Ortografia 字 · 10

As consoantes mudas

As consoantes etimológicas que não se pronunciam — o c de *acção*, o p de *óptimo* — e a regra do Acordo de 1990 que as suprime, mantendo as que ainda se articulam.

pt

Chamam-se consoantes mudas as consoantes que se escreviam por razões etimológicas mas que deixaram de se pronunciar — sobretudo o c e o p em sequências como -cç-, -ct-, -pç- e -pt-. Acção, director, óptimo ou baptismo conservavam, na grafia anterior, letras que a língua falada havia abandonado há muito. O Acordo Ortográfico de 1990 veio suprimir essas letras quando são de facto inaudíveis, aproximando a escrita da pronúncia real.

De onde vinham

Estas consoantes são herança do latim: ACTIONEM deu acção, OPTIMUM deu óptimo, BAPTISMUM deu baptismo. Durante séculos, a tradição ortográfica portuguesa — de inspiração etimológica — manteve-as por respeito à forma latina, mesmo depois de a sua articulação se ter perdido na fala corrente. A reforma republicana de 1911 e a convenção luso-brasileira de 1945 simplificaram muito a ortografia, mas a redação de 1945, em vigor em Portugal, optou por preservar boa parte destas consoantes mudas, ao passo que o Brasil, já desde o formulário de 1943, as eliminara. Daí uma das diferenças gráficas mais visíveis entre as duas tradições ao longo do século XX.

A regra de 1990

O princípio do Acordo é simples e fonético: suprime-se a consoante que não se pronuncia; mantém-se a que se pronuncia. A decisão não é etimológica mas articulatória — depende de a letra ter, ou não, realização sonora na norma culta.

acção → ação · óptimo → ótimo · director → diretor · baptismo → batismo

[ɐˈsɐ̃w̃ · ˈɔtimu · diɾɛˈtoɾ · bɐˈtiʒmu]

O c e o p eram inaudíveis: caem. A vogal anterior continua aberta, agora assinalada pelo acento ou pelo contexto.

A supressão abrange dezenas de palavras de uso corrente. Note-se que continua a escrever-se uma só consoante quando a outra era a muda: em espectáculo o primeiro c não soava e o segundo sim, donde espetáculo.

Consoantes mudas suprimidas (norma europeia)
Antes de 1990Depois de 1990Pronúncia
acção*ação*[ɐˈsɐ̃w̃]
colecção*coleção*[kulɨˈsɐ̃w̃]
activo*ativo*[ɐˈtivu]
exacto*exato*[iˈzatu]
adoptar*adotar*[ɐduˈtaɾ]
óptimo*ótimo*[ˈɔtimu]

As que ficam

O Acordo não elimina o c e o p etimológicos quando estes se articulam de facto na pronúncia. Por isso facto, pacto, rapto, apto, núpcias, erupção, convicto, ficção ou bactéria conservam a consoante: ela ouve-se. É um ponto frequentemente mal compreendido — o Acordo não «cortou todos os c e p», apenas os que já não tinham som.

o facto consumado · um pacto de silêncio · a ficção científica

[ˈfaktu · ˈpaktu · fikˈsɐ̃w̃]

Em facto, pacto e ficção o c pronuncia-se: a grafia mantém-no.

Daqui resulta uma distinção útil que o português europeu preserva: facto (“acontecimento”) [ˈfaktu] não se confunde com fato (“traje”, ou, no Brasil, também “facto”) [ˈfatu] .

Grafias duplas

Numa franja de palavras a consoante pronuncia-se numa pronúncia culta e não noutra, dentro do próprio espaço lusófono. Nesses casos o Acordo admite dupla grafia, validando ambas as formas — por exemplo sumptuoso ou suntuoso, peremptório ou perentório. Não se trata de erro: são alternativas legítimas que refletem variação real de pronúncia.

A objeção das vogais

A crítica mais consistente à supressão lembra que a consoante muda tinha por vezes uma função: assinalar que a vogal anterior era aberta. Em óptimo, o p «avisava» que o o tónico era [ɔ] e não [o] . Suprimida a letra, esse indício gráfico desaparece, e palavras como ótimo ou fator passam a depender do acento ou do hábito do leitor para a qualidade vocálica certa. Os defensores do Acordo respondem que a escrita do português é, na sua base, fonológica, e que manter letras inaudíveis apenas por etimologia contraria esse princípio.

O que reter

As consoantes mudas eram fósseis gráficos do latim. O Acordo de 1990 limpou os que o ouvido já não reconhecia — ação, ótimo, diretor — e preservou os que ainda soam — facto, pacto, ficção. Quando houver dúvida, vale uma regra prática: pronuncie a palavra com cuidado; se ouvir o c ou o p, escreva-o; se não, não o escreva — ressalvadas as grafias duplas, em que a língua, ela própria, hesita.

Fontes

  1. Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa . Diário da República (Resolução da Assembleia da República n.º 26/91) (1990)
  2. Paul Teyssier. História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
  3. Maria Helena Mira Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  4. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)