Ortografia 字 · 01
A ortografia do português
Os princípios que regem a escrita do português — uma ortografia de base fonológica, temperada pela etimologia e fixada por sucessivas reformas — e um mapa desta secção.
ptA ortografia é o conjunto de convenções que fixam a forma escrita correta de uma língua: que letras se usam, como se acentuam as palavras, quando se emprega maiúscula ou hífen. Não descreve a língua — descreve a sua escrita. O português tem uma ortografia de base predominantemente fonológica: a grafia procura representar os sons da fala. Mas essa base convive com critérios etimológicos e com hábitos históricos, o que explica as suas irregularidades e a sua longa história de reformas.
Uma base fonológica, com exceções
Comparado com o inglês ou o francês, o português escreve-se de forma relativamente regular: na maioria dos casos, sabendo as regras, a leitura de uma palavra é previsível a partir da sua grafia. Ainda assim, a correspondência entre letra e som não é biunívoca. Uma mesma letra pode valer vários sons, consoante a posição:
casa [ˈkazɐ] · sapo [ˈsapu] · exame [iˈzɐmɨ] · táxi [ˈtaksi]
O s entre vogais soa [z], mas [s] em início de palavra; o x tem vários valores. A grafia não os distingue.
Inversamente, a redução vocálica característica do português europeu quase nunca se marca na escrita: escreve-se de mas pronuncia-se [dɨ] , e o e átono de pequeno não soa como o tónico de pé. A ortografia fixa, assim, uma forma estável por cima de uma pronúncia que varia no tempo e no espaço.
Letras, dígrafos e diacríticos
O alfabeto português tem hoje 26 letras, incluindo k, w e y, reintegradas pelo Acordo de 1990 para nomes próprios, símbolos e estrangeirismos. A par das letras isoladas, certos dígrafos representam um único som — ch, lh, nh, rr, ss, e ainda qu e gu antes de e/i.
Sobre as vogais incidem os diacríticos, cada um com função própria: o acento agudo (á, é, í, ó, ú) e o circunflexo (â, ê, ô) marcam a sílaba tónica e o timbre da vogal; o til (ã, õ) assinala a nasalidade; a cedilha (ç) dá ao c o valor [s] antes de a, o, u; e o acento grave (à) serve apenas a contração da preposição a com o artigo. Estes sinais não são ornamento: distinguem significados, como em e / é ou avo / avô.
Um sistema construído por reformas
A ortografia portuguesa nem sempre foi regular. Até ao início do século XX escrevia-se segundo um critério etimológico, que conservava consoantes mudas e grafias de origem grega e latina — pharmacia, philosopho, sciencia. A Reforma de 1911, a primeira oficial, rompeu com essa tradição em Portugal, adotando uma escrita de orientação fonética. Convenções luso-brasileiras sucessivas — a de 1945, seguida em Portugal, e o formulário brasileiro de 1943 — aproximaram mas nunca unificaram as duas grafias.
O Acordo Ortográfico de 1990
O Acordo Ortográfico de 1990 é o quadro hoje em vigor. Procura uma grafia comum a todos os países de língua portuguesa, sobretudo pela supressão das consoantes mudas que já só uns escreviam (acção → ação, óptimo → ótimo) e por novas regras de acentuação, hífen e maiúsculas. Em Portugal vigora oficialmente desde 2009, com período de transição.
Como percorrer esta secção
Os artigos que se seguem desenvolvem cada um destes temas. Para o sistema de escrita, veja o alfabeto português e, para os sinais, acentuação gráfica. A dimensão histórica está nas reformas de 1911 e 1945 e no Acordo Ortográfico de 1990; os pontos mais debatidos, nas consoantes mudas e nas diferenças de grafia entre Portugal e o Brasil.
Fontes
- Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa . Diário da República (1991)
- História da Língua Portuguesa . Sá da Costa (1980)
- Prontuário Ortográfico e Guia da Língua Portuguesa . Casa das Letras (2011)
- Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)