Gramática 文 · 10
Formas de tratamento
Como o português escolhe entre tu, você, o senhor e vós para se dirigir ao interlocutor — a oposição de proximidade e respeito, a concordância verbal e as estratégias do português europeu.
ptPoucas escolhas gramaticais carregam tanta informação social como a forma de tratamento: a maneira de nos dirigirmos a um interlocutor revela, de imediato, a proximidade, a hierarquia e o grau de respeito que assumimos na relação. O português não dispõe de um único pronome neutro de segunda pessoa, como o you inglês; obriga, a cada frase, a uma decisão entre tu, você, o senhor / a senhora e, mais raramente, vós.
A oposição T–V
O sistema herda do latim uma distinção que os linguistas Roger Brown e Albert Gilman, num estudo clássico de 1960, chamaram a oposição T–V (de tu e vos): um eixo de solidariedade, que aproxima e trata por igual, e um eixo de poder, que marca distância e deferência. Tu é o termo da intimidade; as formas de cortesia são o termo do respeito. A escolha não é livre — é negociada socialmente e, em caso de erro, sentida como abuso de confiança ou como frieza.
Um traço decisivo do português é que apenas tu exige a segunda pessoa do verbo. Todas as outras formas — você, o senhor, o tratamento pelo nome — se constroem com a terceira pessoa, como se falássemos do interlocutor e não com ele.
| Tratamento | Pessoa do verbo | Registo |
|---|---|---|
| tu | 2.ª sing. (tu falas) | íntimo, familiar |
| você | 3.ª sing. (você fala) | intermédio, marcado |
| o senhor / a senhora | 3.ª sing. (o senhor fala) | formal, deferente |
| vós | 2.ª pl. (vós falais) | arcaico, solene, regional |
Tu — a proximidade
Tu dirige-se a quem se conhece de perto: familiares, amigos, colegas próximos, crianças, e — entre jovens — quase por defeito. Leva a segunda pessoa do singular e o possessivo teu / tua. Em Portugal continua plenamente vivo e é a marca da relação informal.
Tu trouxeste o teu carro ou vieste de comboio?
Did you bring your car or did you come by train?
Você — o pronome ambíguo
Você nasceu de uma fórmula de cortesia, Vossa Mercê, que ao longo dos séculos se gastou: Vossa Mercê → vossemecê → vosmecê → você. Desse percurso ficou-lhe a construção com a terceira pessoa, mas perdeu-se o brilho reverencial original.
No português europeu, você ocupa hoje uma zona desconfortável: menos íntimo do que tu, menos respeitoso do que o senhor. Pode soar a distância cortês entre adultos de estatuto semelhante, mas, dirigido a um superior ou a um desconhecido mais velho, é com frequência sentido como descortês. Por isso, muitos falantes evitam o pronome explícito e deixam que o verbo, na terceira pessoa, baste.
Quer um café? — em vez de — Você quer um café?
Would you like a coffee? — the bare third-person verb avoids the loaded pronoun.
O senhor, a senhora — a deferência
Para o respeito explícito, o português usa o senhor e a senhora (de senhor < latim SENIOR, “mais velho”), igualmente com o verbo na terceira pessoa. É o tratamento devido a desconhecidos, a pessoas mais velhas e a relações de serviço ou hierarquia.
A esta categoria pertence ainda o tratamento pelo nome ou pelo título combinado com a terceira pessoa, muito característico de Portugal: A Maria aceita uma boleia?, O doutor já decidiu?, A senhora engenheira quer ver o projeto?. É uma estratégia elegante para ser respeitoso sem cair no você.
Vós — o plural antigo
Vós foi o plural de segunda pessoa e, em tempos, também uma forma reverente de singular. No português padrão atual é arcaico: sobrevive na linguagem religiosa e litúrgica, na oratória solene e em fórmulas fixas. Como plural corrente, foi substituído por vocês, que é o plural tanto de tu como de você e leva a terceira pessoa do plural (vocês falam).
Concordância: o problema do possessivo
Como você e o senhor partilham a terceira pessoa, partilham também o possessivo seu / sua — o mesmo de ele / ela. Daí uma ambiguidade real: o seu livro tanto pode ser “o livro de você” como “o livro dele”. O contexto desfaz quase sempre a dúvida; para tu, porém, o possessivo é inequívoco: teu / tua.
Dominar as formas de tratamento é, no português europeu, menos uma questão de gramática do que de tato: escolher bem entre o tu da confiança e o respeito da terceira pessoa é saber ler a relação antes de falar.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
- The Pronouns of Power and Solidarity . in Style in Language, ed. T. A. Sebeok, MIT Press (1960)