Gramática 文 · 03

Substantivo e género

O substantivo e a categoria de género em português: masculino e feminino, a morfologia que os marca, os nomes de forma única e os casos em que o género muda o sentido.

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O substantivo (ou nome) é a classe de palavras que designa seres, coisas, qualidades, ações e noções — gato, mesa, bondade, corrida, saudade. Em português, todo o substantivo possui um género gramatical, que é ou masculino ou feminino: não há género neutro. Esse género é uma propriedade inerente da palavra e determina a forma dos elementos que a acompanham — artigos, adjetivos, demonstrantes, possessivos e particípios.

Um género gramatical, nem sempre natural

Convém distinguir o género gramatical do sexo dos seres. Nos nomes de pessoas e animais, os dois costumam coincidir (o homem, a mulher; o cavalo, a égua). Mas a maior parte dos substantivos designa realidades sem sexo, e o seu género é puramente convencional: dizemos a mesa e o livro sem que nada na coisa o justifique. Línguas próximas atribuem géneros diferentes às mesmas noções — o leite é masculino em português e feminino em francês (le lait é exceção, mas a árvore é feminina em português e l’arbre masculino em francês).

O sistema actual resulta da simplificação dos três géneros do latim. O neutro desapareceu: a maioria dos seus nomes passou ao masculino, mas os plurais neutros em -A, sentidos como femininos singulares, deram alguns nomes coletivos femininos — assim folha (de FOLIA, plural de FOLIUM) ou lenha (de LIGNA).

Como se marca o género

A oposição mais regular é a do par -o / -a: a vogal -o tende ao masculino e -a ao feminino. É o esquema dos nomes de dois géneros, em que o feminino se forma a partir do masculino.

o menino → a menina · o gato → a gata · o professor → a professora · o ator → a atriz

O feminino pode formar-se por troca de vogal, por acrescento de -a ou por sufixos próprios (-essa, -isa, -triz).

A terminação é, porém, um guia falível. Muitos masculinos terminam em -a — sobretudo helenismos em -ma: o problema, o tema, o sistema, o clima, o poema —, e há ainda o dia, o mapa, o planeta. Inversamente, são femininos a tribo, a foto, a moto, ou nomes em -ão como a mão e a razão. O género de cada palavra aprende-se, em última análise, com o artigo que a acompanha.

Substantivos de uma só forma

Nem todos os nomes têm par masculino/feminino. A tradição gramatical distingue três casos:

Nomes com uma única forma para os dois géneros ou os dois sexos
TipoComportamentoExemplos
Comum de doisuma só forma; o género distingue-se pelo artigo*o/a estudante*, *o/a colega*, *o/a artista*, *o/a jovem*
Sobrecomumum só género gramatical para ambos os sexos*a criança*, *a vítima*, *a testemunha*, *o cônjuge*
Epicenoum só género; o sexo precisa-se com *macho* / *fêmea**a cobra (macho)*, *o jacaré*, *a águia*, *o polvo*

Nos comuns de dois géneros, só o artigo (ou outro determinante) revela o género: o colega / a colega. Nos sobrecomuns, o género é fixo e não acompanha o sexo da pessoa: a vítima é sempre feminino, ainda que se refira a um homem. Nos epicenos — quase sempre nomes de animais —, a forma única serve os dois sexos, que se especificam com macho ou fêmea.

Quando o género muda o sentido

Há pares de homónimos que se distinguem apenas pelo género, com significados distintos. A escolha do artigo deixa de ser indiferente: muda a palavra.

MasculinoFeminino
o capital (dinheiro, fundos)a capital (cidade principal)
o cabeça (o chefe, o líder)a cabeça (parte do corpo)
o guia (pessoa que guia; o livro)a guia (documento; calha)
o rádio (aparelho; osso; elemento)a rádio (estação emissora)
o moral (o ânimo)a moral (a ética; a lição)
o cólera (a doença)a cólera (a ira)

O exército avançou sobre a capital, mas faltava-lhe o capital para sustentar a campanha.

A mesma sequência fónica, dois sentidos opostos, separados só pelo género.

Nomes que enganam

Certos substantivos têm um género que contraria a intuição de muitos falantes e que importa fixar. São masculinos o eclipse, o telefonema, o estratagema, o dó, o champô e o grama (a unidade de massa). São femininos a alface, a omoplata, a cal, a sentinela e a personagem. Hesitar entre o e a nestes nomes é um dos erros mais comuns da norma culta.

Concordância

O género do substantivo não fica isolado: propaga-se a tudo o que com ele concorda. Artigos, adjetivos, demonstrativos, possessivos, numerais ordinais e particípios passados adaptam a sua forma ao género (e ao número) do nome a que se referem.

As velhas casas brancas foram restauradas.

[ɐʒ ˈvɛʎɐʃ ˈkazɐʃ ˈbɾɐ̃kɐʃ]

Artigo, adjetivos e particípio assumem todos o feminino plural de casa.

Quando um adjetivo qualifica vários nomes de géneros diferentes, a norma faz prevalecer o masculino plural: o pai e a mãe estão cansados. É por esta razão que o género gramatical, longe de ser um pormenor de etiqueta, é uma engrenagem central da sintaxe portuguesa: errar o género de um nome arrasta consigo o erro em toda a frase.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
  3. Eduardo Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)