Gramática 文 · 12
Numerais
Os numerais do português — cardinais, ordinais, multiplicativos e fracionários — com as suas formas variáveis, a concordância em género e as particularidades europeias como mil milhões e dezasseis.
ptOs numerais são as palavras que exprimem quantidade ou ordem precisas. A tradição gramatical portuguesa distingue quatro classes: os cardinais (a quantidade — um, dois, cem), os ordinais (a posição numa série — primeiro, segundo), os multiplicativos (quantas vezes — dobro, triplo) e os fracionários (a parte de um todo — meio, terço). Alguns numerais variam em género e número; a maioria é invariável.
Os cardinais
Os cardinais designam a quantidade. Quase todos são invariáveis, mas três grupos flexionam em género: um/uma, dois/duas e as centenas a partir de duzentos.
*um* livro / *uma* mesa · *dois* dias / *duas* noites · *duzentos* euros / *duzentas* páginas
Um, dois e as centenas concordam em género com o substantivo que contam.
Entre as dezenas, o português europeu mantém o a etimológico em dezasseis, dezassete e dezanove — um pormenor que separa de imediato a norma de Lisboa da brasileira. As formas compostas ligam-se com e: vinte e um, cento e cinquenta e três.
Cem e cento; o milhão e os mil milhões
A forma cem [sɐ̃j̃] usa-se diante de substantivo ou de numeral maior (cem casas, cem mil); a forma cento aparece nos compostos seguidos de unidades ou dezenas (cento e um, cento e vinte). Mil é invariável como numeral (dois mil), mas admite plural quando funciona como nome (aos milhares).
Milhão, bilião e trilião são, em rigor, substantivos: pluralizam (dois milhões) e pedem a preposição de antes do contado (um milhão de euros). Aqui reside uma divergência notável entre as normas: na chamada escala longa, usada em Portugal, 10⁹ diz-se mil milhões, e bilião reserva-se para 10¹².
Os ordinais
Os ordinais indicam a posição numa sequência e concordam sempre em género e número com o substantivo: a primeira fila, os primeiros lugares. Do primeiro ao décimo são patrimoniais; as dezenas, centenas e milhares têm formas eruditas, de base latina.
| Cardinal | Ordinal | Cardinal | Ordinal | |
|---|---|---|---|---|
| 1 | primeiro | 10 | décimo | |
| 2 | segundo | 20 | vigésimo | |
| 3 | terceiro | 30 | trigésimo | |
| 4 | quarto | 40 | quadragésimo | |
| 5 | quinto | 50 | quinquagésimo | |
| 6 | sexto | 100 | centésimo | |
| 7 | sétimo | 1000 | milésimo | |
| 8 | oitavo | |||
| 9 | nono |
Os ordinais altos são pouco usados na fala: para reis, séculos e capítulos, a língua substitui-os com frequência pelo cardinal a partir de certo ponto (D. João VI, lido sexto, mas Luís XIV lido catorze; o século XXI, dito vinte e um tanto quanto vigésimo primeiro).
*vigésimo terceiro*, não «*vinte-e-tresavo*».
Cada elemento do ordinal composto flexiona: «o seu vigésimo terceiro aniversário».
Multiplicativos e fracionários
Os multiplicativos exprimem multiplicação: dobro/duplo, triplo, quádruplo, quíntuplo, sêxtuplo… Funcionam como nomes (o dobro do preço) ou como adjetivos (uma dose dupla).
Os fracionários nomeiam as partes de um todo. No denominador, de 2 a 10 empregam-se as formas próprias e os ordinais — meio, terço, quarto, quinto… décimo —; de 11 em diante usa-se o cardinal seguido de avos.
½ = *um meio* (ou *metade*) · ⅓ = *um terço* · ¾ = *três quartos* · ¹⁄₁₂ = *um doze avos*
«Meio» e «metade» são formas patrimoniais; a partir de onze, recorre-se ao sufixo -avos.
Note-se a distinção entre meio (numeral, variável: meia dúzia, meio litro) e metade (substantivo). E, no registo das horas, o europeu diz meio-dia e meia, em que meia concorda com a (hora) subentendida.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Dicionário Terminológico . Ministério da Educação (Portugal) (2008)