Cultura 風 · 05

O Instituto Camões e a difusão da língua

O instrumento da diplomacia cultural portuguesa: como o Camões, I.P. promove a língua e a cultura no mundo, através de leitorados, centros, ensino no estrangeiro e certificação.

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O Instituto Camões é o organismo do Estado português encarregado de promover a língua e a cultura portuguesas fora de Portugal. É, na prática, o braço da diplomacia cultural do país — o equivalente português do British Council britânico, do Goethe-Institut alemão, da Alliance Française ou do Instituto Cervantes espanhol. Toma o nome de Luís de Camões, autor de Os Lusíadas, cujo dia da morte, 10 de junho, é o Dia de Portugal.

De um instituto a outro

A vocação para uma rede pública de difusão linguística é antiga, mas a sua forma atual consolidou-se em etapas. Em 1976, no pós-25 de Abril, criou-se o Instituto de Cultura Portuguesa, reorganizado em 1980 como Instituto de Cultura e Língua Portuguesa (ICALP). O Instituto Camões propriamente dito nasceu em 1992, sob a tutela do Ministério dos Negócios Estrangeiros, herdando e alargando essa missão.

A mudança mais profunda deu-se em 2012: o Instituto Camões fundiu-se com o Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento (IPAD), passando a chamar-se Camões — Instituto da Cooperação e da Língua, I.P. (correntemente, Camões, I.P.). A fusão juntou num só organismo duas vertentes da ação externa portuguesa: a promoção da língua e a cooperação para o desenvolvimento, sobretudo com os países africanos de língua oficial portuguesa e Timor-Leste.

Uma rede no mundo

O trabalho do Camões assenta numa rede de presença em dezenas de países, articulada com a rede diplomática. Os seus instrumentos principais são:

  • Leitorados — docentes de português colocados em universidades estrangeiras, para ensino e investigação;
  • Centros de Língua Portuguesa e Centros Culturais Portugueses — pontos de apoio ao ensino, à formação de professores e à programação cultural;
  • Cátedras — protocolos com universidades para fixar, a longo prazo, o estudo da língua, da cultura e da história portuguesas;
  • Ensino Português no Estrangeiro (EPE) — cursos para os filhos das comunidades emigrantes, de modo que a língua de família não se perca entre gerações.

leitor · leitorado · Centro de Língua Portuguesa · cátedra · Ensino Português no Estrangeiro

O vocabulário da rede: o «leitor» é o docente; o «leitorado» é o posto; a «cátedra» é o protocolo universitário.

Certificar a língua: o exame CAPLE

Promover uma língua implica também avaliá-la e dar valor formal ao seu conhecimento. Para isso existe o sistema de exames CAPLE (Centro de Avaliação de Português Língua Estrangeira), da Universidade de Lisboa, reconhecido pelo Camões e alinhado com os níveis do Quadro Europeu Comum de Referência (QECR).

ExameSignificadoNível QECR
CIPLECertificado Inicial de PLEA2
DEPLEDiploma Elementar de PLEB1
DIPLEDiploma Intermédio de PLEB2
DAPLEDiploma Avançado de PLEC1
DUPLEDiploma Universitário de PLEC2

Estes diplomas certificam o português como língua estrangeira (PLE) para fins académicos, profissionais e, em certos casos, de cidadania.

Diplomacia da língua

A difusão linguística é hoje entendida como uma forma de poder brando (soft power): a capacidade de um país influenciar pela atração da sua cultura, e não pela força. Uma língua com presença escolar, científica e mediática internacional gera valor económico, abre mercados e cria afinidades duradouras. Estudos sobre o potencial económico do português estimam que a língua representa uma fração significativa do produto dos países que a têm por oficial — argumento recorrente para justificar o investimento público na sua promoção.

Neste plano, o Camões coordena-se com outras iniciativas de visibilidade da língua, como o Dia Mundial da Língua Portuguesa, celebrado a 5 de maio e proclamado pela UNESCO em 2019.

Camões e a CPLP: dois planos

Importa não confundir o Camões com as estruturas multilaterais da lusofonia. O Camões é um organismo do Estado português e serve, antes de tudo, a política externa de Portugal. A promoção conjunta da língua pelos vários países de língua portuguesa cabe a outras instâncias.

Tensões e debates

A ação do Camões não está isenta de crítica. Discute-se a adequação do financiamento à dimensão da rede, o peso relativo dado à cooperação face à promoção cultural, e o risco de uma visão demasiado lisboa-cêntrica da lusofonia, que nem sempre reflete o protagonismo demográfico do Brasil — onde vive a esmagadora maioria dos falantes — nem o crescimento do português em África.

Apesar destas tensões, o Camões permanece o principal instrumento institucional através do qual Portugal projeta a sua língua no mundo — uma língua que, somadas todas as variedades, conta entre as mais faladas do planeta.

Fontes

  1. Luís Reto (coord.). Potencial Económico da Língua Portuguesa . Texto Editores (2012)
  2. Luís Reto, Fernando Luís Machado & José Paulo Esperança. Novo Atlas da Língua Portuguesa . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2016)
  3. Fernando Cristóvão (coord.). Dicionário Temático da Lusofonia . Texto Editores (2005)