Léxico 語 · 10

Expressões idiomáticas e provérbios

A camada figurada da língua — ditados, frases feitas e provérbios em que a história, o mar, a lavoura e a fé deixaram a sua marca no português europeu.

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Toda a língua tem uma camada que não se deixa traduzir palavra a palavra. Ficar a ver navios não tem que ver com embarcações, nem engolir sapos com anfíbios: são expressões idiomáticas, conjuntos fixos cujo sentido global não resulta da soma das partes. A par delas correm os provérbios — frases breves, fechadas e muitas vezes rimadas, que condensam um juízo moral ou prático transmitido de geração em geração. Juntos, formam aquilo a que se costuma chamar a sabedoria popular de uma língua.

Provérbio, expressão, frase feita

Convém distinguir três coisas que a linguagem corrente confunde. O provérbio (ou ditado, adágio, rifão) é um enunciado completo, autónomo, que afirma uma verdade geral: Águas passadas não movem moinhos. A expressão idiomática é um fragmento que se encaixa numa frase e funciona como um bloco lexical: fazer das tripas coração, estar com os azeites. A frase feita é a fórmula gasta pelo uso, sem a densidade sentenciosa do provérbio: à grande e à francesa. As fronteiras são porosas, mas o critério útil é este: o provérbio aconselha, a expressão apenas significa.

De onde vêm

A maior parte deste acervo nasce da experiência partilhada de uma comunidade, e as suas imagens revelam o mundo que a produziu. Quatro veios são particularmente fecundos no português.

Da vida rural vem grande parte dos provérbios: Em abril, águas mil; Grão a grão enche a galinha o papo; Quem semeia ventos colhe tempestades. Do mar e da navegação, herança natural de um povo virado para o Atlântico, vêm imagens como ir por água abaixo ou navegar em mar alto. A religião semeou a língua de referências bíblicas e litúrgicas: chorar como uma Madalena, o santo do dia, passar das marcas. E a história deixou expressões cuja origem se perdeu para o falante comum mas que a tradição reconstrói.

À grande e à francesa

Com luxo e ostentação. A tradição liga a fórmula ao general Junot, comandante da primeira invasão napoleónica (1807) e conhecido pelo seu modo de vida faustoso em Lisboa.

A célebre ficar a ver navios — sair-se mal, ficar de mãos a abanar — é popularmente associada ao povo que, à beira do Tejo, terá esperado em vão o regresso de D. Sebastião após o desastre de Alcácer-Quibir (1578). É uma etimologia sedutora e muito repetida, mas, como acontece com tantas expressões, os estudiosos lembram que tais reconstruções são quase sempre posteriores e difíceis de comprovar.

Um pequeno repertório

ExpressãoSentido literalSignificado
engolir saposswallow toadsaguentar contrariedades sem reagir
fazer das tripas coraçãomake heart from gutsesforçar-se ao máximo
estar com os azeitesbe with the oilsestar irritado, de mau humor
pôr o pé na argolaput one’s foot in the ringcometer uma asneira séria
ficar a ver naviosbe left watching shipsficar logrado, sem nada
ficar de mãos a abanarbe left with hands wavingficar de mãos vazias

Repare-se que muitas destas imagens são opacas: o falante usa-as sem reparar na metáfora original, do mesmo modo que diz à toa ou a torto e a direito sem analisar as palavras. É esse desgaste que distingue a expressão idiomática de uma simples metáfora viva.

A forma dos provérbios

O provérbio não é só conteúdo: é também forma. Tende a ser breve, simétrico e memorável, e recorre a recursos que o ajudam a fixar-se na memória — a rima, o paralelismo, a aliteração, o ritmo binário. Daí a sua resistência: muda-se a sociedade, mas o molde sobrevive.

Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

A persistência vence a resistência. A rima (dura / fura) e o ritmo regular tornam o ditado quase impossível de esquecer.

Outros condensam, numa só linha, todo um código de bom senso: Mais vale um pássaro na mão que dois a voar (não trocar o certo pelo incerto); Em casa de ferreiro, espeto de pau (falta o que seria de esperar); Cão que ladra não morde (a ameaça ruidosa raramente se cumpre); Quem tem boca vai a Roma (quem pergunta chega a qualquer lado).

Variação entre as variedades

Boa parte deste fundo é comum a todo o espaço da língua, porque anterior à expansão atlântica. Mas cada variedade desenvolveu também o seu, e há expressões que divergem no léxico ou na imagem.

Por que importam

As expressões idiomáticas e os provérbios são, ao mesmo tempo, um arquivo e um obstáculo. Arquivo, porque guardam, fossilizados, ofícios, crenças e acontecimentos que de outro modo se perderiam. Obstáculo, porque são o último patamar que o aprendente de uma língua estrangeira domina: pode conhecer toda a gramática e ainda assim ficar a ver navios diante de uma frase feita. Dominá-las é sinal de que se passou do conhecimento da língua à pertença a uma cultura.

Fontes

  1. José Pedro Machado. O Grande Livro dos Provérbios . Editorial Notícias (1996)
  2. Guilherme Augusto Simões. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas . Publicações Dom Quixote (1993)
  3. Orlando Neves. Dicionário de Expressões Correntes . Editorial Notícias (2000)