Gramática 文 · 02

Classes de palavras

As categorias em que se arrumam as palavras do português — nome, verbo, adjetivo e as restantes —, os critérios que as definem e a reorganização proposta pelo Dicionário Terminológico.

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As classes de palavras — também chamadas categorias gramaticais ou, na terminologia tradicional, classes gramaticais — são os conjuntos em que se agrupam todas as palavras de uma língua segundo o seu comportamento. Saber a que classe pertence cada palavra é o alicerce de toda a descrição gramatical: é o que permite dizer que, em o gato dorme, gato é um nome, o o acompanha e dorme é o verbo que organiza a frase.

Que critérios as definem

Uma palavra não se classifica pelo seu sentido isolado, mas pelo modo como funciona. A gramática moderna recorre a três critérios, com pesos diferentes:

  • morfológico — que flexões a palavra admite (género, número, grau; pessoa, tempo, modo). Só os verbos se conjugam; só nomes e adjetivos variam em género.
  • sintático — que posições ocupa e com que outras palavras se combina. O artigo antecede o nome; o advérbio modifica o verbo, o adjetivo ou outro advérbio.
  • semântico — que tipo de significado veicula (entidades, ações, qualidades, relações). É o critério mais intuitivo, mas também o menos fiável, pelo que se subordina aos dois anteriores.

A palavra correr designa uma ação e é verbo; corrida designa essa mesma ação, mas comporta-se como nome — leva artigo e plural (as corridas). O significado é próximo; a classe difere porque difere o comportamento.

As dez classes tradicionais

A gramática escolar portuguesa, na linha de Cunha e Cintra, reconhece dez classes, repartidas entre palavras variáveis (que flexionam) e invariáveis (que não flexionam):

ClasseTipoExemplo
Nome (substantivo)variávelcasa, Lisboa, saudade
Adjetivovariávelalto, português, feliz
Artigovariávelo, a, um, uns
Numeralvariáveldois, terceiro, dobro
Pronomevariáveleu, este, quem, lhe
Verbovariávelser, fazer, partir
Advérbioinvariávelbem, ali, talvez, não
Preposiçãoinvariávelde, em, para, sob
Conjunçãoinvariávele, mas, porque, se
Interjeiçãoinvariávelai!, olá!, oxalá!

As seis primeiras flexionam; as quatro últimas mantêm forma fixa. O nome, o adjetivo e o verbo são o núcleo da frase — designam, qualificam e predicam —, ao passo que as restantes classes desempenham sobretudo funções de ligação e de referência.

Classes abertas e classes fechadas

Um corte mais revelador opõe as classes abertas às fechadas. As abertas — nomes, adjetivos, verbos e (em parte) advérbios — acolhem livremente palavras novas: cada inovação técnica ou social traz nomes e verbos inéditos (telemóvel, descarregar, bloguista). As classes fechadas — artigos, pronomes, preposições, conjunções — formam inventários estáveis e reduzidos, que praticamente não recebem membros novos. Por isso se chama às primeiras palavras lexicais (ou de conteúdo) e às segundas palavras gramaticais (ou funcionais).

A arrumação do Dicionário Terminológico

A descrição tradicional não é a única. O Dicionário Terminológico (2008), em vigor no ensino em Portugal, reorganizou as classes à luz da linguística contemporânea. As mudanças mais visíveis são duas: o artigo deixou de ser classe autónoma e passou a subtipo de uma nova categoria, o determinante (que reúne também demonstrativos, possessivos e outros); e o numeral foi, em boa parte, integrado num quantificador. Distingue-se ainda o determinante do pronome consoante a palavra acompanha um nome ou o substitui.

Esta casa é minha. · Esta é minha.

No primeiro caso, este e meu acompanham o nome (são determinantes); no segundo, ocupam o lugar do nome (são pronomes). A mesma forma, classes distintas.

O resultado é também um inventário de dez classes — nome, adjetivo, verbo, advérbio, determinante, quantificador, pronome, preposição, conjunção e interjeição —, mas mais coerente do ponto de vista funcional. Tradição e Dicionário Terminológico descrevem a mesma língua; divergem na arrumação, não nos factos.

Uma palavra, várias classes

As classes não estão inscritas na palavra: dependem do uso. Uma mesma forma pode migrar de classe sem mudar de aspeto — fenómeno a que se chama conversão ou derivação imprópria.

Vamos jantar fora. · O jantar está pronto.

Jantar é verbo na primeira frase e nome na segunda; só o contexto sintático o decide.

Por isso a pergunta «a que classe pertence esta palavra?» só tem resposta plena quando a palavra está numa frase. É a função efetiva, e não o vocábulo isolado, que fixa a classe.

Fontes

  1. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  2. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (eds.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  3. Ministério da Educação (Portugal). Dicionário Terminológico . Direção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular (2008)