Aprender 学 · 09

Falsos amigos para estrangeiros

As armadilhas lexicais que mais enganam quem chega ao português a partir do inglês ou do espanhol — e como deixar de cair nelas.

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Um falso amigo (ou falso cognato) é uma palavra que, numa língua estrangeira, se parece com uma palavra da nossa — na grafia ou no som — mas tem um significado diferente. Para quem aprende português, os dois reservatórios mais perigosos de falsos amigos são o inglês e, sobretudo, o espanhol: línguas tão próximas que dão uma confiança enganadora. Quanto mais semelhante é a forma, mais traiçoeira é a diferença de sentido.

Porque é que enganam

O português, o espanhol e boa parte do vocabulário culto do inglês partilham uma herança latina comum. Milhares de palavras viajaram em paralelo a partir da mesma raiz, mas cada língua especializou-as à sua maneira: umas estreitaram o sentido, outras alargaram-no, outras ainda mudaram de domínio. O resultado é um campo minado de pares que parecem equivaler-se e não equivalem. O perigo não está nas palavras obviamente estranhas — essas obrigam-nos a procurar — mas nas que soam familiares e que usamos sem desconfiar.

Armadilhas para quem vem do inglês

PortuguêsParece (ingl.)Significa de facto”…” em português
puxarpushpuxar (pull)push = empurrar
constipadoconstipatedcom gripe/constipaçãoconstipated = com prisão de ventre
pretenderto pretendtencionarto pretend = fingir
assistirto assistassistir a, verto assist = ajudar
eventualmenteeventuallyporventura, talvezeventually = por fim
educadoeducatedbem-comportado, cortêseducated = instruído
livrarialibraryloja de livroslibrary = biblioteca
esquisitoexquisiteestranho, bizarroexquisite = requintado

A confusão clássica é a das portas. Em quase todos os estabelecimentos portugueses, o anglófono lê puxe e empurra — porque a palavra evoca push.

PUXE / EMPURRE

[ˈpuʃ(ɨ) / ẽˈpuʁ(ɨ)]

Nas portas: puxe = pull (não 'push'!); empurre = push. A semelhança gráfica entre puxe e push faz o estrangeiro fazer exatamente o contrário.

Repare ainda que atual significa “presente, do momento” (não actual, “real”); que fábrica é uma factory (não fabric, que é tecido); e que parentes são familiares em geral — os parents dizem-se pais.

Armadilhas para quem vem do espanhol

Aqui o risco multiplica-se, porque a proximidade é tão grande que se cai no portunhol sem dar conta. Muitas palavras coincidem na forma e divergem no sentido de modo radical:

FormaEm espanholEm português
exquisito / esquisitorequintado, deliciosoestranho, bizarro
embarazada / embaraçadagrávidaatrapalhada, enredada
oficinaescritóriogaragem, atelier
cenajantarcena (de teatro/filme)
largocompridolargo (wide)
polvopolvo (octopus)
ratoum bocado de temporato (mouse)
propinagorjeta, subornopropina (taxa de estudos)
borrachabêbadaborracha (de apagar / rubber)

Alguns destes pares produzem mal-entendidos memoráveis: dizer que se está embaraçada quando se quer anunciar uma gravidez, ou pedir uma oficina à espera de um escritório.

Estou esquisito hoje.

[ɨʃtow ɨʃkiˈzitu ˈoʒɨ]

A um hispanofalante isto soa a «estou requintado»; ao português significa «sinto-me estranho». Esquisito nunca quer dizer 'saboroso'.

Casos que mudam conforme a variante

Alguns falsos amigos não são fixos: dependem de se estar a aprender português europeu ou brasileiro. A palavra apelido é o exemplo perfeito — e ilustra porque é que escolher uma variante de referência ajuda a estabilizar o vocabulário.

Outro caso tipicamente europeu é propina: em Portugal, a propina é a taxa que se paga para frequentar a universidade; em espanhol, propina é a gorjeta, e em vários contextos hispânicos chega a significar “suborno”. Pedir desconto na propina tem, portanto, leituras muito diferentes consoante o interlocutor.

Como não cair nas armadilhas

Três hábitos resolvem a maior parte dos tropeções:

  • Desconfiar do que é fácil. Se uma palavra parece “óbvia” demais, confirme o sentido num dicionário monolingue. As palavras difíceis raramente enganam; as fáceis sim.
  • Aprender em contexto, não em listas isoladas. Guardar puxar dentro da frase puxar a porta fixa o sentido melhor do que decorar o par “puxar ≠ push”.
  • Manter uma variante de referência. Misturar normas — ou, no caso do espanhol, ceder ao portunhol — é o que torna os falsos amigos mais persistentes.

Os falsos amigos não são um defeito do português, mas o reverso natural do seu parentesco com outras línguas. Quem os conhece transforma a semelhança, de armadilha, em alavanca: a esmagadora maioria dos cognatos é, afinal, verdadeira — e é por isso que se aprende português tão depressa a partir do espanhol.

Fontes

  1. Agenor Soares dos Santos. Guia Prático de Tradução Inglesa . Elsevier / Campus (2007)
  2. Antônio R. M. Simões. Pois Não: Brazilian Portuguese Course for Spanish Speakers . University of Texas Press (2008)
  3. Jack Lee Ulsh. From Spanish to Portuguese . Foreign Service Institute (1971)
  4. Maria Helena Mira Mateus et al.. Gramática da Língua Portuguesa . Editorial Caminho (2003)