Geografia 地 · 10

Timor-Leste

O único território asiático onde o português é língua oficial, ao lado do tétum. Banido durante a ocupação indonésia, foi reintroduzido como língua da identidade após 1999.

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Timor-Leste é o único Estado da Ásia em que o português é língua oficial. A Constituição de 2002 fixa-o como língua co-oficial a par do tétum, a língua austronésia que serve de veículo comum à maioria da população. O caso timorense é singular na lusofonia: aqui o português não é língua materna de quase ninguém, mas foi adotado como símbolo de identidade e de soberania, após décadas em que esteve proibido.

Quatro séculos de presença

O contacto português com a ilha de Timor remonta ao início do século XVI, por via do comércio do sândalo; a presença missionária dominicana consolida-se a partir de meados do século. Diferentemente de outros domínios, a colonização foi tardia e de baixa densidade, e o português nunca se generalizou como língua falada: manteve-se sobretudo como língua da administração, da Igreja e de uma elite letrada. A evangelização católica deixaria, porém, uma marca duradoura — é a religião da esmagadora maioria dos timorenses e um dos principais canais históricos da língua.

A retirada portuguesa em 1975, na sequência da Revolução dos Cravos, foi seguida quase de imediato pela invasão indonésia de dezembro desse ano. Seguiram-se 24 anos de ocupação.

A proibição e a língua da resistência

Durante a ocupação (1975–1999), Jacarta impôs o indonésio (bahasa Indonesia) como única língua de ensino e administração, e proibiu o português. Foi precisamente essa interdição que transformou a língua num emblema. A resistência armada e clandestina — a FRETILIN, as FALINTIL, a Igreja — adotou o português como língua de comunicação interna, de documentos e de apelos ao exterior, ininteligível para o ocupante e ligada à memória de um Timor distinto da Indonésia. Uma geração inteira de quadros da resistência manteve assim viva uma língua que a escola já não ensinava.

A reintrodução depois de 1999

O referendo de 30 de agosto de 1999, em que os timorenses votaram esmagadoramente pela independência, abriu caminho à administração transitória das Nações Unidas (UNTAET) e, a 20 de maio de 2002, à restauração da independência. Os dirigentes saídos da resistência consagraram o português como língua oficial — uma opção tanto identitária como geoestratégica, que distinguia o novo país do gigante indonésio e o ligava à CPLP, de que Timor-Leste é membro de pleno direito desde 2002.

A decisão foi e continua a ser debatida. A geração escolarizada sob a ocupação domina o indonésio, não o português; os mais novos aprendem-no na escola, com apoio de Portugal e do Brasil, mas o seu uso corrente permanece limitado. O inglês e o indonésio circulam como línguas de trabalho, reconhecidas pela Constituição enquanto perdurar a sua necessidade.

O tétum e a marca portuguesa

O tétum não é um crioulo de base portuguesa, mas a sua variedade urbana — o tétum-praça ou tétum-Díli, falado na capital e hoje generalizado como língua franca — está profundamente impregnada de português. Séculos de contacto deixaram um vasto vocabulário de empréstimo, e os números altos, as horas e os termos abstratos recorrem em larga medida ao português. A normalização ortográfica do tétum, fixada pelo Instituto Nacional de Linguística em 2004, adota convenções próximas das portuguesas.

Empréstimos portugueses no tétum-praça
TétumOrigem portuguesaSignificado
*obrigadu / obrigada**obrigado / obrigada*obrigado
*eskola**escola*escola
*tempu**tempo*tempo
*povu**povo*povo
*dezenvolvimentu**desenvolvimento*desenvolvimento
*lia-portugés**(língua) português*língua portuguesa

Os falantes alternam frequentemente entre tétum e português numa mesma frase, sobretudo em contextos formais, religiosos e administrativos.

Ita-boot diak ka lae? — Obrigadu, hau diak.

«Como está? — Obrigado, estou bem.» O cumprimento é tétum; obrigadu é o português obrigado, integrado na língua.

Um futuro em construção

O português timorense está, em rigor, a formar-se. Ensinado sobretudo por professores portugueses e brasileiros, e aprendido por falantes cuja primeira língua é o tétum, tende a apresentar traços próprios na pronúncia e no léxico. O seu peso real continua modesto em número de falantes fluentes, mas crescente entre as gerações escolarizadas após a independência. Mais do que uma herança colonial intacta, Timor-Leste oferece o caso raro de uma língua reimplantada por escolha política — uma aposta cujo desfecho ainda se decide.

Fontes

  1. Catharina Williams-van Klinken, John Hajek & Rachel Nordlinger. Tetun Dili: A Grammar of an East Timorese Language . Pacific Linguistics (2002)
  2. Geoffrey Hull. The Languages of East Timor: Some Basic Facts . Instituto Nacional de Linguística, Universidade Nacional Timor Lorosa'e (2002)
  3. Kathryn Taylor-Leech. The Language Situation in Timor-Leste . Current Issues in Language Planning, 10(1) (2009)