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Crioulos de base portuguesa
As línguas crioulas nascidas do contacto do português com línguas africanas e asiáticas a partir do século XV — as mais antigas crioulizações de base europeia, do Atlântico à Ásia.
ptChamam-se crioulos de base portuguesa (ou de base lexical portuguesa) as línguas crioulas cujo vocabulário provém maioritariamente do português, mas cuja gramática se reorganizou de forma autónoma no contacto com outras línguas. Nascidas da expansão marítima a partir do século XV, são as mais antigas crioulizações de base europeia que se conhecem, e estendem-se hoje da costa atlântica de África ao Índico e ao mar da China.
O que é um crioulo
Um crioulo é uma língua materna plena, surgida da estabilização e nativização de um pidgin — um sistema de comunicação reduzido, criado entre falantes sem língua comum. Um crioulo de base portuguesa não é, portanto, português mal falado nem um dialeto do português: é uma língua distinta, com fonologia, gramática e norma próprias, ainda que o grosso das suas palavras (o estrato lexical) remonte ao português dos séculos XV a XVII.
A reorganização gramatical é profunda. A flexão verbal latina dá normalmente lugar a partículas pré-verbais que marcam tempo, modo e aspeto; o género e o número exprimem-se de forma analítica; e a ordem e a sintaxe seguem padrões muitas vezes próximos das línguas africanas de substrato.
Origem: a expansão portuguesa
Os primeiros crioulos formaram-se nas feitorias e ilhas que Portugal foi ocupando ao longo da costa de África a partir de meados do século XV — desde logo no arquipélago de Cabo Verde, povoado a partir de 1462, e na ilha de São Tomé, a partir da década de 1490. Nestes territórios convivia uma população heterogénea — colonos europeus e cativos africanos de origens linguísticas diversas — para a qual um pidgin de base portuguesa se tornou rapidamente o veículo comum e, na geração seguinte, a língua materna.
A partir destes núcleos atlânticos, e ao longo das rotas para o Índico e o Extremo Oriente, formou-se uma constelação de crioulos que durante muito tempo serviram de língua franca do comércio marítimo.
Os crioulos atlânticos
Os crioulos africanos agrupam-se em dois ramos principais:
- Alta Guiné — o cabo-verdiano (kabuverdianu), de longe o mais falado de todos, língua materna da quase totalidade da população de Cabo Verde; o crioulo da Guiné-Bissau (kriol), língua veicular de grande parte do país; e o crioulo da Casamansa, no sul do Senegal, aparentado dos anteriores.
- Golfo da Guiné — o forro (ou santome) e o angolar de São Tomé, o lung’Ie do Príncipe e o fá d’Ambô de Ano Bom (Guiné Equatorial), um conjunto de variedades insulares com substrato banto.
Bon dia! Módi ki bu sta? — N sta dretu, obrigadu.
Em cabo-verdiano: «Bom dia! Como é que estás? — Estou bem, obrigado.» As palavras são portuguesas; a gramática, com bu (tu) e o marcador sta, é própria do crioulo.
Os crioulos asiáticos
A presença portuguesa no Índico e no Pacífico deu origem a um segundo conjunto, hoje muito mais ameaçado:
- Crioulos indo-portugueses — falados em pontos da Índia (Korlai, Diu, Damão) e no Sri Lanka (o crioulo português de Batticaloa), quase todos em forte recuo.
- Papiá kristang — o crioulo de Malaca, na Malásia, mantido por uma pequena comunidade católica de ascendência euro-asiática.
- Patuá — o crioulo de Macau, antiga língua da comunidade macaense, hoje em situação crítica, com poucas dezenas de falantes.
Um olhar de conjunto
| Crioulo | Onde | Situação |
|---|---|---|
| Cabo-verdiano (kabuverdianu) | Cabo Verde | Vigoroso; ~1 milhão de falantes |
| Crioulo da Guiné-Bissau (kriol) | Guiné-Bissau | Língua veicular; em expansão |
| Forro / santome | São Tomé | Vivo, mas pressionado pelo português |
| Fá d’Ambô | Ano Bom (Guiné Equatorial) | Comunitário; ameaçado |
| Papiá kristang | Malaca (Malásia) | Muito ameaçado |
| Patuá | Macau | Em vias de extinção |
A vitalidade é, pois, muito desigual: enquanto o cabo-verdiano é uma língua plena de uma sociedade inteira, vários crioulos asiáticos contam-se entre as línguas mais ameaçadas do mundo.
Estatuto e reconhecimento
Quase todos estes crioulos foram durante séculos línguas sem prestígio, faladas mas não escritas, à sombra do português oficial. Essa situação tem vindo a mudar: o cabo-verdiano dispõe de um alfabeto unificado (o ALUPEC) e de uma literatura crescente, e tanto em Cabo Verde como na Guiné-Bissau o crioulo é, na prática, a língua da vida quotidiana, ao lado do português, que permanece língua oficial e de escolarização. O estudo destas línguas é hoje um capítulo central da linguística do contacto e parte indissociável da história do português no mundo.
Fontes
- Pidgins and Creoles (2 vols.) . Cambridge University Press (1988)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- Introdução ao estudo das línguas crioulas e pidgins . Editora Universidade de Brasília (1996)