Cultura 風 · 02

Fado

Canção urbana de Lisboa nascida no século XIX, o fado faz do destino e da saudade matéria poética. Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2011, vive entre a guitarra portuguesa e a voz.

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O fado é o género de canção urbana mais identificado com Portugal e, em particular, com Lisboa. Nascido nos bairros populares da capital ao longo do século XIX, deve o seu nome ao latim fatum — «destino» — e faz dessa ideia de fatalidade, e do sentimento da saudade, a sua matéria poética. Em 27 de novembro de 2011, a UNESCO inscreveu-o na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, consagrando-o como uma das mais reconhecíveis expressões culturais de língua portuguesa.

A palavra e o sentimento

A própria designação do género é uma lição de etimologia. Fado [ˈfaðu] provém do latim fatum, «aquilo que foi dito (pelos deuses)», e daí «destino, sorte». Quem o canta é o ou a fadista; quem a ele se entrega vive sob o signo de uma palavra inseparável da cultura portuguesa — a saudade, do latim solitate(m), «solidão», que evoluiu para soidade e suidade antes de fixar a forma atual, talvez por influência de saúde.

Vocabulário do fado
PalavraPronúncia (PE)Significado
*fado*[ˈfaðu]do latim *fatum*, «destino»
*fadista*[fɐˈðiʃtɐ]quem canta o fado
*saudade*[sɐwˈðaðɨ]falta dolorosa de algo ausente
*guitarra*[ɡiˈtaʁɐ]a guitarra portuguesa, de 12 cordas

Mais do que um tema, a saudade é a tonalidade afetiva do fado: uma nostalgia que não distingue bem o que perdeu do que nunca teve. Cantar o fado é, nas palavras correntes do meio, dizer uma letra — e não apenas executá-la.

Lisboa: dos bairros à casa de fados

O fado emerge, como prática reconhecível, na Lisboa da primeira metade do século XIX, nos bairros antigos e populares — Alfama, Mouraria, Bairro Alto, Madragoa. É música de taberna, de rua e de pátio, associada a um meio social de marinheiros, fadistas, varinas e gente marginal. A sua primeira grande figura lendária é Maria Severa Onofriana (1820–1846), fadista da Mouraria cuja ligação ao Conde de Vimioso e cuja morte precoce, aos 26 anos, fixaram o arquétipo do fado como canto de amor e de perdição. Diz a tradição que o xaile preto das fadistas é luto pela Severa.

Do canto espontâneo dos bairros — o fado vadio, cantado por amadores em tabernas e coletividades — o género passou aos teatros de revista e, sobretudo a partir do século XX, à casa de fados, espaço profissionalizado onde se canta à mesa, em silêncio respeitoso, ao fim da refeição. É aí que o fado se ritualiza: apagam-se as luzes, pede-se silêncio, e a voz ergue-se sobre as cordas.

A guitarra portuguesa e a voz

O fado canónico assenta num conjunto reduzido e fixo. Uma voz solista — não um coro — sustenta a melodia; acompanham-na a guitarra portuguesa, instrumento de doze cordas metálicas, caixa em forma de pera e timbre cristalino e ornamental, e a viola (a guitarra clássica, dita viola em Portugal), que marca o baixo e o acorde. A esta dupla junta-se com frequência a viola baixo. A guitarra portuguesa, com os seus floreados e contracantos, dialoga com a voz quase como um segundo intérprete, respondendo-lhe nas pausas.

A estrutura musical é simétrica e repetitiva, ao serviço da palavra: o fado existe para que uma letra seja ouvida. Daí a importância da dicção e da economia de gesto — o fadista canta de olhos fechados, sóbrio, sem coreografia.

Fado de Lisboa e fado de Coimbra

Ao lado do fado lisboeta desenvolveu-se, no meio universitário, o fado de Coimbra, ramo distinto na voz, no traje e no contexto.

Fado de LisboaFado de Coimbra
Origembairros popularesmeio académico e estudantil
Vozeshomens e mulherestradicionalmente só homens
Trajexaile preto (mulher)capa e batina académicas
Contextocasa de fados, tabernaserenata noturna, ao relento
Temasamor, ciúme, vida urbana, destinosaudade estudantil, amor, a cidade

Em Coimbra, o fado canta-se de pé, frequentemente em serenata, e por convenção não se aplaude: tosse-se, em sinal de aprovação. São tradições paralelas, unidas pelo nome e pela guitarra portuguesa, mas de sensibilidade própria.

Amália e o fado no mundo

Nenhum nome se confunde tanto com o género como o de Amália Rodrigues (1920–1999), a Rainha do Fado. Foi ela quem, da década de 1950 em diante, levou o fado aos grandes palcos internacionais e elevou as suas letras à categoria de poesia, cantando versos de Camões, David Mourão-Ferreira, Pedro Homem de Mello ou Alexandre O’Neill. A sua morte, em 1999, foi assinalada com três dias de luto nacional.

A internacionalização prosseguiu: Carlos do Carmo tornou-se, em 2014, o primeiro artista português distinguido com um Grammy Latino (pela carreira); e uma nova geração — Mariza, Camané, Ana Moura, Carminho, Gisela João — renovou o repertório sem romper com a tradição, fazendo do fado uma presença constante nas salas de concerto de todo o mundo.

A letra: poesia que se canta

Linguisticamente, o fado é um precioso reservatório do português falado em Lisboa: a sua dicção, as suas formas de tratamento, o seu léxico afetivo. As letras escrevem-se sobretudo em quadras e décimas, em redondilha, e cultivam um registo que vai do popular ao lírico mais depurado. Muitos fados nascem da adaptação de poemas eruditos a melodias tradicionais — a chamada prática de cantar um fado por determinada melodia.

Amor, ciúme, / cinzas e lume, / dor e pecado. / Tudo isto existe, / tudo isto é triste, / tudo isto é fado.

«Tudo Isto É Fado», letra de Aníbal Nazaré — a estrofe que se tornou definição corrente do próprio género.

Esta vocação para definir-se a si mesmo é típica do fado, que tantas vezes toma por tema a sua própria natureza: o que é o fado, de onde vem, porque dói.

Património e memória

A inscrição na lista da UNESCO, em 2011, reconheceu o fado não como peça de museu mas como prática viva, transmitida informalmente nos bairros, nas casas de fado e nas associações. Em Lisboa, o Museu do Fado (Alfama, aberto em 1998) guarda e estuda esse património, enquanto o fado vadio continua a cantar-se à mesa, de geração em geração — prova de que o destino que dá nome ao género permanece, ele próprio, por cantar.

Fontes

  1. Rui Vieira Nery. Para uma História do Fado . Público / Corda Seca (2004)
  2. Joaquim Pais de Brito (org.). Fado: Vozes e Sombras . Museu Nacional de Etnologia (1994)
  3. Paul Vernon. A History of the Portuguese Fado . Ashgate (1998)