Geografia 地 · 09

São Tomé e Príncipe

O arquipélago do Golfo da Guiné onde o português convive com três crioulos de base portuguesa — o forro, o angolar e o lung'Ie — nascidos da primeira sociedade de plantação atlântica.

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São Tomé e Príncipe é um pequeno arquipélago do Golfo da Guiné, ao largo da costa ocidental de África, e o segundo mais pequeno Estado da CPLP. A sua importância para a história da língua portuguesa é, porém, desproporcionada ao tamanho: foi aqui que se formaram, no início do século XVI, alguns dos primeiros crioulos de base portuguesa do mundo. Hoje, o português é a única língua oficial e a língua materna ou veicular de quase toda a população, mas convive com três crioulos autóctones — o forro, o angolar e o lung’Ie (principense).

Ilhas vazias, sociedade de plantação

Ao contrário de quase todos os territórios de língua portuguesa, as ilhas eram desabitadas quando os navegadores portugueses lá chegaram, por volta de 1470. O povoamento efetivo de São Tomé começou em 1493, e a ilha tornou-se rapidamente o primeiro grande laboratório atlântico da economia de plantação açucareira, movida por mão de obra escravizada trazida sobretudo do delta do Níger e da região do Congo e de Angola.

Foi deste encontro abrupto — colonos portugueses, escravizados de origens linguísticas muito diversas, e a necessidade imediata de uma língua comum — que nasceu um proto-crioulo no decurso do século XVI. Dele descende toda a família de crioulos do Golfo da Guiné.

Os crioulos do Golfo da Guiné

Os quatro crioulos desta família partilham uma mesma matriz e formam um conjunto geneticamente coeso, embora hoje não sejam todos mutuamente inteligíveis:

Os crioulos de base portuguesa do Golfo da Guiné
CriouloOndeFalantes
Forro (*santome*)ilha de São Toméo mais falado
Angolar (*ngola*)sul de São Tomécomunidade dos angolares
Lung'Ieilha do Príncipemuito ameaçado
Fa d'AmbôAno Bom (Guiné Equatorial)fora do arquipélago

O forro, ou santome, é o crioulo de maior expressão. O seu nome vem de forro (do árabe, através do português carta de forria, “alforria”), porque era a língua dos escravizados libertos e dos seus descendentes. O angolar é falado pela comunidade dos angolares, no sul da ilha de São Tomé, tradicionalmente associada a escravizados fugidos; distingue-se por uma camada de vocabulário banto (kimbundu) particularmente densa. O lung’Ie — literalmente “língua da ilha” — é o crioulo do Príncipe, hoje em forte regressão e classificado como ameaçado.

O que herdaram do português e das línguas africanas

O vocabulário básico destes crioulos é, na sua maior parte, patrimonial português — muitas vezes conservando formas do português quinhentista. Mas a estrutura gramatical afastou-se profundamente do modelo europeu: marca-se o tempo, o aspeto e o modo por meio de partículas preverbais em vez de desinências, e a nasalidade e os substratos de línguas como o edo (do delta do Níger) e o kikongo e kimbundu deixaram marcas audíveis.

forro: «Bô sa fla ku mu.»

«Estás a falar comigo.» O pronome bô («tu») vem de vós; sa é a partícula de aspeto progressivo; fla é falar; ku mu, «comigo».

A relação com o português é, ainda assim, de proximidade lexical reconhecível: um falante de português identifica muitas palavras, mesmo sem compreender a frase.

O português são-tomense

A par dos crioulos, desenvolveu-se uma variedade própria de português europeu — o português de São Tomé e Príncipe —, hoje língua materna de uma parte crescente da população, sobretudo urbana e jovem. Resulta da convivência secular com os crioulos e apresenta traços fonéticos, lexicais e sintáticos distintivos, partilhando algumas tendências com outras variedades africanas do português.

A independência, em 1975, consolidou o português como língua do Estado, da escola e da comunicação social. Segundo o recenseamento de 2012, é falado por cerca de 98% da população — uma das taxas mais altas de todo o espaço lusófono.

Um mosaico ainda mais amplo

Ao quadro autóctone juntou-se, no século XX, o crioulo cabo-verdiano, trazido pelos milhares de trabalhadores contratados nas roças de cacau e café — um dos vários crioulos de base portuguesa que hoje se ouvem nas ilhas. O resultado é um dos ecossistemas linguísticos mais densos da lusofonia: num território diminuto, o português oficial sobrepõe-se a um arquipélago de crioulos irmãos, todos eles filhos, em última análise, da mesma língua.

Fontes

  1. Tjerk Hagemeijer. The Gulf of Guinea Creoles: Genetic and Typological Relations . Journal of Pidgin and Creole Languages 26(1) (2011)
  2. Philippe Maurer. Principense (Lung'Ie): Grammar, Texts, and Vocabulary of the Afro-Portuguese Creole of the Island of Príncipe . Battlebridge (2009)
  3. Gerardo A. Lorenzino. The Angolar Creole Portuguese of São Tomé: Its Grammar and Sociolinguistic History . LINCOM Europa (1998)