Variantes 異 · 14

Portunhol e variedades de fronteira

O contacto entre português e castelhano nas fronteiras da América do Sul — do portunhol improvisado aos dialetos portugueses do Uruguai, falados há gerações e hoje em lenta valorização.

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O portunhol (em castelhano portuñol) é o nome corrente para tudo o que resulta do encontro entre o português e o castelhano. O rótulo cobre, porém, realidades muito diferentes: desde a fala de recurso, improvisada por quem atravessa uma fronteira sem dominar a língua do outro lado, até variedades estáveis, transmitidas de pais para filhos há gerações. É um único nome — formado pela fusão de português/portugués e espanhol/español — para um leque de fenómenos.

*portunhol* = *portugu**ês*** + *espa**nhol*** (esp. *portu**ñol*** = *portugu**és*** + *espa**ñol***)

Uma palavra-mala que espelha, na própria forma, a mistura que designa.

Uma palavra, vários fenómenos

Convém separar três usos do termo, que a linguagem comum confunde:

SentidoO que éOnde ocorre
Portunhol de recursoInterlíngua improvisada, instável, de quem fala uma língua e tenta a outraTurismo, comércio, contactos ocasionais
Variedades de fronteiraFalares mistos, estáveis e nativos, base de uma língua com forte adstrato da outraFronteiras do Brasil, sobretudo com o Uruguai
Portunhol literárioRegisto deliberado, cultivado por escritores como recurso estéticoPoesia e ficção sul-americanas

Apenas o segundo constitui, propriamente, uma variedade linguística no sentido em que o são os dialetos. É a esse caso que a linguística dedica mais atenção, e é nas margens do Brasil que ele melhor se observa.

A fronteira e a sua história

A mais longa fronteira terrestre do Brasil estende-se por milhares de quilómetros e separa — em teoria — o domínio do português do dos países hispano-americanos. Em muitos pontos, contudo, a separação é tudo menos nítida. O caso mais estudado é o do norte do Uruguai, herança de uma longa disputa entre as coroas portuguesa e espanhola pela Banda Oriental. A região, escassamente povoada, foi colonizada sobretudo a partir do Brasil, e o português manteve-se aí como língua dominante até bem entrado o século XIX.

A independência do Uruguai (1828) e, sobretudo, a reforma escolar conduzida por José Pedro Varela (Lei de Educação Comum, 1877), que impôs o castelhano como única língua do ensino, inverteram a relação de forças. O português do norte deixou de ter cobertura institucional e converteu-se numa fala doméstica, sobreposta pelo castelhano oficial — o terreno ideal para o contacto prolongado entre as duas línguas.

Os dialetos portugueses do Uruguai

Os falares resultantes são hoje conhecidos na linguística como DPUDialectos Portugueses del Uruguay —, designação fixada por Adolfo Elizaincín e colaboradores. José Pedro Rona chamara-lhes antes dialecto fronterizo; os próprios falantes dizem frequentemente que falam brasilero ou, simplesmente, portunhol. Concentram-se nos departamentos de Artigas, Rivera e Cerro Largo, junto à linha de fronteira.

Ao contrário do que o nome popular sugere, não são uma mistura a meio caminho: a maioria dos investigadores descreve-os como variedades de base portuguesa, com um forte adstrato castelhano no léxico, na fonética e na sintaxe. Mantêm traços nitidamente lusos — as vogais nasais, o sistema verbal do português — ao mesmo tempo que incorporam vocabulário e estruturas do espanhol envolvente. O grau de mistura varia de falante para falante e de situação para situação, num continuum que vai do português mais conservador ao castelhano regional.

Cidades-gémeas como Rivera (Uruguai) e Santana do Livramento (Brasil), separadas apenas por uma rua e sem controlo fronteiriço, ilustram bem esse contínuo: passa-se de um país — e de uma língua oficial — ao outro a pé, sem solução de continuidade.

Estatuto, estigma e valorização

Durante muito tempo, os DPU foram vistos — também pelos seus falantes — como “português mal falado” ou “castelhano estropiado”, marca de pobreza e de pouca escolaridade. Esse estigma contribuiu para o seu recuo perante o castelhano-padrão, sobretudo entre os mais jovens e nos meios urbanos.

Nas últimas décadas, porém, assistiu-se a um movimento de valorização. A investigação académica, iniciada nos anos 1960 e 1970, deu-lhes existência e nome; e a literatura trouxe-lhes prestígio. O poeta uruguaio Fabián Severo escreve deliberadamente em portunhol da fronteira — como em Noite nu Norte (2010) —, fazendo da fala estigmatizada matéria de poesia.

Para além do Uruguai

O Uruguai é o caso mais documentado, mas o contacto luso-castelhano marca toda a fronteira sul-americana do português — com o Paraguai, a Argentina, a Bolívia, a Venezuela. Em nenhum outro ponto se cristalizou uma variedade tão estudada como os DPU, mas em todos eles o portunhol de recurso é parte do quotidiano.

Fontes

  1. Adolfo Elizaincín, Luis Behares & Graciela Barrios. Nos falemo brasilero: dialectos portugueses en Uruguay . Amesur (1987)
  2. Adolfo Elizaincín. Dialectos en contacto: español y portugués en España y América . Arca (1992)
  3. Fritz G. Hensey. The Sociolinguistics of the Brazilian-Uruguayan Border . Mouton (1972)