Geografia 地 · 08
Guiné-Bissau
Na Guiné-Bissau o português é língua oficial mas de base materna reduzida; a coesão linguística do país assenta no kriol, crioulo de léxico português falado por quase toda a população.
ptA Guiné-Bissau é, entre os países de língua oficial portuguesa, o caso mais nítido de uma distância entre a língua do Estado e a língua do quotidiano. O português é a única língua oficial e a língua da escola, da administração e da lei; mas a comunicação corrente, no mercado, na rua e em casa, faz-se sobretudo em kriol — o crioulo de léxico português que serve de verdadeira língua franca nacional. O português tem, neste país de cerca de dois milhões de habitantes, uma base de falantes nativos muito limitada.
De colónia a república
A presença portuguesa na costa da chamada Guiné remonta ao século XV, ligada primeiro ao comércio e depois ao tráfico de escravos, com base em feitorias e praças litorais. A ocupação efetiva do interior, porém, só se concretizou já no final do século XIX e início do XX. A então Guiné Portuguesa tornou-se palco de uma longa guerra de libertação conduzida pelo PAIGC de Amílcar Cabral; a independência foi declarada unilateralmente em 1973 e reconhecida por Portugal em 1974. Como em Angola ou Moçambique, o novo Estado herdou o português como língua oficial — uma escolha de unidade nacional num território de grande diversidade étnica e linguística.
O português: oficial, mas de poucos como língua materna
Ao contrário do que sucedeu em Cabo Verde ou mesmo em Angola, a colonização nunca implantou em larga escala o português falado entre a população guineense. Os falantes fluentes de português são hoje uma minoria — segundo várias estimativas, pouco mais de um décimo da população —, concentrada sobretudo em Bissau, na função pública e nos meios escolarizados. Para a grande maioria, o português é uma língua aprendida na escola, com graus de domínio muito variáveis, e raramente a língua do lar. É, ainda assim, a língua da escrita, da imprensa oficial e do acesso ao espaço lusófono mais vasto.
O kriol: a língua de todos
O kriol (ou kriyol, crioulo da Guiné-Bissau) é um crioulo de base lexical portuguesa, formado a partir do contacto entre o português e as línguas africanas da região nos séculos da presença colonial. Pertence ao grupo dos crioulos da Alta Guiné, aparentado com o crioulo cabo-verdiano e com o crioulo de Casamansa (no Senegal). Falado como segunda língua por quase toda a população e como primeira língua por uma parcela crescente — em especial nas cidades —, é o kriol, e não o português, que assegura a comunicação entre guineenses de diferentes etnias.
A sua gramática é tipicamente crioula: pouca flexão, ordem fixa de palavras e marcadores pré-verbais para tempo e aspeto. O léxico é largamente português, embora muitas vezes irreconhecível à primeira vista.
| Português | Kriol | Significado |
|---|---|---|
| casa | kasa | casa |
| menino | mininu | criança |
| falar | papia | falar |
| obrigado | obrigadu | obrigado |
| água | iagu | água |
| ficar | fika | ficar, permanecer |
Nu na papia kriol na kasa, ma na skola i portuges.
«Falamos kriol em casa, mas na escola é português.» O marcador *na* exprime o presente/progressivo; *i* é o verbo «ser».
As línguas africanas
Por baixo do par português–kriol vive um mosaico de línguas africanas, cada uma língua materna de uma comunidade étnica. As principais pertencem às famílias atlântica e mande: o balanta (do maior grupo étnico do país), o fula, o mandinga, o manjaco e o papel, entre outras. São línguas de transmissão sobretudo oral, e é em parte sobre elas que assenta o substrato do próprio kriol.
Kuma di kurpu? — Kurpu sta bon, obrigadu.
«Como está?» (literalmente «Como vai o corpo?») — «Estou bem, obrigado.» Saudação corrente em kriol.
Diglossia e política da língua
A situação guineense é frequentemente descrita como uma diglossia (ou mesmo triglossia): o português ocupa as funções altas e escritas, o kriol as funções de comunicação geral, e as línguas étnicas o domínio doméstico e comunitário. Esta configuração coloca à escola um problema antigo — alfabetizar em português crianças que chegam falando kriol ou uma língua africana — e alimenta um debate recorrente sobre o papel que o kriol deveria ter no ensino.
Uma língua oficial em construção
Membro fundador da CPLP (1996), a Guiné-Bissau mantém o português como elo com o resto do mundo lusófono e como língua do Estado. O seu futuro no país depende menos da herança colonial do que da escola e dos meios de comunicação — e da articulação, ainda em aberto, entre uma língua oficial de poucos falantes nativos e um kriol que é, de facto, a língua nacional.
Fontes
- O crioulo português da Guiné-Bissau . Helmut Buske Verlag (1994)
- Gramática e Dicionário da Língua Criol da Guiné-Bissau . Editora FASPEBI (1981)
- Dictionnaire étymologique des créoles portugais d'Afrique . Karthala (2004)