Variantes 異 · 12
Crioulo cabo-verdiano
O kriolu de Cabo Verde, o mais falado dos crioulos de base portuguesa: um milhão de falantes, raízes no século XV e uma gramática própria nascida do encontro entre o português e as línguas da África Ocidental.
ptO crioulo cabo-verdiano — em autodesignação, kriolu ou kabuverdianu — é a língua materna de praticamente toda a população de Cabo Verde e de uma vasta diáspora espalhada por Portugal, pelos Estados Unidos, pelos Países Baixos e por outros destinos. Com bem mais de um milhão de falantes, é o mais falado de todos os crioulos de base portuguesa e um dos crioulos mais antigos do mundo ainda em uso. Não é português «mal falado» nem um dialeto do português: é uma língua autónoma, com fonologia, gramática e léxico próprios, ainda que o seu vocabulário provenha esmagadoramente do português.
Um crioulo nascido no Atlântico
Cabo Verde estava desabitado quando os navegadores portugueses chegaram ao arquipélago por volta de 1460. O povoamento da ilha de Santiago, a partir de 1462, juntou colonos portugueses e cativos trazidos da costa da Guiné — falantes de línguas como o mandinga, o uolofe e o temne. Do contacto prolongado entre o português quinhentista (a língua-teto, ou lexificadora) e essas línguas africanas (o substrato) formou-se rapidamente uma nova língua de comunicação, que se nativizou ao longo das gerações seguintes.
Por ter surgido tão cedo, o cabo-verdiano é frequentemente apontado como o crioulo de base portuguesa mais antigo de que há memória contínua, e serviu de modelo para compreender como nasce uma língua crioula.
Sotavento e Barlavento
O arquipélago divide-se, também linguisticamente, em dois grupos de ilhas. As variedades de Sotavento (Santiago, Fogo, Brava, Maio) tendem a conservar as vogais finais átonas e são, em geral, tidas como mais conservadoras; as de Barlavento (São Vicente, Santo Antão, São Nicolau, Sal, Boa Vista) reduzem ou suprimem essas vogais e apresentam outras inovações. O badiu de Santiago, por ser a fala da ilha mais populosa e da capital, funciona como variedade de referência.
| Português | Sotavento (Santiago) | Barlavento (S. Vicente) |
|---|---|---|
| *filho* | *fidju* | *fdj* / *fy* |
| *olho* | *odju* | *ej* |
| *menino* | *mininu* | *mnin* |
| *dinheiro* | *dinheru* | *denher* |
| *homem* | *ómi* | *óm* |
A palatalização de -lh- latino-português em -dj- (filho → fidju) e a queda de vogais átonas em Barlavento (menino → mnin) estão entre os traços que distinguem de imediato os dois grupos.
Como funciona a gramática
A morfologia do cabo-verdiano é muito diferente da portuguesa. O verbo é, na prática, invariável: não se conjuga em pessoa nem em número, e o tempo, o modo e o aspeto exprimem-se sobretudo por partículas pré-verbais e por um sufixo de anterioridade -ba.
- ta marca o presente habitual ou o futuro;
- sta (ou sata) marca o progressivo, «estar a fazer»;
- a forma nua do verbo dinâmico vale como passado pontual;
- o sufixo -ba marca o passado/anterior.
N ta kume. · N sta ta kume. · N kume. · N kumeba.
Como/costumo comer. · Estou a comer. · Comi. · Tinha comido.
Os pronomes pessoais também são próprios: N (eu), bu/bo (tu), e/el (ele/ela), nu (nós), nhos (vós/vocês), es (eles/elas). Note-se a forma de cortesia nhos, do português vós, e o sujeito N [n̩] , reduzido a uma única consoante nasal silábica.
Kuze ki bu sta fazi? — N ka sabe.
[ˈkuze ki bu sta faˈzi · n̩ ka ˈsabe]
Que estás a fazer? — Não sei.
A negação faz-se com ka anteposto (N ka sabe, «não sei»), e a posse com di (kaza di nha mai, «a casa da minha mãe»). Nada disto decorre da gramática portuguesa: são soluções recombinadas a partir de material português segundo princípios novos.
Um léxico português, uma língua nova
Calcula-se que a quase totalidade do vocabulário cabo-verdiano tenha origem portuguesa, frequentemente do português dos séculos XV e XVI. Mas a evolução fonética e semântica afastou muitas palavras do seu étimo: txeu «muito» vem de cheio; odja «ver» vem de olhar; labanta «levantar(-se)». Sobre esta base assentam empréstimos das línguas africanas, sobretudo no campo lexical da vida quotidiana, da culinária e da música — como na morna e na funaná, géneros cantados em kriolu que levaram a língua ao mundo.
Escrita e estatuto
Durante séculos o cabo-verdiano foi uma língua essencialmente oral. Para a fixar por escrito foi proposto o ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita da Língua Cabo-verdiana), aprovado em 1998 e institucionalizado em 2009 como sistema de referência. A grafia é largamente fonológica — daí kaza, kriolu, fazi —, ao contrário da ortografia etimológica do português.
Cabo Verde vive uma situação de diglossia: o português é a única língua oficial, da administração, da escola e da escrita formal, enquanto o kriolu é a língua do quotidiano, do afeto e da oralidade. A sua oficialização, «em paridade com o português», está prevista na Constituição como objetivo a concretizar, e é tema de debate público continuado.
Por que importa
O cabo-verdiano é, ao mesmo tempo, um símbolo identitário nacional, um caso central nos estudos de crioulística e a face mais vital do legado linguístico português no Atlântico. Estudá-lo é ver, num único idioma vivo, como o português se transformou no encontro com outros povos — e como dele pode brotar algo de inteiramente novo.
Fontes
- The Syntax of Cape Verdean Creole. The Sotavento Varieties . John Benjamins (2002)
- Introdução à Gramática do Crioulo . Instituto Caboverdiano do Livro e do Disco (1995)
- Grammaire de la langue cap-verdienne . L'Harmattan (2000)
- Crioulos de Base Portuguesa . Caminho (2006)