminino plural de *casa* propaga-se ao artigo, ao numeral, ao adjetivo e ao particípio.
As dificuldades surgem nos casos de vários núcleos. Quando um só adjetivo qualifica dois ou mais nomes, pode concordar com o conjunto (indo para o plural, e para o masculino se houver mistura de géneros) ou apenas com o nome mais próximo:
literatura e teatro modernos · literatura e teatro moderno
Concordância com o conjunto (masculino plural) ou apenas com o nome contíguo — ambas legítimas.
Alguns elementos têm regras próprias. O adjetivo anexo, o particípio incluso e a expressão em anexo concordam com o nome (as fotografias anexas); já as locuções a olho nu ou meio — quando equivale a “um pouco” — ficam invariáveis: ela está meio cansada (“um tanto cansada”), mas meia garrafa (“metade”).
Concordância verbal
O verbo concorda em número e pessoa com o seu sujeito. Quando o sujeito é composto e antecede o verbo, este vai ao plural: o pai e o filho chegaram. Vários contextos, porém, exigem atenção.
- Sujeito posposto: Chegaram o pai e o filho mantém o plural, mas com sujeito composto resumido por um pronome (tudo, nada) o verbo pode ir ao singular.
- Pronome relativo que: o verbo concorda com o antecedente — fui eu que paguei, não que pagou.
- Nomes coletivos: a maioria dos alunos faltou (singular) é a norma; a concordância com o plural (faltaram) é tolerada quando se realça a pluralidade dos indivíduos.
- Partícula se apassivante: com sujeito plural, o verbo vai ao plural — vendem-se casas, não vende-se casas.
Regência verbal: o verbo e a sua preposição
Muitos verbos só se completam através de uma preposição fixa, e a escolha não é livre — faz parte da própria identidade do verbo. Assistir, no sentido de “estar presente”, rege a (assistir a um espetáculo); gostar rege de; obedecer rege a. Um mesmo verbo pode mudar de regência com o sentido:
| Verbo | Regência | Sentido |
|---|---|---|
| assistir | a algo | estar presente |
| assistir | (transitivo direto) | prestar auxílio (assistir um doente) |
| aspirar | algo | inspirar, sorver |
| aspirar | a algo | almejar, desejar |
| implicar | algo | acarretar (isto implica mudanças) |
| implicar | com alguém | hostilizar |
A preposição arrasta consigo as contrações habituais (a + o = ao, de + a = da), e condiciona a forma dos pronomes: com verbos de regência a, o clítico é lhe(s) (obedeço-lhe); com regência direta, é o, a, os, as (vejo-o).
Regência nominal e de adjetivos
Não são só os verbos a reger. Muitos nomes e adjetivos herdam a preposição do verbo de que derivam ou a fixam por uso: o respeito por alguém, a admiração por, o gosto de/por, favorável a, ávido de, alheio a.
a obediência às regras · um sentimento de respeito pelos mais velhos
O nome *obediência* rege *a* (como *obedecer a*); *respeito* rege *por*.
O verbo haver e outros impessoais
Na aceção de “existir”, haver é impessoal: não tem sujeito e fica sempre no singular, mesmo com complemento plural — havia muitos livros, houve problemas. O mesmo vale para o verbo fazer indicando tempo decorrido: faz dois anos, não fazem dois anos.
Por que importa
Concordância e regência são o lugar onde a gramática se torna visível na escrita cuidada: um adjetivo mal concordado ou uma preposição trocada (*namorar com por namorar) denunciam-se de imediato. Não são ornamento, mas a malha que liga as palavras numa frase coerente — e, por isso, o terreno onde a norma culta mais se afirma.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)