Literatura 詩 · 12

José Saramago

O único escritor de língua portuguesa galardoado com o Nobel (1998), e o criador de uma prosa-rio, sem pontuação convencional, que reinventou a voz narrativa em português.

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José Saramago (1922–2010) é, até hoje, o único escritor de língua portuguesa distinguido com o Prémio Nobel da Literatura, atribuído em 1998. Mais do que um nome maior do romance contemporâneo, foi o autor de uma forma de escrever — densa, oral, de frases longuíssimas e pontuação reinventada — que constitui um dos acontecimentos estilísticos mais marcantes da prosa portuguesa do século XX. Ler Saramago é, antes de mais, reaprender a ouvir a língua.

Um nome que vinha da terra

Nasceu a 16 de novembro de 1922 na Azinhaga, pequena aldeia do concelho da Golegã, no Ribatejo, no seio de uma família de camponeses sem terra. O próprio apelido tem origem curiosa e reveladora: Saramago não era o nome de família — que seria de Sousa — mas a alcunha rural com que eram conhecidos os parentes do pai. Saramago designa uma planta silvestre dos campos (do género Raphanus), comida em tempos de fome; foi o funcionário do registo civil que, por sua conta, o inscreveu como nome próprio. O escritor herdou assim, no nome, a memória da pobreza e do mundo rural de que viria a fazer matéria literária.

Da Azinhaga a família mudou-se para Lisboa. Sem meios para prosseguir os estudos, Saramago formou-se serralheiro mecânico e exerceu vários ofícios antes de viver da escrita: foi funcionário administrativo, tradutor, jornalista e editor. Em 1947 publicou um primeiro romance, Terra do Pecado, ao qual se seguiu um longo silêncio como ficcionista de quase três décadas.

O encontro com uma voz

O Saramago que o mundo conhece nasce tarde, já passados os cinquenta anos. É com Levantado do Chão (1980), romance sobre três gerações de camponeses alentejanos, que ele encontra a voz e a sintaxe que serão sua assinatura. Saramago atribuía essa descoberta à memória dos avós maternos, Jerónimo e Josefa, contadores orais analfabetos cujas histórias, dizia, lhe ensinaram que narrar é falar. A sua prosa nasce, por isso, da convenção do contador de histórias: um narrador presente, que comenta, ironiza, hesita, convoca provérbios e ditos populares e se dirige ao leitor como quem conversa à lareira.

A frase-rio

A unidade da prosa de Saramago não é a frase curta, mas o período longo, que se estende por linhas e por vezes por páginas, encadeando orações por vírgulas numa respiração contínua. É uma sintaxe de oralidade: aproxima-se do modo como se fala — com incisos, regressos, retomas — e não do modelo da escrita esquemática. O ponto final é raro; a vírgula faz quase todo o trabalho de articulação.

Esse fluxo dilui as fronteiras entre a voz do narrador e a das personagens. O discurso indireto livre — em que o pensamento de uma figura se funde com a narração sem aviso tipográfico — é o regime natural do texto, e obriga o leitor a uma atenção constante, a ler como quem escuta.

Uma pontuação reinventada

O traço mais imediatamente reconhecível é o tratamento do diálogo. Saramago prescinde das aspas e do travessão: as falas não se isolam em linha própria, incorporam-se no corpo do período. A mudança de interlocutor assinala-se apenas por uma vírgula seguida de maiúscula — sinal mínimo, mas suficiente, de que uma nova voz tomou a palavra.

Perguntou o homem, Para onde vamos agora, e a mulher, que ia à frente, respondeu sem se voltar, Para onde nos levarem os pés, foi sempre assim.

Exemplo ilustrativo do método: o diálogo dispensa aspas e travessões; cada nova fala começa por maiúscula depois da vírgula, dentro do mesmo período.

Não se trata de capricho gráfico, mas de uma opção de leitura. Ao recusar a pontuação que separa e hierarquiza, Saramago obriga a ler a página inteira como fluxo sonoro, restituindo à prosa escrita o ritmo e a ambiguidade da fala viva. A maiúscula passa a marcar o início da fala; a vírgula, a sua continuidade.

A obra

A partir de 1980, Saramago publica com regularidade alguns dos romances mais ambiciosos da língua, oscilando entre a releitura da história portuguesa e a alegoria de pendor filosófico e político.

ObraAnoTítulo em inglês
Levantado do Chão1980Raised from the Ground
Memorial do Convento1982Baltasar and Blimunda
O Ano da Morte de Ricardo Reis1984The Year of the Death of Ricardo Reis
A Jangada de Pedra1986The Stone Raft
História do Cerco de Lisboa1989The History of the Siege of Lisbon
O Evangelho Segundo Jesus Cristo1991The Gospel According to Jesus Christ
Ensaio sobre a Cegueira1995Blindness
Todos os Nomes1997All the Names
As Intermitências da Morte2005Death with Interruptions

Memorial do Convento, ambientado no Portugal joanino da construção do convento de Mafra, e O Ano da Morte de Ricardo Reis, que faz reviver em Lisboa um dos heterónimos de Fernando Pessoa, são porventura os seus romances mais celebrados. A partir de Ensaio sobre a Cegueira — em que uma epidemia de cegueira branca desnuda a sociedade —, a alegoria torna-se a forma dominante, com fábulas sobre o poder, a morte, a identidade e a responsabilidade. A ironia, a compaixão e um ceticismo lúcido atravessam toda a obra.

O Evangelho, a censura e o exílio

Em 1991, O Evangelho Segundo Jesus Cristo — que apresenta um Jesus profundamente humano e uma leitura crítica do divino — gerou forte polémica. Em 1992, o Governo português, por decisão do então Secretário de Estado da Cultura, vetou a candidatura do romance ao Prémio Literário Europeu, por o considerar ofensivo para os católicos. Saramago, ateu assumido e membro do Partido Comunista Português, viveu o episódio como um ato de censura e transferiu residência para Lanzarote, nas Canárias, onde passou a viver com a mulher e tradutora espanhola Pilar del Río. Foi aí que escreveu boa parte da obra tardia.

O Nobel de 1998

A 8 de outubro de 1998, a Academia Sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel da Literatura, louvando uma obra que, com parábolas sustentadas pela imaginação, pela compaixão e pela ironia, nos permite apreender de novo uma realidade fugidia. Foi a primeira — e continua a ser a única — vez que o galardão distinguiu um autor de língua portuguesa, num reconhecimento que ultrapassou Saramago para se tornar um marco para o conjunto do idioma. Saramago morreu a 18 de junho de 2010 em Tías, Lanzarote; o seu legado é hoje gerido pela Fundação José Saramago, com sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.

Legado linguístico

A importância de Saramago para a língua não está apenas no prestígio do Nobel, mas na demonstração de que a norma escrita do português podia ser dobrada sem se quebrar. Ao reorganizar a pontuação, ao apagar a fronteira entre fala e narração e ao devolver à prosa o fôlego da oralidade, criou um idioleto reconhecível à primeira frase e, ao mesmo tempo, profundamente enraizado na tradição do contar português. Poucos escritores modernos tornaram tão visível aquilo que a língua, nas mãos certas, ainda pode fazer.

Fontes

  1. David G. Frier. The Novels of José Saramago - Echoes from the Past, Pathways into the Future . University of Wales Press (2007)
  2. Maria Alzira Seixo. Lugares da Ficção em José Saramago . Imprensa Nacional-Casa da Moeda (1999)
  3. The Nobel Prize in Literature 1998 - José Saramago . The Nobel Foundation (1998)