Léxico 語 · 12

Saudade

A palavra portuguesa mais célebre e mais mitificada — a sua etimologia, o que designa, a gramática que a rege e a longa história da ideia de que seria intraduzível.

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A saudade [sɐwˈðaðɨ] é, provavelmente, a palavra portuguesa que mais tinta fez correr fora da linguística. Designa um sentimento misto — a presença viva de uma ausência: a lembrança terna de algo ou alguém de que estamos separados, atravessada pelo desejo de o reaver. À sua volta cresceu, ao longo de séculos, a convicção de que seria intraduzível e, mais ainda, de que exprimiria algo de essencialmente português. Vale a pena separar o que nela é facto linguístico do que é construção cultural.

A palavra dita «intraduzível»

A fama da saudade como termo sem equivalente é antiga e tem origem nacional. Já no século XV, D. Duarte lhe dedicou um capítulo do seu Leal Conselheiro (c. 1438), observando que não conhecia, noutras línguas, vocábulo que lhe correspondesse de igual modo — talvez a primeira vez que um falante teoriza sobre uma palavra da sua própria língua deste modo. No século XX, autores estrangeiros reforçaram o mito: o britânico Aubrey Bell, em In Portugal (1912), descreveu-a como um anseio vago e constante por algo que não existe nem talvez possa existir.

Convém, porém, uma cautela. Intraduzível não significa sem equivalentes: significa apenas que nenhuma palavra estrangeira cobre exatamente o mesmo campo de sentido. Isso é verdade de quase todas as palavras abstratas de qualquer língua. A saudade tem, como veremos, primos próximos noutros idiomas; o que é raro é a densidade cultural que o português acumulou em torno do termo.

Etimologia: de solitate a saudade

Contra a lenda de uma origem misteriosa, a etimologia da palavra é bem estabelecida. A saudade vem do latim SŌLITĀTEM (acusativo de sōlitās, «solidão»), derivado de sōlus, «só». O sentido primitivo era, pois, o de solidão — o estado de quem fica só, privado da companhia desejada.

A evolução fonética é regular e típica do galego-português: a queda das consoantes intervocálicas latinas produziu, na lírica trovadoresca do século XIII, a forma soidade (também soydade, suydade). Só mais tarde, entre os séculos XV e XVI, a palavra se fixa como saudade, numa alteração que os estudiosos — sobretudo Carolina Michaëlis de Vasconcelos, na sua monografia de 1914 — atribuem ao contágio de saúde e de saudar.

Da forma latina à palavra de hoje
FormaÉpocaObservação
SŌLITĀTEMlatimacus. de *sōlitās* «solidão», de *sōlus* «só»
*soidade*séc. XIIIforma das cantigas, após a queda do -l- e do -t-
*soydade*séc. XIV–XVvariantes gráficas medievais
*saudade*séc. XV–XVIforma fixada, por influência de *saúde* / *saudar*

O que a palavra designa

A saudade não é exatamente nostalgia, nem exatamente melancolia, embora toque em ambas. A nostalgia olha sobretudo para o passado; a saudade pode dirigir-se ao que foi, ao que está distante no espaço, e até ao que nunca se teve. Tem-se saudades de uma pessoa ausente, da terra natal, de um tempo perdido, de um sabor de infância — e, num uso mais raro e literário, de um futuro sonhado.

O traço que a define é a coexistência de dor e doçura. Quem sente saudades não está apenas triste: guarda, no mesmo gesto, o prazer da recordação e o desconforto da falta. É essa ambivalência — a alegria de ter tido, o pesar de já não ter — que torna a palavra difícil de verter para outras línguas com uma só palavra.

A gramática da saudade

Mais do que o significado, é a construção da palavra que costuma surpreender quem aprende português. Em português europeu, a saudade aparece quase sempre no plural e constrói-se com o verbo ter e a preposição de.

Tenho saudades tuas.

[ˈtɐ̃ɲu sɐwˈðaðɨʃ ˈtuɐʃ]

I miss you. — literalmente, «tenho saudades de ti».

Ele morre de saudades de casa.

He is terribly homesick.

Que saudades do Verão!

How I miss the summer!

Repare-se que o português não tem um verbo simples equivalente ao inglês to miss: a falta exprime-se nominalmente, através da saudade. Daí expressões fixas como matar saudades («reencontrar quem ou o que se perdeu de vista») ou deixar saudades (dito de quem partiu ou faleceu e cuja ausência se sente).

Dos cancioneiros ao saudosismo

A palavra atravessa toda a história literária portuguesa. Está já nas cantigas de amigo medievais, onde a soidade da donzela pelo amigo ausente é tema central. Reaparece nos clássicos — em Camões, em Bernardim Ribeiro — e torna-se, no Romantismo, emblema de uma sensibilidade nacional.

O ponto culminante chega no início do século XX, com o saudosismo: um movimento poético-filosófico animado por Teixeira de Pascoaes e pela revista A Águia, no seio da Renascença Portuguesa, que elevou a saudade a princípio metafísico e mesmo a fundamento de uma «alma» portuguesa. Fernando Pessoa, próximo do grupo nos seus primeiros anos, dialogou criticamente com esta ideia. Foi também por esta época que se forjou o neologismo erudito saudosismo — e que a velha disputa sobre a singularidade da palavra ganhou contornos de ideologia.

A saudade no fado

Nenhuma forma cultural ligou o seu nome à saudade como o fado. O canto urbano de Lisboa fez do sentimento o seu tema por excelência: a ausência, a perda, o amor distante, a cidade que muda. Não é exagero dizer que, para muitos ouvintes, a saudade é hoje indissociável da voz de uma fadista e do contorno da guitarra portuguesa. A associação é tão forte que, inversamente, a palavra passou a evocar de imediato esse universo musical.

Primos noutras línguas

Apesar da sua fama, a saudade não está sozinha. Várias línguas têm palavras que ocupam regiões vizinhas do mesmo campo afetivo — prova de que o sentimento é humano, ainda que a sua lexicalização seja particular.

LínguaPalavraAproximação
Galegomorriña, soidadenostalgia da terra, do lar
Romenodordesejo doloroso, languidez
Galêshiraethnostalgia de um lar perdido
AlemãoSehnsuchtanseio intenso, desejo do inatingível
Russoтоска (toská)melancolia angustiada

A lição é dupla. A saudade é, sim, uma palavra notável — pela sua história, pela sua construção gramatical e pelo lugar que ocupa na cultura de língua portuguesa. Mas o seu prestígio não vem de descrever um sentimento que só os portugueses teriam: vem de o terem nomeado cedo, com uma só palavra, e de a terem cultivado durante oito séculos de poesia.

Fontes

  1. Carolina Michaëlis de Vasconcelos. A Saudade Portuguesa . Renascença Portuguesa (1914)
  2. José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa . Livros Horizonte (1952)
  3. Aubrey F. G. Bell. In Portugal . John Lane (1912)
  4. D. Duarte. Leal Conselheiro (c. 1438)