Gramática 文 · 11
Demonstrativos e possessivos
Os dois sistemas que ancoram o discurso no espaço e na pessoa — a deixis tripartida dos demonstrativos (este/esse/aquele) e a posse (meu/teu/seu) que concorda com o objeto, não com o dono.
ptOs demonstrativos e os possessivos são duas classes de palavras que servem para situar: ancoram aquilo de que falamos no espaço, no tempo e no jogo das pessoas do discurso. Os demonstrativos exprimem a deixis — apontam para algo em relação a quem fala, a quem ouve e ao que está distante de ambos. Os possessivos exprimem a posse — ligam um objeto a uma das pessoas gramaticais. Ambos são, na sua maioria, palavras variáveis, que concordam em género e número com o nome a que se referem.
A deixis em três graus
O português organiza os demonstrativos num sistema tripartido, herdado das três séries latinas iste, ipse e ille. Cada grau corresponde a uma das três pessoas do discurso:
| Grau | Masc./Fem. sing. | Masc./Fem. plur. | Neutro |
|---|---|---|---|
| 1.ª pessoa (perto de quem fala) | *este* / *esta* | *estes* / *estas* | *isto* |
| 2.ª pessoa (perto de quem ouve) | *esse* / *essa* | *esses* / *essas* | *isso* |
| 3.ª pessoa (longe de ambos) | *aquele* / *aquela* | *aqueles* / *aquelas* | *aquilo* |
A escolha do grau não é arbitrária: este livro é o que tenho na mão; esse livro é o que está junto de ti; aquele livro é o que está afastado de nós dois. O mesmo contraste se projeta no tempo (neste momento — agora; naquele tempo — outrora) e no texto. Os demonstrativos correlacionam-se ainda com os advérbios de lugar: aqui e cá (este), aí (esse), ali e lá (aquele).
Dá-me esta caneta que está aqui, não essa que tens aí nem aquela que está além.
Os três graus opostos numa só frase, cada um ligado à sua zona dêitica.
As formas isto, isso e aquilo são neutras e invariáveis: remetem para algo não identificado, para uma ideia ou para uma porção de discurso, e nunca acompanham um nome (Isto é importante; Não digas isso).
Demonstrativos e contrações
Como os artigos, os demonstrativos contraem-se obrigatoriamente com as preposições de e em, e a preposição a funde-se com os do terceiro grau, recebendo então acento grave (a chamada crase):
de + este → deste · em + esse → nesse · a + aquele → àquele · de + isto → disto · em + aquilo → naquilo
A contração é obrigatória na escrita: escreve-se *naquela casa*, nunca «em aquela casa».
A oposição entre este e esse tem ainda um uso anafórico na língua cuidada: ao retomar dois elementos já mencionados, este refere o último nomeado e aquele o primeiro.
A posse: concordar com o objeto, não com o dono
Os possessivos têm uma forma para cada pessoa gramatical. O traço que mais desorienta quem chega de uma língua como o inglês é que o possessivo português concorda em género e número com a coisa possuída, e não com o possuidor: diz-se a sua casa e o seu carro qualquer que seja o sexo do dono.
| Possuidor | Masc. sing. | Fem. sing. | Masc. plur. | Fem. plur. |
|---|---|---|---|---|
| eu | *meu* | *minha* | *meus* | *minhas* |
| tu | *teu* | *tua* | *teus* | *tuas* |
| ele/ela/você | *seu* | *sua* | *seus* | *suas* |
| nós | *nosso* | *nossa* | *nossos* | *nossas* |
| vós | *vosso* | *vossa* | *vossos* | *vossas* |
| eles/elas | *seu* | *sua* | *seus* | *suas* |
No português europeu, o possessivo é normalmente precedido do artigo definido quando determina um nome: o meu pai, a minha irmã, os nossos amigos. A omissão do artigo dá um tom enfático, arcaizante ou de registo elevado (Minha senhora) e é regra em vocativos e em certas expressões fixas (em minha casa, Nossa Senhora).
O teu casaco está em cima da minha cama.
Cada possessivo concorda com o seu nome: *teu* com *casaco* (masc.), *minha* com *cama* (fem.).
A ambiguidade de seu e a solução dele/dela
Por servir simultaneamente para a 3.ª pessoa (ele, ela, eles, elas) e para o tratamento de cortesia (você, o senhor), o possessivo seu é potencialmente ambíguo: o seu livro pode significar «o livro dele», «o livro dela» ou «o livro de você». Quando o contexto não basta, o português recorre às formas com a preposição de mais o pronome pessoal — dele, dela, deles, delas —, que identificam o possuidor sem equívoco.
Encontrei o irmão dela e os pais dele na estação.
*Dela* e *dele* desfazem a ambiguidade que *o seu / os seus* deixaria em aberto.
Reforço e combinação
Os demonstrativos podem ser reforçados por mesmo, próprio ou pelos advérbios de lugar (este aqui, aquele ali). Demonstrativos e possessivos combinam-se sem dificuldade, sempre depois do artigo: este meu amigo, aquela tua ideia. Os possessivos servem ainda de pronomes, dispensando o nome quando este se subentende (A minha mala é maior do que a tua) e, com valor partitivo ou afetivo, surgem em expressões como um amigo meu ou fazer das suas.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
- Moderna Gramática Portuguesa . Nova Fronteira (2009)