Cultura 風 · 03

Música lusófona

Samba, morna, kizomba, marrabenta — e o fado como um ramo entre muitos. Uma família de canções urbanas em que o português e os seus crioulos se cantam pelo mundo.

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Costuma falar-se do fado como a música portuguesa, no singular. Visto à escala do mundo de língua portuguesa, porém, o fado é antes um ramo numa família — a das canções urbanas que nasceram, dos dois lados do Atlântico, do encontro entre matrizes europeias e africanas, e que têm em comum o facto de carregarem a língua (e os seus crioulos) na própria voz. Samba, morna, kizomba e marrabenta são os outros grandes ramos dessa família.

Um ar de família

Apesar das distâncias, estes géneros partilham um mesmo molde. Quase todos são urbanos e mestiços, fixados entre o século XIX e meados do século XX em cidades portuárias — Lisboa, Rio de Janeiro, Mindelo, Luanda, Lourenço Marques. Quase todos cruzam a harmonia e os instrumentos de cordas europeus com o ritmo e a sensibilidade africanos. E quase todos cultivam um afeto central de nostalgia: a saudade portuguesa [sɐwˈðaðɨ] tem irmãs na sodade cabo-verdiana e na melancolia da morna.

Fado: o ramo de Lisboa

O fado urbano fixou-se em Lisboa na primeira metade do século XIX, nos bairros populares de Alfama e da Mouraria, cantado a solo sobre guitarra portuguesa e viola. Mais tarde ganhou um polo erudito em Coimbra. A voz de Amália Rodrigues (1920–1999) projetou-o internacionalmente, e em 2011 a UNESCO inscreveu-o no Património Cultural Imaterial da Humanidade. É o membro da família que aqui serve de ponto de partida — não de medida.

Samba: o Rio e a invenção do Brasil moderno

No Brasil, o samba consolidou-se no Rio de Janeiro no início do século XX, herdeiro do lundu, do maxixe e do batuque afro-baiano. Pelo Telefone (1917), registado por Donga, é tradicionalmente apontado como o primeiro samba gravado. Da roda de terreiro à avenida do Carnaval, tornou-se o som com que o país se imagina a si próprio.

A própria palavra liga o género à África: samba remonta provavelmente ao quimbundo semba, a umbigada — o toque de umbigos que marcava certas danças de roda banto.

quimbundo semba (umbigada) → samba

A hipótese etimológica mais aceite faz nascer o nome do samba de um termo banto trazido pela escravatura.

Morna e coladeira: a alma de Cabo Verde

Em Cabo Verde, a morna é o género nacional por excelência: lenta, melancólica, cantada quase sempre em crioulo cabo-verdiano, com violão, cavaquinho e violino. O poeta Eugénio Tavares deu-lhe textos maiores no início do século XX, e B.Léza (Francisco Xavier da Cruz) enriqueceu-lhe a harmonia. A voz de Cesária Évora (1941–2011), a diva descalça, levou-a ao mundo; em 2019 a UNESCO reconheceu a morna como património imaterial. A seu lado corre a coladeira, mais rápida e irónica.

«Sodade, sodade / sodade / dess nha terra São Nicolau»

Refrão de «Sodade», imortalizado por Cesária Évora: a saudada da terra natal, dita em crioulo.

Semba, kizomba e marrabenta: a África atlântica

Em Angola, o semba — rápido, dançado, urbano — foi a banda sonora de Luanda em torno da independência. Da sua matriz, já nos anos 1980, e sob a influência do zouk caribenho, nasceu a kizomba: mais lenta e sensual, cantada em português e em quimbundo, hoje dança de salão difundida muito para além da lusofonia.

Em Moçambique, a marrabenta formou-se em Lourenço Marques (atual Maputo) a partir das décadas de 1930-1950, cruzando danças locais com a canção europeia de salão. O nome vem do português rebentar — diz-se que pelas cordas que rebentavam nas guitarras improvisadas dos músicos.

GéneroOrigemÉpocaLíngua dominante
FadoLisboa (Portugal)séc. XIXportuguês
SambaRio de Janeiro (Brasil)início séc. XXportuguês
MornaMindelo / Boa Vista (Cabo Verde)séc. XIX–XXcrioulo cabo-verdiano
Semba / KizombaLuanda (Angola)séc. XXportuguês e quimbundo
MarrabentaMaputo (Moçambique)séc. XXportuguês e línguas bantas

A língua que se canta

Para uma história da língua, esta família importa porque é um dos seus maiores veículos vivos. A morna fez do crioulo cabo-verdiano uma língua de arte reconhecida; a kizomba leva o português a pistas de dança de Lisboa a Tóquio; o samba e a marrabenta misturam, no mesmo verso, o léxico português e o substrato africano. Cantar nestes géneros é, em boa medida, manter a língua — e os seus crioulos — em circulação.

Fontes

  1. Rui Vieira Nery. Para uma História do Fado . Público & Corda Seca (2004)
  2. Chris McGowan & Ricardo Pessanha. The Brazilian Sound: Samba, Bossa Nova, and the Popular Music of Brazil . Temple University Press (1998)
  3. Vladimir Monteiro. Les Musiques du Cap-Vert . Chandeigne (1998)