Cultura 風 · 09

Nomes e formas de tratamento social

Como se formam os nomes portugueses — nomes próprios e apelidos — e como a sociedade se dirige a cada um: tu, você, o senhor e o uso característico dos títulos.

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Dar um nome e saber como dirigir-se a alguém são dois gestos culturais carregados de história. Em Portugal, ambos obedecem a convenções precisas — umas fixadas em lei, outras enraizadas no costume — que revelam muito sobre a relação entre quem fala e quem ouve.

O nome português: nome próprio e apelidos

Um nome completo português divide-se em duas partes: o nome próprio (o nome de batismo) e os apelidos (os nomes de família). A lei portuguesa é, neste ponto, das mais reguladas da Europa. O Código do Registo Civil permite, no máximo, dois nomes próprios e quatro apelidos — seis vocábulos ao todo. Os nomes próprios têm de ser portugueses, na forma plena (não diminutivos como ou ), e devem indicar de forma inequívoca o sexo da criança. O Instituto dos Registos e Notariado publica e atualiza uma lista oficial de nomes admitidos e recusados, o que faz de Portugal um caso raro de regulação ativa da onomástica.

A ordem dos apelidos segue uma tradição ibérica: tipicamente vêm primeiro os apelidos da mãe e, em último lugar, o do pai — sendo este último, por isso, o apelido considerado principal e o usado no tratamento corrente. Assim, alguém registado como Ana Sofia Pereira Costa será correntemente Ana Costa.

Maria João Almeida Silva Ferreira

Dois nomes próprios (Maria João) seguidos de apelidos da mãe (Almeida Silva) e do pai (Ferreira). No dia a dia: «a Maria João Ferreira».

Muitos apelidos portugueses são de origem toponímica (Coimbra, Lisboa, Guimarães), outros remontam a antigos patronímicos terminados em -es (Fernandes “filho de Fernando”, Rodrigues, Gonçalves), e uma grande parte tem raiz religiosa ou devocional (Santos, Cruz, Espírito Santo, de Jesus).

Tu, você e o senhor

Onde o inglês moderno usa um único you, o português distribui o tratamento por vários graus de proximidade e deferência. A escolha não é gramatical apenas: é um ato social.

  • Tu — tratamento de intimidade e igualdade, usado com a família, os amigos, as crianças e entre jovens. Leva o verbo na segunda pessoa do singular (tu tens, tu vais).
  • Você — em Portugal ocupa um terreno intermédio e delicado. Pode marcar uma formalidade cordial entre iguais que não se tuteiam, mas dirigido a um superior ou a um mais velho pode soar distante ou até descortês. Constrói-se com o verbo na terceira pessoa (você tem).
  • O senhor / a senhora — o tratamento respeitoso por excelência, próprio das relações formais e de deferência etária ou hierárquica.

Uma solução tipicamente portuguesa para evitar o você é o tratamento pela terceira pessoa com o nome ou o título: em vez de perguntar “Você quer um café?”, diz-se “A Maria quer um café?” ou “O senhor doutor quer um café?”. É um recurso de delicadeza muito vivo na fala quotidiana.

A avó já tomou o pequeno-almoço?

Pergunta dirigida à própria avó. O parentesco substitui o pronome — fórmula respeitosa e afetuosa ao mesmo tempo.

No plural, o português europeu moderno usa vocês para todos os destinatários, com o verbo na terceira pessoa do plural; o antigo vós sobrevive sobretudo na linguagem litúrgica, na retórica solene e em falares regionais do Norte.

Os títulos

Poucas culturas europeias dão aos títulos o peso que lhes dá a portuguesa. O mais notável é Doutor / Doutora, que tradicionalmente se estendeu a qualquer licenciado, e não apenas a quem possui doutoramento — embora o uso esteja hoje a recuar entre as gerações mais novas. Outras profissões têm tratamento próprio: Senhor Engenheiro, Senhor Arquiteto, Senhor Professor, Senhor Padre.

A fórmula combina frequentemente senhor + título + (opcionalmente) apelido:

TratamentoContexto
Senhor Doutora um médico, advogado ou licenciado
Senhora Doutora Costaversão com apelido, mais formal
Senhor Engenheiroa um engenheiro
Dona Mariacortesia diante do nome próprio de uma mulher
Dom (D.)reis, membros da nobreza e bispos

A partícula Dona (abreviada D.) antepõe-se ao nome próprio feminino como marca de respeito cordial — a Dona Maria, a Dona Teresa — e não tem equivalente masculino corrente; o Dom masculino reserva-se hoje para a realeza histórica e para os bispos da Igreja.

Uma gramática da cortesia

Escolher entre tu, você e o senhor, decidir se se trata alguém por Doutor ou pelo nome, saber quando se passa do tratamento formal ao familiar — tudo isto constitui uma verdadeira gramática social. Dominá-la é parte do que significa pertencer plenamente a uma comunidade de fala: o nome diz quem se é, e a forma de tratamento diz como se está, em cada momento, perante os outros.

Fontes

  1. Luís F. Lindley Cintra. Sobre "Formas de Tratamento" na Língua Portuguesa . Livros Horizonte (1972)
  2. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
  3. República Portuguesa. Código do Registo Civil . Instituto dos Registos e Notariado (1995)