Gramática 文 · 13
O sistema verbal
As três conjugações do português e a sua arquitetura de modos, tempos e formas nominais — incluindo o infinitivo pessoal e o futuro do conjuntivo, traços que distinguem a língua entre as românicas.
ptO verbo é, no português, a classe morfologicamente mais rica: uma só raiz pode dar origem a mais de cinquenta formas distintas, que cruzam pessoa, número, tempo, modo, aspeto e voz. Esta densidade flexional, herdada do latim e em boa parte conservada, faz do sistema verbal o núcleo da gramática da língua — e a sua parte mais exigente para quem a aprende.
As três conjugações
Todos os verbos regulares se distribuem por três conjugações, identificadas pela vogal temática do infinitivo:
| Conjugação | Terminação | Vogal temática | Verbos-modelo |
|---|---|---|---|
| 1.ª | -ar | -a- | amar, cantar, falar |
| 2.ª | -er | -e- | vender, comer, bater |
| 3.ª | -ir | -i- | partir, sair, abrir |
A primeira conjugação é, de longe, a mais numerosa e a única verdadeiramente produtiva: os verbos novos entram quase sempre por ela (clicar, reciclar, googlar). À margem do quadro fica pôr e os seus compostos (compor, dispor, supor), resíduo do antigo poer, que a tradição inclui na segunda conjugação.
A arquitetura da forma verbal
Cada forma flexionada decompõe-se em até quatro elementos: o radical (que carrega o significado), a vogal temática, o sufixo modo-temporal e o sufixo número-pessoal.
cant- + -á- + -va- + -mos → cantávamos
radical + vogal temática + sufixo modo-temporal (pretérito imperfeito) + sufixo número-pessoal (1.ª pessoa do plural).
Esta regularidade é o que permite conjugar, por analogia, qualquer verbo novo — e o que torna tão salientes os verbos irregulares, em que o radical ou os sufixos fogem ao modelo (ser, ir, fazer, dizer, trazer).
Os modos
O modo exprime a atitude do falante perante o que enuncia. O português distingue três:
- Indicativo — o modo do real e do assertado: ela chega hoje.
- Conjuntivo — o modo do hipotético, do desejado e do subordinado: espero que ela chegue.
- Imperativo — o modo da ordem e do pedido: chega cedo!
A tradição gramatical portuguesa trata ainda o condicional (chegaria) como um tempo do indicativo, o futuro do pretérito, e não como modo autónomo.
Os tempos
Dentro do indicativo distinguem-se um presente, três pretéritos — perfeito (cantei, ação concluída), imperfeito (cantava, ação durativa ou habitual no passado) e mais-que-perfeito (cantara, anterior a outro passado) — além do futuro e do condicional. O conjuntivo possui presente, imperfeito e, traço notável do português, um futuro vivo e de uso corrente:
Quando chegares, telefona. · Se quiseres, fica.
O futuro do conjuntivo (*chegares*, *quiseres*) exprime uma condição futura eventual; nas outras línguas românicas usa-se hoje, no seu lugar, o presente.
As formas nominais
Três formas escapam à flexão de pessoa e tempo e aproximam o verbo do nome, do adjetivo e do advérbio:
- o infinitivo (partir), nome da ação;
- o gerúndio (partindo), de valor adverbial e durativo;
- o particípio (partido), de valor adjetival, base dos tempos compostos e da voz passiva.
O português distingue-se das demais línguas românicas por possuir, a par do infinitivo impessoal, um infinitivo pessoal (ou flexionado), que concorda com o seu sujeito:
| eu | partir |
|---|---|
| tu | partires |
| ele/ela | partir |
| nós | partirmos |
| vós | partirdes |
| eles/elas | partirem |
Graças a ele, uma oração de infinitivo pode ter sujeito próprio e explícito: é melhor saíres agora, antes de eles chegarem.
Tempos simples e tempos compostos
A par das formas simples, o português constrói tempos compostos com o auxiliar ter (mais raramente haver) seguido de particípio: tenho cantado, tinha cantado, terei cantado. O pretérito perfeito composto, note-se, não equivale ao present perfect inglês: tenho cantado exprime uma ação repetida ou continuada até ao presente, não um facto único e acabado.
Para que serve este mapa
Conhecer a planta geral do sistema — três conjugações, três modos, um leque de tempos e três formas nominais — é o que permite situar cada artigo de pormenor: o modo conjuntivo, o infinitivo pessoal, as formas nominais e os verbos irregulares que põem à prova toda esta regularidade.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)