Geografia 地 · 12

A diáspora portuguesa

As comunidades emigrantes espalhadas por França, Estados Unidos, Luxemburgo, Venezuela, África do Sul e tantos outros países, e o destino da língua portuguesa fora das suas fronteiras de origem.

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Poucos países europeus terão exportado tanta gente, em proporção da sua população, como Portugal. A diáspora — o conjunto das comunidades de origem portuguesa dispersas pelo mundo — estima-se hoje em vários milhões de pessoas, contando emigrantes e luso-descendentes. Para a história da língua, importa não apenas para onde foram, mas o que fizeram ao português: mantiveram-no, transformaram-no e, ao regressar, devolveram-no marcado pelo contacto com outras línguas.

As grandes vagas

A emigração portuguesa organiza-se em ciclos distintos. O primeiro, transatlântico, durou todo o século XIX e as primeiras décadas do XX, e teve por destino esmagador o Brasil, então independente mas linguisticamente irmão. Açorianos e madeirenses seguiram também para os Estados Unidos e para o Havai, e milhares de madeirenses foram contratados para a Guiana e as Caraíbas.

O segundo ciclo, europeu e continental, concentrou-se entre os anos 1950 e a crise petrolífera de 1973–74. Fugindo da pobreza rural e da Guerra Colonial, mais de um milhão de portugueses partiu — muitos a salto, isto é, clandestinamente — sobretudo para França, mas também para a Alemanha, o Luxemburgo e a Suíça. Em paralelo, correntes menores rumaram à Venezuela, à África do Sul, ao Canadá e à Austrália.

Um terceiro ciclo, mais qualificado e mais disperso, abriu-se com a adesão à Comunidade Europeia (1986) e intensificou-se com a crise económica de 2008–2014, levando jovens diplomados para o Reino Unido, a Suíça, Angola e novamente o Luxemburgo.

Os principais destinos

PaísPeríodo de augeOrigem predominante
França1960–1974Continente (norte e centro)
Estados Unidosséc. XIX e 1960–80Açores, Madeira
Luxemburgo1970–presenteContinente, Madeira
Venezuela1950–1970Madeira
África do Sul1960–1980Madeira, continente
Canadá1953–1980Açores, continente

França acolhe a maior comunidade — várias centenas de milhar de nacionais e mais de um milhão de luso-descendentes, concentrados na região de Paris. O Luxemburgo é o caso mais singular: os portugueses constituem aí cerca de um sexto da população total, a maior comunidade estrangeira do país. Nos Estados Unidos, o povoamento açoriano fixou-se na Nova Inglaterra (Massachusetts, Rhode Island) e na Califórnia, e o madeirense no Ironbound de Newark. A Venezuela e a África do Sul receberam sobretudo madeirenses, que aí se notabilizaram no comércio e na restauração.

A língua na diáspora

Longe de Portugal, o português entrou em contacto prolongado com o francês, o inglês, o espanhol e diversas línguas africanas, e os resultados variam com a geração. A primeira geração conserva o português como língua materna, mas incorpora empréstimos adaptados à fonologia e à morfologia portuguesas. A segunda e terceira gerações tornam-se frequentemente falantes de herança: compreendem mais do que falam, e o domínio ativo da língua tende a esbater-se.

Nos Estados Unidos: *marqueta* (< market), *grosaria* (< grocery store), *bos* (< bus). Em França: *o chômage* (desemprego), *a reforma* lado a lado com *a retraite*.

Empréstimos típicos da fala emigrante, integrados na gramática portuguesa: recebem artigo, género e flexão como qualquer palavra patrimonial.

Esta fala híbrida — por vezes chamada, com ironia, português dos emigrantes — não é corrupção mas adaptação: um sistema que pede emprestado à língua dominante os termos da vida nova (trabalho, administração, objetos) e os molda às suas regras.

O ensino do português no estrangeiro

A manutenção da língua entre os luso-descendentes depende em larga medida do ensino formal. O Estado português sustenta uma rede de Ensino de Português no Estrangeiro (EPE), hoje coordenada pelo Instituto Camões, com cursos em escolas e associações de dezenas de países. A par disto, a vasta rede de associações, ranchos folclóricos, clubes desportivos e missões católicas funcionou durante décadas como guardiã informal da língua e da identidade.

O regresso e a marca na língua

A emigração não foi sempre definitiva. Muitos regressaram — sobretudo após 1974 — e trouxeram consigo hábitos linguísticos do país de acolhimento. Em certas regiões do norte e do centro de Portugal, o falar dos retornados de França tornou-se quase um estereótipo, com o seu uso do galicismo avec e de outras importações.

Legado

A diáspora fez do português uma presença discreta mas tenaz em dezenas de países onde não é língua oficial. Manteve viva uma rede afetiva e cultural que liga aldeias do interior a subúrbios de Paris, do Luxemburgo ou de Toronto, e alimentou na própria literatura e no imaginário nacional o tema antigo da partida — a saudade de quem fica e de quem vai. Eduardo Lourenço viu nesta dispersão um traço estruturante da identidade portuguesa: uma nação habituada, desde os Descobrimentos, a pensar-se para além das suas fronteiras.

Fontes

  1. Caroline B. Brettell. Men Who Migrate, Women Who Wait: Population and History in a Portuguese Parish . Princeton University Press (1986)
  2. Rui Pena Pires et al.. Emigração Portuguesa. Relatório Estatístico . Observatório da Emigração (2020)
  3. Eduardo Lourenço. A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia . Gradiva (1999)