Gramática 文 · 09
Mesóclise
A colocação do pronome átono no interior do verbo, entre o radical e a terminação do futuro ou do condicional — dar-te-ei, far-se-ia —, marca distintiva do português europeu culto.
ptA mesóclise é a colocação do pronome pessoal átono dentro do verbo, encaixado entre o radical e a terminação. Não acontece com qualquer forma verbal: só ocorre no futuro do indicativo e no condicional (futuro do pretérito), e produz formas que à primeira vista surpreendem — dar-te-ei, far-se-ia, amá-lo-emos. É um dos traços mais característicos do português europeu cuidado e, ao mesmo tempo, um fóssil vivo da história da língua.
Dar-te-ei uma resposta amanhã.
[ˈdaɾ tɨ ˈɐj]
Dar-te-hei = «dar-te-ei»: o pronome te interpõe-se entre dar e a terminação -ei do futuro.
Uma herança do futuro perifrástico
A mesóclise só se compreende à luz da origem do futuro e do condicional românicos. Em latim clássico, o futuro era uma forma sintética própria (cantabo «cantarei»). No latim vulgar, essa forma ruiu e foi substituída por uma perífrase: o infinitivo seguido do presente do verbo habēre «haver». Assim, cantare habeo — literalmente «hei de cantar» — deu cantarei; e o infinitivo seguido do imperfeito de habēre, cantare habēbam, deu o condicional cantaria.
O ponto decisivo é que, na origem, as duas partes eram palavras separadas, e entre elas podiam intercalar-se outros elementos, nomeadamente os pronomes. O que hoje sentimos como uma única forma verbal era, em rigor, cantar + (h)ei. A mesóclise é a memória dessa separabilidade: o pronome ocupa ainda a posição que historicamente lhe pertencia, entre o infinitivo e o resto da terminação.
Por isso a fronteira interna do verbo é sempre nítida. Em dar-te-ei, dar é o antigo infinitivo e -ei é o vestígio de hei; o pronome te limita-se a ocupar o espaço que já existia entre ambos.
Nos textos medievais e clássicos, esta separabilidade era ainda mais visível: o pronome interpunha-se com grande liberdade, e a própria grafia hesitava entre dar-te-hei, com o h etimológico de haver, e a forma já contraída. A reforma ortográfica de 1911 fixou a supressão desse h, dando a grafia atual dar-te-ei. A mesóclise é, assim, o último reduto de uma sintaxe verbal antiga que, no resto do sistema, há muito se cristalizou em formas simples.
Quando ocorre: a regra
A mesóclise não é uma opção estilística livre: resulta das regras gerais de colocação pronominal. A ideia essencial é simples.
No futuro e no condicional, o português não admite ênclise (não se diz *darei-te, *faria-se). Logo, quando nada obriga o pronome a anteceder o verbo, ele é atraído para dentro dele — e temos mesóclise. É, por assim dizer, a ênclise possível destes dois tempos.
Contar-lhe-ei tudo. · Sentar-me-ia ali.
Sem nenhuma palavra atrativa antes do verbo, o futuro e o condicional fazem mesóclise.
Quando, porém, uma palavra atrativa precede o verbo, o pronome é puxado para a frente (próclise) e a mesóclise desaparece. São atrativos, entre outros:
- as negações — não, nunca, jamais, ninguém, nada: não te darei;
- as conjunções subordinativas — que, quando, se, porque, embora: disse que me telefonaria;
- certos advérbios — já, sempre, só, talvez, também: talvez se arrependa;
- os pronomes e advérbios interrogativos e relativos — quem, que, onde: a pessoa que me ajudaria.
A forma: hífenes e alterações do radical
Graficamente, a mesóclise une as três peças com hífenes: radical + pronome + terminação. Mas a junção do pronome ao radical desencadeia, por vezes, as mesmas alterações fonéticas e gráficas da ênclise.
Quando o pronome é o, a, os, as e o radical termina em -r, esse -r cai e o pronome assume a forma -lo, -la, -los, -las; a vogal final do radical pode receber acento gráfico. Assim, amar + o (no futuro) dá amá-lo-ei, e fazer
- o dá fá-lo-ei. Os verbos dizer, fazer, trazer e seus compostos têm, além disso, radicais de futuro contraídos — dir-, far-, trar- —, que são os que entram na mesóclise.
| Verbo + pronome | Forma mesoclítica | Pronúncia |
|---|---|---|
| amar + o (fut.) | *amá-lo-ei* | ɐˈma lu ˈɐj |
| fazer + se (cond.) | *far-se-ia* | ˈfaɾ sɨ ˈi.ɐ |
| dizer + te (fut.) | *dir-te-ei* | ˈdiɾ tɨ ˈɐj |
| dar + lho (fut.) | *dar-lho-ei* | ˈdaɾ ʎu ˈɐj |
A terminação que se segue ao pronome é a terminação normal do tempo: -ei, -ás, -á, -emos, -eis, -ão no futuro; -ia, -ias, -ia, -íamos, -íeis, -iam no condicional. Daí que a forma mesoclítica de um verbo se obtenha, na prática, abrindo a forma simples e inserindo o pronome na sua costura interna.
Conjugação com clítico
Vista por extenso, a regularidade do esquema torna-se evidente. O pronome mantém-se fixo no centro, enquanto a terminação percorre as seis pessoas.
| eu | dar-te-ei |
|---|---|
| tu | dar-te-ás |
| ele/ela | dar-te-á |
| nós | dar-te-emos |
| vós | dar-te-eis |
| eles/elas | dar-te-ão |
| eu | far-se-ia |
|---|---|
| tu | far-se-ias |
| ele/ela | far-se-ia |
| nós | far-se-íamos |
| vós | far-se-íeis |
| eles/elas | far-se-iam |
Clíticos combinados
A mesóclise comporta também os pronomes combinados, em que um complemento indireto (me, te, lhe, nos, vos) se funde com um direto (o, a, os, as), gerando mo, to, lho, no-lo, vo-lo e respetivos femininos e plurais. Inserido na costura do verbo, o conjunto produz formas de grande densidade.
Dar-lho-ei amanhã. · Devolver-vo-lo-íamos de imediato.
lho = «lhe + o»; vo-lo = «vos + o». O bloco clítico encaixa-se entre radical e terminação.
Estas construções, hoje quase só literárias ou jurídicas, ilustram até onde o mecanismo pode chegar sem deixar de ser plenamente gramatical.
Registo e vitalidade
A mesóclise é gramaticalmente obrigatória nos contextos descritos, mas pertence sobretudo à língua escrita e formal. Na oralidade europeia corrente, o falante tende a evitá-la, reescrevendo a frase de modo a introduzir uma palavra atrativa (eu logo te direi em vez de dir-te-ei) ou recorrendo a uma perífrase com ir (vou dizer-te). Ainda assim, mantém-se viva na imprensa, no discurso institucional e na boa prosa, e é sentida como marca de cuidado e correção.
Dominar a mesóclise não é, pois, decorar exceções, mas reconhecer um único princípio: nestes dois tempos, o pronome só pode ir à frente do verbo ou dentro dele. Quando nada o chama para a frente, ele acomoda-se no interior — exatamente onde, há mil anos, sempre esteve.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Gramática da Língua Portuguesa . Caminho (2003)
- Gramática Histórica da Língua Portuguesa . Melhoramentos (1931)
- Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)