Gramática 文 · 14

O modo conjuntivo

O modo do desejável, do hipotético e do ainda não realizado — presente, imperfeito e futuro do conjuntivo, os seus tempos compostos e os contextos que os convocam no português europeu.

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O modo conjuntivo (também grafado subjuntivo, forma corrente no Brasil) é o modo verbal com que o português exprime o que não se afirma como facto: o desejado, o duvidoso, o hipotético, o que depende de uma condição ou ainda não aconteceu. Se o indicativo é o modo da asserção — ela vem —, o conjuntivo é o modo da subordinação a uma atitude do falante — espero que ela venha. Raramente surge sozinho: vive quase sempre numa oração subordinada, convocado por uma palavra da oração principal.

Indicativo e conjuntivo: facto e hipótese

A diferença é de modalidade, não de tempo. Compare-se a mesma situação dita de dois modos: Sei que ele está em casa (indicativo: o falante afirma um facto) contra Duvido que ele esteja em casa (conjuntivo: o falante suspende o juízo). O verbo da principal — saber contra duvidar — decide o modo do verbo subordinado.

Por isso o conjuntivo é, antes de mais, um fenómeno de regência: certos verbos, certas conjunções e certas construções impessoais “pedem” conjuntivo. Os principais gatilhos são:

  • vontade, ordem e pedido: querer que, desejar que, pedir que, é preciso que;
  • emoção e apreciação: recear que, alegrar-se de que, é pena que;
  • dúvida e negação: duvidar que, não crer que, talvez;
  • conjunções: embora, para que, antes que, a menos que, caso, sem que, ainda que;
  • antecedentes indefinidos: quem quiser, o que for preciso.

Espero que tenhas razão. — Não há ninguém que o saiba.

Depois de espero que e de um antecedente negativo, o verbo vai para o conjuntivo.

Os tempos do conjuntivo

O conjuntivo tem três tempos simples — presente, pretérito imperfeito e futuro — e os correspondentes tempos compostos, formados com o auxiliar ter (ou haver) no conjuntivo mais o particípio passado. Cada tempo simples associa-se, a grosso modo, a um gatilho típico.

TempoForma (1.ª pess.)Convocado porValor
Presenteque eu faleque, embora, talvezpresente/futuro
Pretérito imperfeitose eu falassese, embora, como sehipótese, passado
Futuroquando eu falarquando, se, enquanto, quemeventualidade futura

O presente do conjuntivo

Forma-se a partir da 1.ª pessoa do singular do presente do indicativo: retira-se o -o final e acrescentam-se as desinências próprias. Os verbos da 1.ª conjugação (-ar) tomam o tema em -e; os da 2.ª e 3.ª (-er, -ir) tomam o tema em -a.

Presente do conjuntivo — falar
que eu fale
que tu fales
que ele/ela fale
que nós falemos
que vós faleis
que eles/elas falem

Como o radical vem do indicativo, as irregularidades viajam com ele: façofaça, tenhotenha, digodiga, peçopeça. Apenas um punhado de verbos tem presente do conjuntivo verdadeiramente irregular, com radical próprio — ser (seja), estar (esteja), ir (), haver (haja), saber (saiba), querer (queira), dar ().

O pretérito imperfeito do conjuntivo

Toma como base a 3.ª pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo: falaramfalasse, comeramcomesse, partirampartisse. Esta regra é poderosa porque arrasta consigo todos os pretéritos irregulares: fizeramfizesse, tiveramtivesse, foramfosse, trouxeramtrouxesse.

Pretérito imperfeito do conjuntivo — falar
se eu falasse
se tu falasses
se ele/ela falasse
se nós falássemos
se vós falásseis
se eles/elas falassem

A 1.ª pessoa do plural é esdrúxula — falássemos —, um pormenor de acentuação que distingue claramente as formas:

Acento no imperfeito do conjuntivo
FormaIPATonicidade
falassefɐ‧ˈla‧sɨgrave (paroxítona)
falássemosfɐ‧ˈla‧sɨ‧muʃesdrúxula (proparoxítona)

É o tempo da hipótese contrafactual e das orações condicionais irreais: se eu soubesse…, como se fosse fácil. Na principal correspondente surge o condicional — ou, na fala europeia corrente, o próprio imperfeito do indicativo.

Se eu fosse a ti, não dizia nada.

«Se eu fosse a ti» pede imperfeito do conjuntivo; na fala, a principal vai muitas vezes para o imperfeito do indicativo (dizia, em vez de diria).

O futuro do conjuntivo

É a glória discreta do português. Quase todas as línguas românicas perderam o futuro do conjuntivo herdado do latim; o português conservou-o vivo e produtivo. Exprime uma eventualidade futura em orações temporais, condicionais e relativas: aquilo que vier a acontecer.

Futuro do conjuntivo — falar
quando eu falar
quando tu falares
quando ele/ela falar
quando nós falarmos
quando vós falardes
quando eles/elas falarem

Partilha a base do imperfeito — a 3.ª pessoa do plural do pretérito perfeito — mas com desinências distintas. Nos verbos regulares, as suas formas coincidem com as do infinitivo pessoal (falar, falares, falar…); nos irregulares, divergem, e é aí que se vê que se trata de dois paradigmas diferentes:

VerboInfinitivo pessoalFuturo do conjuntivo (eu)
tertertiver
fazerfazerfizer
ser / irser / irfor
trazertrazertrouxer
poderpoderpuder

Quando chegares a casa, telefona-me. — Se quiseres, podemos ir amanhã.

[ˈkwɐ̃du ʃɨˈɣaɾɨʒ ɐ ˈkazɐ]

Depois de quando e de se com valor de futuro, o português usa o futuro do conjuntivo, onde o inglês usa o presente do indicativo.

Os tempos compostos

A cada tempo simples corresponde uma forma composta — ter no conjuntivo mais o particípio —, que exprime ação concluída (aspeto perfectivo):

  • pretérito perfeito: que eu tenha falado — algo eventualmente já cumprido no presente;
  • pretérito mais-que-perfeito composto: se eu tivesse falado — hipótese sobre o passado;
  • futuro composto: quando eu tiver falado — ação futura dada por concluída antes de outra.

Talvez ela já tenha saído. — Se tu tivesses avisado, eu teria esperado.

O perfeito do conjuntivo situa a ação como já concluída; o mais-que-perfeito exprime o arrependimento contrafactual.

O conjuntivo e o imperativo

O conjuntivo é ainda o sustentáculo do imperativo. Só as segundas pessoas afirmativas (tu e vós) têm formas próprias; todas as restantes — o imperativo negativo e as ordens dirigidas a você e vocês — são tomadas de empréstimo ao presente do conjuntivo: fale!, não fales!, façam o favor. A cortesia portuguesa assenta, assim, sobre este modo: traga-me, por favor [ˈtɾaɣɐ mɨ] é, literalmente, um conjuntivo.

Um modo em recuo?

Ao contrário do que sucede noutras línguas, em que o conjuntivo se foi esvaziando, o português europeu mantém-no robusto e obrigatório num vasto leque de construções. Dominá-lo — reconhecer o gatilho na principal e escolher o tempo certo na subordinada — é um dos limiares decisivos no caminho para a fluência, e uma das marcas mais nítidas da arquitetura do sistema verbal português.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Amélia P. Hutchinson & Janet Lloyd. Portuguese: An Essential Grammar . Routledge (2003)
  4. Evanildo Bechara. Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)