Literatura 詩 · 13

Poesia portuguesa do século XX

Depois de Pessoa, quatro vozes maiores — Sophia, Eugénio de Andrade, Miguel Torga e Herberto Helder — refizeram a lírica portuguesa, da exatidão clássica à visão delirante.

pt

A poesia portuguesa do século XX é uma das mais densas da Europa. Aberto pela explosão modernista de Orpheu (1915) e pela obra de Fernando Pessoa, o século prolongou-se numa sucessão de movimentos — a revista Presença, o Neorrealismo, o Surrealismo — e, a partir dos anos 40 e 50, em algumas vozes singulares que escapam a qualquer rótulo. Quatro delas impuseram-se como referências maiores: Sophia de Mello Breyner Andresen, Eugénio de Andrade, Miguel Torga e Herberto Helder.

Depois de Pessoa

A morte de Pessoa, em 1935, não fechou o Modernismo: legou um problema. Como escrever depois de uma obra que multiplicara o sujeito em heterónimos e levara a língua a um extremo de pensamento? As gerações seguintes responderam de modos opostos. O Neorrealismo (anos 40) reclamou uma poesia de intervenção social; o Surrealismo português, organizado em Lisboa a partir de 1947 em torno de Mário Cesariny e Alexandre O’Neill, reclamou a liberdade do imaginário e do inconsciente. Entre uns e outros, porém, foram crescendo poetas que fizeram da própria voz — e não de um programa — o centro da obra.

Quatro vozes maiores

PoetaDatasObra de referênciaMarca
Miguel Torga1907–1995Orfeu Rebelde (1958)telúrico, granítico
Sophia de Mello Breyner Andresen1919–2004Mar Novo (1958)clássico, ético
Eugénio de Andrade1923–2005As Mãos e os Frutos (1948)sensorial, depurado
Herberto Helder1930–2015A Colher na Boca (1961)visionário, órfico

Sophia: a exatidão e o mar

Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 1919 – Lisboa, 2004) escreveu uma das obras mais límpidas da língua. Estreou-se com Poesia (1944) e desenvolveu, ao longo de títulos como Mar Novo (1958) e Livro Sexto (1962), uma poética da transparência: o verso como busca do nome justo das coisas, sob o signo da Grécia, do mar e de uma exigência moral inseparável da estética. Foi também contista e autora de literatura para a infância. Em 1999 tornou-se a primeira mulher a receber o Prémio Camões, e em 2014 os seus restos foram trasladados para o Panteão Nacional.

Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo

Sophia, «25 de Abril» — a poetisa saúda a revolução de 1974 com a mesma clareza com que nomeava o mar.

Eugénio de Andrade: o corpo e a luz

Eugénio de Andrade — pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, Fundão, 1923 – Porto, 2005) — é o poeta da matéria sensível: a água, a terra, a luz, o corpo. A partir de As Mãos e os Frutos (1948), depurou o verso até uma simplicidade luminosa que muito deve à lírica popular e aos clássicos gregos e latinos que traduziu. Avesso a escolas, recusou tanto o didatismo neorrealista como o programa surrealista. Coroou a carreira com o Prémio Camões em 2001.

Miguel Torga: a poesia telúrica

Miguel Torga — pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha (São Martinho de Anta, Trás-os-Montes, 1907 – Coimbra, 1995) — foi médico em Coimbra e escritor total: poeta, contista, dramaturgo e autor do monumental Diário (dezasseis volumes, 1941–1993). A sua poesia, reunida em volumes como Orfeu Rebelde (1958), é telúrica e rebelde: canta a pedra, a serra de Trás-os-Montes e a dignidade áspera do homem perante o destino. Em 1989 foi o primeiro galardoado com o Prémio Camões, então criado, e o seu nome circulou como candidato ao Nobel.

Herberto Helder: o poema contínuo

Herberto Helder (Funchal, Madeira, 1930 – Cascais, 2015) é, para muitos, o maior poeta português da segunda metade do século. Próximo do Surrealismo nos inícios, construiu desde A Colher na Boca (1961) uma obra visionária e órfica, de imagens incandescentes, que foi reunindo sob o título programático de Poesia Toda e, mais tarde, Ou o Poema Contínuo — a ideia de um único poema que nunca cessa. Recusou prémios e entrevistas, viveu na sombra e fez ainda da tradução uma forma de criação, nos seus poemas mudados para português. A sua morte, em 2015, foi sentida como o fim de uma era.

Um legado vivo

Estes poetas fixaram, cada um à sua maneira, possibilidades duradouras da língua poética: o rigor nominativo de Sophia, a música depurada de Eugénio, a aspereza ética de Torga, o delírio iluminado de Herberto. Continuam a ser lidos, musicados e estudados, e marcam o ponto de partida da poesia portuguesa contemporânea.

Fontes

  1. António José Saraiva & Óscar Lopes. História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1955)
  2. Eduardo Lourenço. Tempo e Poesia . Editorial Inova (1974)
  3. Fernando Guimarães. As Mãos da Escrita — Estudos sobre a Poesia Portuguesa Contemporânea . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (2004)