Léxico 語 · 11
Falsos amigos
Palavras que se parecem mas não significam o mesmo — dentro do próprio português, entre o português e o espanhol e entre o português e o inglês.
ptChamam-se falsos amigos (ou falsos cognatos) as palavras que, por terem forma semelhante em duas línguas — ou em duas variedades da mesma língua —, dão a ilusão de partilharem o significado, quando na verdade divergem. São uma das armadilhas mais persistentes da tradução e da aprendizagem, precisamente porque a semelhança convida à confiança. O termo é um decalque do francês faux amis, cunhado por Koessler e Derocquigny em 1928.
Convém distinguir dois rótulos que a tradição mistura. Um cognato é uma palavra que partilha origem etimológica com outra; um falso amigo é qualquer par formalmente próximo cujos sentidos não coincidem — quer tenha origem comum (caso da maioria) quer seja mera coincidência. O perigo não está no parentesco, mas na divergência semântica.
Falsos amigos dentro do português
A mesma palavra pode significar coisas diferentes em Portugal e no Brasil. Não se trata de erro de nenhum dos lados: são evoluções de sentido paralelas a partir de um étimo comum.
Estes pares exigem cautela redobrada justamente porque ambos os falantes julgam estar a usar a “mesma” língua. Uma frase inocente numa variedade pode soar chocante na outra.
Falsos amigos com o espanhol
Português e espanhol são línguas irmãs, com uma inteligibilidade mútua elevada — e é essa proximidade que multiplica os falsos amigos, alimentando o fenómeno do portunhol. Boa parte dos pares resulta de o mesmo étimo latino ter especializado sentidos diferentes em cada lado da fronteira.
esp. «Estoy embarazada» = «Estou grávida» — e não «Estou embaraçada».
O espanhol embarazada significa «grávida»; o português embaraçada significa «atrapalhada, enredada».
| Espanhol | Parece… | Significa de facto |
|---|---|---|
| exquisito | esquisito (estranho) | requintado, delicioso |
| oficina | oficina (mecânica) | escritório |
| largo | largo (amplo) | comprido |
| salada | salada | salgada |
| polvo | polvo | pó, poeira |
| cena | cena | jantar |
| brincar | brincar | saltar |
| pegar | pegar | bater, colar |
Note-se que embaraçar e embarazar remontam ambos ao mesmo radical, mas o castelhano restringiu-o ao sentido de “engravidar”, enquanto o português conservou o de “enredar, estorvar”.
Falsos amigos com o inglês
Com o inglês, o contacto faz-se sobretudo através do latim que ambas as línguas herdaram, direta ou indiretamente. Muitos anglicismos aparentes são, na verdade, ciladas: a forma latina sobrevive nas duas línguas com valores que se afastaram.
ing. «I am actually constipated.» ≠ «Estou atualmente constipado.»
actually = «na verdade» (não «atualmente»); constipated = «com prisão de ventre» (não «constipado/a», que em inglês se diz to have a cold).
Alguns dos pares mais traiçoeiros para quem traduz entre as duas línguas:
| Inglês | Parece… | Significa de facto |
|---|---|---|
| actual / actually | atual / atualmente | real / na verdade |
| eventually | eventualmente | por fim, mais tarde ou mais cedo |
| pretend | pretender | fingir |
| realize | realizar | dar-se conta, aperceber-se |
| assist | assistir | ajudar |
| library | livraria | biblioteca |
| parents | parentes | pais |
| push | puxar | empurrar |
| exit | êxito | saída |
A inversão de push / puxar é particularmente célebre: empurrar uma porta inglesa marcada push corresponde, em português, a fazer o contrário do que a palavra semelhante sugere.
Porque surgem
Os falsos amigos nascem quase sempre de divergência semântica a partir de uma origem comum: o latim exquisitus (“rebuscado”) deu o elogioso exquisito espanhol e o depreciativo esquisito português. Noutros casos, a coincidência é fortuita — formas que se aproximaram por acaso, sem parentesco. E há ainda os empréstimos que, ao serem adaptados, mudaram de sentido na língua de chegada.
A lição prática é simples e antiga: na dúvida, desconfie da semelhança. O dicionário — e não a intuição — é o árbitro. Para o estudante estrangeiro, a lista de pares a memorizar é finita e bem documentada; para o tradutor, vale a regra de ouro de nunca verter uma palavra “óbvia” sem a ter confirmado em contexto.
Fontes
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)
- Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea . Verbo (2001)
- Guia Prático de Tradução Inglesa . Campus/Elsevier (2007)