Literatura 詩 · 16
Prémios e instituições literárias
O Prémio Camões, o Nobel de Saramago e as academias da língua — os galardões e as instituições que consagram, normalizam e dão projeção à literatura em português.
ptUma literatura não vive apenas dos seus autores: vive também das instituições que a consagram, a fixam e a fazem circular. No espaço de língua portuguesa, três realidades dão corpo a essa função — os prémios, que distinguem; as academias, que normalizam; e os organismos de difusão, que projetam. Em conjunto, desenham o mapa do prestígio literário de uma língua falada hoje por mais de duzentos e cinquenta milhões de pessoas.
O Prémio Camões
O Prémio Camões é o galardão mais importante da literatura em língua portuguesa. Foi instituído em 1988, por protocolo entre os governos de Portugal e do Brasil, e atribuído pela primeira vez em 1989. Distingue não uma obra isolada, mas o conjunto de uma carreira: consagra um autor pela totalidade do seu contributo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum.
O júri reúne, por rotação, representantes dos países lusófonos, e o prémio — dotado atualmente de cem mil euros — é gerido de forma partilhada, em Portugal pela Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e, no Brasil, pela Biblioteca Nacional. A sua vocação é genuinamente pluricontinental: entre os laureados contam-se não só portugueses e brasileiros, mas também escritores africanos.
1989 — Miguel Torga (Portugal) · 1991 — José Craveirinha (Moçambique) · 1995 — José Saramago (Portugal) · 1997 — Pepetela (Angola) · 2013 — Mia Couto (Moçambique)
Alguns laureados do Prémio Camões. Craveirinha foi o primeiro autor africano a recebê-lo; a lista reflete a geografia plural da língua.
O primeiro premiado foi Miguel Torga, em 1989. Em 1991, José Craveirinha tornou-se o primeiro autor africano distinguido, sinal de que o prémio assumia desde cedo a dimensão de toda a lusofonia, e não apenas do eixo luso-brasileiro que o criou.
O Nobel: o caso de Saramago
A língua portuguesa tem, até hoje, um único Prémio Nobel da Literatura: José Saramago, distinguido pela Academia Sueca em 1998. A Academia saudou nele a capacidade de, «com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia», tornar continuamente apreensível uma realidade fugidia.
O reconhecimento teve um significado que ultrapassou o autor: confirmou internacionalmente a maturidade de uma literatura que, durante séculos, fora lida sobretudo dentro das suas fronteiras linguísticas. Saramago é, de resto, um dos raros escritores a reunir os dois maiores galardões da língua — o Camões (1995) e o Nobel (1998).
As academias da língua
Se os prémios consagram, as academias fixam e normalizam. Não existe uma academia única para toda a lusofonia; existem instituições nacionais, com longa história e funções distintas.
A mais antiga é a Academia das Ciências de Lisboa, fundada em 1779 como Academia Real das Ciências. A sua Classe de Letras é, em Portugal, a autoridade de referência em matéria de língua: a ela se deve a tradição lexicográfica oficial, materializada no Dicionário da Língua Portuguesa que leva o seu nome.
No Brasil, a Academia Brasileira de Letras foi fundada em 1897, tendo como primeiro presidente o romancista Machado de Assis. Inspirada na Académie française, é composta por quarenta membros vitalícios — os chamados imortais —, cada um ocupando uma cadeira numerada associada a um patrono. Cabe-lhe, entre outras funções, a publicação do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, instrumento de referência da norma brasileira.
Academia das Ciências de Lisboa (1779) · Academia Brasileira de Letras (1897) · Academia Galega da Língua Portuguesa (2008)
As três academias de letras do âmbito da língua. A galega defende a filiação do galego no diassistema português.
Outros prémios e a economia do prestígio
Abaixo do Camões, uma constelação de prémios estrutura a vida literária de cada país. A tabela seguinte reúne alguns dos mais influentes.
| Prémio | Âmbito | Desde | Natureza |
|---|---|---|---|
| Prémio Camões | Lusofonia | 1989 | Carreira |
| Prémio Pessoa | Portugal | 1987 | Obra/percurso |
| Grande Prémio de Romance e Novela (APE) | Portugal | 1982 | Romance do ano |
| Prémio José Saramago | Lusofonia | 1999 | Jovem autor |
| Prémio Oceanos | Lusofonia | 2003 | Livro do ano |
O Prémio Pessoa, criado em 1987, distingue anualmente uma personalidade da cultura portuguesa, não exclusivamente literária. O Prémio José Saramago, instituído em 1999 pela Fundação Círculo de Leitores, premeia autores mais jovens de toda a língua, revelando nomes que viriam a impor-se, como José Luís Peixoto ou Gonçalo M. Tavares.
Difusão: dar projeção à língua
A consagração interna completa-se com a difusão externa. Em Portugal, o Instituto Camões assegura o ensino e a divulgação da língua e da cultura portuguesas no estrangeiro; no plano multilateral, o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), órgão da CPLP sediado na Praia, em Cabo Verde, coordena políticas comuns. Prémios, academias e organismos de difusão formam, assim, um único sistema: distinguir os autores, fixar a norma e levar uma e outros ao mundo.
Fontes
- História da Literatura Portuguesa . Porto Editora (1996)
- Dicionário de Literatura . Figueirinhas (1992)
- História da Academia das Ciências de Lisboa . Academia das Ciências de Lisboa (2009)