Geografia 地 · 11
Macau e a Ásia
O português na Ásia — de Goa, Damão e Diu ao enclave de Macau —, os crioulos que aí nasceram e o legado lexical de cinco séculos de presença oriental.
ptA presença do português na Ásia é a mais antiga fora da Europa e, ao mesmo tempo, a que menos falantes deixou. Iniciada com a chegada de Vasco da Gama a Calecute em 1498, espalhou-se por uma rede de entrepostos costeiros — não por colónias de povoamento — que se estendia de Ormuz ao Japão. Dessa malta de feitorias, fortalezas e cidades-porto restam hoje sobretudo vestígios: um enclave, alguns crioulos em extinção e um punhado de palavras que o português absorveu e devolveu ao mundo.
O Estado da Índia: Goa, Damão e Diu
O eixo do império asiático foi o Estado da Índia, cuja capital, Goa, foi tomada por Afonso de Albuquerque em 1510. A par de Damão e Diu, no Guzerate, Goa permaneceu portuguesa até dezembro de 1961, quando a União Indiana a anexou pela força (a Operação Vijay), pondo fim a quatro séculos e meio de domínio.
O português foi aí língua da administração, da Igreja e da elite, mas nunca substituiu o concani, língua materna da maioria goesa. Com a anexação e a geração que se seguiu, o seu uso recuou drasticamente; sobrevive hoje em apelidos, topónimos, no léxico religioso e numa minoria idosa. A herança mais durável é outra: a comunidade católica goesa e a sua cultura, que o português ajudou a moldar.
Macau: a porta da China
Por volta de 1557, mercadores portugueses obtiveram autorização para se fixarem numa península do delta do Rio das Pérolas — Macau —, que se tornaria o grande entreposto entre a China, o Japão e a Europa. Ao contrário de Goa, Macau nunca foi conquistada: nasceu de um arranjo comercial tolerado pelo poder chinês, e essa ambiguidade marcou toda a sua história.
A administração portuguesa só terminou em 20 de dezembro de 1999, com a transferência de soberania para a República Popular da China. Macau é hoje uma Região Administrativa Especial em que o português conserva o estatuto de língua co-oficial, ao lado do chinês, sobretudo na justiça e na administração — um caso raro de oficialidade que sobrevive à própria população falante, já que o português é língua materna de uma fração ínfima dos residentes.
Os entrepostos: uma rede, não um território
| Entreposto | Período português | Crioulo associado |
|---|---|---|
| Goa, Damão, Diu | 1510–1961 | indo-português de Goa |
| Malaca | 1511–1641 | papiá kristang |
| Ceilão (Colombo) | 1518–1658 | indo-português do Ceilão |
| Bombaim | 1534–1661 | — (cedida a Inglaterra) |
| Macau | 1557–1999 | patuá |
Bombaim ilustra bem a natureza desta presença: a cidade foi cedida à Coroa inglesa em 1661, como parte do dote de Catarina de Bragança, e tornar-se-ia Bombay (Mumbai). O próprio topónimo inglês guarda a origem portuguesa Bom Baim.
Os crioulos de base portuguesa
O contacto prolongado entre marinheiros, mercadores e populações locais fez nascer, em quase todos os entrepostos, crioulos de base portuguesa — línguas novas, de léxico maioritariamente português e gramática reestruturada. Hoje quase todos estão extintos ou em vias disso.
- O patuá de Macau (maquista, patois macaense) combina português antigo com malaio, cantonês e cingalês; está classificado como gravemente ameaçado, com poucas centenas de falantes idosos. A sua principal voz literária foi José dos Santos Ferreira («Adé», 1919–1993).
- O papiá kristang de Malaca, levado também a Singapura pela comunidade cristã, é o crioulo asiático mais vivo, embora também em declínio.
- Subsistem ainda traços do indo-português do Ceilão, ligado aos Burghers.
*kristang* < cristão · *patuá* < (fala) *patois*
Os próprios nomes dos crioulos denunciam a sua matriz: a fé cristã e a noção de fala «de remendos».
O legado lexical
Mais influente do que o número de falantes foi o papel do português como intermediário lexical entre a Ásia e a Europa. Foi pela rota portuguesa que muitas palavras orientais entraram nas línguas europeias — mandarim, pagode, bambu — e que o próprio português enriqueceu o seu vocabulário.
*chá* < cantonês 茶 *chàh* · *biombo* < jap. *byōbu* 屏風 · *catana* < jap. *katana*
O português é uma das raras línguas europeias a dizer chá (e não «tea/té»), justamente por ter recebido a palavra via Macau, e não via Java.
A palavra chá [ʃɐ] é o exemplo mais célebre: enquanto a maior parte da Europa adotou formas do tipo tea, thé, Tee (do min meridional, via comércio holandês), o português tomou a forma cantonesa cha pela porta de Macau.
O português asiático hoje
Reduzido em número, o português da Ásia mantém um peso simbólico e institucional desproporcionado. Macau acolhe o ensino do português e serve de ponte entre a China e os países lusófonos; em Goa subsiste o interesse pela língua como chave do arquivo histórico e da identidade católica; e os crioulos sobreviventes são objeto de crescente esforço de documentação. É um legado feito menos de demografia do que de memória, direito e palavras.
Fontes
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- A Língua Portuguesa no Mundo . ICALP (1990)
- The Cambridge History of the Romance Languages . Cambridge University Press (2013)