Geografia 地 · 07

Cabo Verde

No arquipélago atlântico nasceu o mais antigo crioulo de base portuguesa. Português e crioulo cabo-verdiano repartem o quotidiano numa diglossia que define a identidade do país.

pt

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas vulcânicas no Atlântico, a cerca de 600 km da costa ocidental africana. É um dos casos mais notáveis da expansão da língua portuguesa: aqui, do encontro entre colonos europeus e africanos escravizados, formou-se o crioulo cabo-verdiano, o mais antigo crioulo de base portuguesa ainda vivo. O português é a língua oficial; o crioulo é a língua materna de praticamente toda a população.

Um arquipélago povoado de raiz

Ao contrário da maior parte do mundo lusófono, as ilhas de Cabo Verde estavam desabitadas quando os navegadores ao serviço da Coroa portuguesa lá chegaram, por volta de 1460. A primeira povoação, Ribeira Grande de Santiago (hoje Cidade Velha), foi fundada em 1462 e é tida como o mais antigo assentamento europeu permanente nos trópicos. A sua posição entre a Europa, a África e, mais tarde, as Américas fez do arquipélago um entreposto central do comércio atlântico — incluindo o tráfico de pessoas escravizadas.

Geograficamente, as ilhas dividem-se em dois grupos, segundo a sua exposição ao vento alísio: o Barlavento a norte (Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Sal e Boa Vista) e o Sotavento a sul (Maio, Santiago, Fogo e Brava). A capital, Praia, fica em Santiago, a ilha mais populosa. Cabo Verde tornou-se independente de Portugal a 5 de julho de 1975 e é membro fundador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

O crioulo cabo-verdiano

O crioulo cabo-verdiano — em crioulo, kriolu ou kabuverdianu — nasceu nos séculos XV e XVI do contacto entre o português dos colonos e as línguas africanas (sobretudo do grupo mandinga e da Senegâmbia) faladas pelas pessoas trazidas para o arquipélago. O seu léxico provém quase todo do português, mas a fonologia e a gramática foram profundamente reestruturadas: caíram a flexão verbal complexa e a maior parte da concordância, e o tempo, o modo e o aspeto passaram a marcar-se por partículas que antecedem o verbo invariável.

N ta papia kriolu di Santiagu.

«Falo o crioulo de Santiago.» N = eu; ta = partícula de imperfectivo; papia (do port. papear) = falar.

Distinguem-se duas grandes áreas dialetais, correspondentes aos dois grupos de ilhas: as variedades de Sotavento, de que o falar de Santiago (o badiu) é a referência, e as de Barlavento, de que o falar de São Vicente (de Mindelo) é o mais conhecido. As diferenças entre elas são audíveis sobretudo na vogais e em parte do vocabulário.

O mesmo conteúdo em três registos
PortuguêsSotavento (Santiago)Barlavento (São Vicente)
Como estás?*Módi ki bu sta?**Bo ta dret?*
Eu gosto de ti.*N gosta di bo.**N gosta d'bo.*
a língua / a fala*língua*, *fala**língua*, *fala*

Português e crioulo: uma diglossia

A relação entre as duas línguas costuma descrever-se como uma situação de diglossia: cada uma ocupa, tradicionalmente, domínios distintos. O português é a língua da administração, da justiça, do ensino, da imprensa escrita e dos textos oficiais; o crioulo é a língua da casa, da rua, da música e da oralidade quotidiana, partilhada por toda a população independentemente da classe ou da escolaridade.

Esta repartição tem-se atenuado. O crioulo ganhou espaço na rádio, na televisão, na publicidade e na criação literária, e debate-se há décadas a sua eventual oficialização a par do português. A Constituição prevê a criação de condições para essa paridade, mas, na prática, o português mantém o estatuto de única língua oficial e de principal língua de escolarização.

A escrita do crioulo: o ALUPEC

Durante séculos, o crioulo escreveu-se de forma irregular, com base na ortografia portuguesa. Para o dotar de uma grafia coerente, foi desenvolvido o ALUPECAlfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-verdiano —, proposto nos anos 1990 e aprovado oficialmente como sistema de escrita em 2009. De base fonológica, o ALUPEC afasta o crioulo escrito da ortografia etimológica do português: escreve-se k, s e u onde o português usaria c/qu, ç/c e o, por exemplo kaza («casa»), sukre («açúcar»), nbu / nu («nós»).

A sua adoção não é consensual nem generalizada — muitos falantes continuam a grafar o crioulo «à portuguesa» —, mas o ALUPEC fixou pela primeira vez um padrão de referência, sobretudo no ensino e na edição.

Língua, literatura e identidade

A consciência do crioulo como traço identitário foi cultivada pela revista Claridade (fundada em 1936, em Mindelo), em torno de autores como Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes e Jorge Barbosa. Baltasar Lopes, além de romancista (Chiquinho, 1947), foi também linguista: o seu estudo O dialecto crioulo de Cabo Verde (1957) é uma referência fundadora.

Na música, a morna — género melancólico cantado em crioulo, de que Cesária Évora se tornou embaixadora mundial — levou a língua a palcos de todo o mundo e foi inscrita pela UNESCO no Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2019. A morna e a coladeira fazem do crioulo, mais do que um instrumento de comunicação, um símbolo afetivo da nação cabo-verdiana e da sua vasta diáspora, que conta hoje com mais cabo-verdianos fora do arquipélago do que dentro dele.

Fontes

  1. Baltasar Lopes da Silva. O dialecto crioulo de Cabo Verde . Imprensa Nacional de Lisboa (1957)
  2. Manuel Veiga. Introdução à Gramática do Crioulo . Instituto Caboverdiano do Livro (1995)
  3. Marlyse Baptista. The Syntax of Cape Verdean Creole. The Sotavento Varieties . John Benjamins (2002)
  4. Dulce Almada Duarte. Bilinguismo ou Diglossia? . Spleen Edições (1998)