Variantes 異 · 13
Crioulos da Guiné e de São Tomé e Príncipe
Quatro crioulos de base portuguesa — o kriol da Guiné-Bissau e o forro, o angolar e o principense de São Tomé e Príncipe —, línguas autónomas nascidas do contacto colonial atlântico.
ptPara lá de Cabo Verde, o português deixou na África ocidental insular e continental outro conjunto de crioulos de base lexical portuguesa: o kriol da Guiné-Bissau e os quatro crioulos do Golfo da Guiné, dos quais três — o forro, o angolar e o principense — se falam em São Tomé e Príncipe. São línguas autónomas, com gramática e fonologia próprias, e não dialetos do português, ainda que dele tirem a maior parte do vocabulário.
Dois grupos, duas histórias
Embora todos remontem ao contacto com o português dos séculos XV e XVI, estes crioulos não formam uma família única. Pertencem a dois grupos genéticos distintos, surgidos em pontos diferentes do litoral atlântico:
- o grupo do Alto-Guiné, que reúne o crioulo cabo-verdiano e o kriol da Guiné-Bissau (com a variedade de Casamansa, no sul do Senegal). Estes dois descendem de um mesmo proto-crioulo formado em torno dos antigos entrepostos comerciais da costa e do arquipélago de Cabo Verde;
- o grupo do Golfo da Guiné, formado nas ilhas de São Tomé, Príncipe e Ano Bom a partir de finais do século XV, e que deu origem ao forro, ao angolar, ao principense e ao fa d’ambô (este último na ilha de Ano Bom, hoje da Guiné Equatorial).
Os substratos diferem em conformidade: no Alto-Guiné predominam línguas atlânticas e mandê (mandinga, balanta, fula, papel); no Golfo da Guiné, línguas kwa e edo do delta do Níger e línguas banta (sobretudo o quicongo e o quimbundo).
O kriol da Guiné-Bissau
O kriol (também kiriol, guineense) é a verdadeira língua veicular da Guiné-Bissau. Embora o português seja a única língua oficial, é o kriol — e não ele — que serve de língua franca entre as dezenas de comunidades etnolinguísticas do país, e o número dos seus falantes, somando primeira e segunda língua, cresce de forma continuada. É língua materna sobretudo nos centros urbanos, como Bissau e Bolama.
O seu vocabulário é maioritariamente português, mas a estrutura é de crioulo. Os pronomes são curtos e invariáveis, e o tempo, o modo e o aspeto exprimem-se por partículas antepostas ao verbo, não por desinências: ta para o habitual, na para o progressivo, e o sufixo -ba para o anterior. A negação faz-se com ka antes do verbo.
N ka sibi. · I ta papia kriol. · No na bai.
Não sei. · Ele/ela fala kriol. · Vamos / estamos a ir. (N «eu», i «ele», no «nós»; ka negação, ta habitual, na progressivo)
Os crioulos do Golfo da Guiné
Em São Tomé e Príncipe convivem três crioulos do mesmo tronco, mas já não mutuamente inteligíveis sem esforço:
- o forro (autodesignado lungwa santome, «língua de São Tomé»), de longe o mais falado, língua dos forros — os descendentes dos antigos escravos alforriados — e principal crioulo da ilha de São Tomé;
- o angolar (lunga ngola), falado pela comunidade dos angolares, no sul da ilha de São Tomé, tradicionalmente descendentes de escravos fugidos; distingue-se por um substrato banto mais carregado;
- o principense ou lung’ie («língua da ilha»), próprio da ilha do Príncipe, hoje gravemente ameaçado, com poucas centenas de falantes, quase todos idosos.
| Crioulo | Onde se fala | Grupo genético |
|---|---|---|
| Kriol | Guiné-Bissau (e Casamansa) | Alto-Guiné |
| Forro (santome) | ilha de São Tomé | Golfo da Guiné |
| Angolar | sul de São Tomé | Golfo da Guiné |
| Principense (lung'ie) | ilha do Príncipe | Golfo da Guiné |
O parentesco com o português transparece de imediato no léxico, ainda que muito transformado pela fonologia do crioulo: o forro ke «casa» vem de casa, plemã «primeiro» de primeiro, ngê «gente, pessoa» de gente. Há também numerosas palavras de origem africana, sobretudo nos domínios da agricultura, da fauna e da vida religiosa.
Traços partilhados de crioulo
Apesar das suas histórias distintas, todos estes crioulos exibem a gramática analítica típica das línguas crioulas: ausência de flexão verbal de pessoa, sistemas de tempo-modo-aspeto por partículas, marcação do plural por pronome ou partícula (e não por -s), e ordem de palavras predominantemente sujeito-verbo- objeto. As vogais nasais do português conservaram-se, e o sistema vocálico do forro e do principense é, em geral, mais simples do que o do português europeu.
Vitalidade e ameaça
As situações são contrastantes. O kriol da Guiné-Bissau goza de grande vitalidade e expande-se. O forro mantém um número apreciável de falantes, embora a sua transmissão às novas gerações enfraqueça perante o português. O angolar resiste numa comunidade pequena, e o principense encontra-se entre as línguas mais ameaçadas do mundo lusófono, objeto de esforços de revitalização. Em São Tomé e Príncipe, como na Guiné-Bissau, o português ganha terreno como língua materna urbana, num movimento de descrioulização que aproxima a fala destes crioulos da norma europeia sem os fazer desaparecer.
Fontes
- Kriyol Syntax: The Portuguese-Based Creole Language of Guinea-Bissau . John Benjamins (1994)
- The Creole of São Tomé . Witwatersrand University Press (1979)
- The Gulf of Guinea Creoles: Genetic and Typological Relations . Journal of Pidgin and Creole Languages (2011)
- O crioulo português da Guiné-Bissau . Helmut Buske Verlag (1994)