Fonologia 音 · 07

As consoantes

O inventário de dezanove consoantes do português europeu e a sua alofonia — a lenição das oclusivas sonoras, o l velar e o modo como a posição na sílaba transforma cada som.

pt

O subsistema consonântico do português é, ao contrário do vocálico, estável e económico: dezanove fonemas que variam pouco de uma variedade para outra. A riqueza está menos no número de unidades do que na alofonia — no modo como cada consoante muda de realização consoante a sua posição na sílaba e os sons que a rodeiam. É aqui que o português europeu (PE) revela alguns dos seus traços mais característicos.

O inventário

As dezanove consoantes distribuem-se por cinco modos de articulação. Os fonemas opõem-se sobretudo por vozeamento (surdo vs. sonoro) e por ponto de articulação.

As consoantes do português europeu
LabialDental/AlveolarPalatalVelar/Uvular
Oclusivasp · bt · dk · g
Fricativasf · vs · zʃ · ʒ
Nasaismnɲ
Lateraislʎ
Vibrantesɾʁ

As palatais [ɲ] e [ʎ] correspondem aos dígrafos nh e lh (vinho, filho); não têm símbolo próprio no alfabeto e são sempre representadas por dois sinais. As sibilantes e chiantes ([s z ʃ ʒ] ) e os róticos ([ɾ ʁ] ) têm artigo próprio, dada a sua complexidade.

A lenição das oclusivas sonoras

O traço alofónico mais audível do PE incide sobre [b d g] . Entre vogais — e, mais geralmente, fora de pausa ou de consoante nasal — estas oclusivas enfraquecem e realizam-se como fricativas ou aproximantes: [b] torna-se [β] , [d] torna-se [ð] e [g] torna-se [ɣ] . O ar deixa de ser totalmente bloqueado; os lábios ou a língua apenas se aproximam.

cada · obrigado · o gato

[ˈkaðɐ · oβɾiˈɣaðu · u ˈɣatu]

O d de cada, o b e o g de obrigado e o g de gato não são oclusivos plenos: a língua e os lábios apenas roçam o ponto de articulação.

O contraste com as homólogas surdas [p t k] mantém-se, porque estas não sofrem o mesmo enfraquecimento. É um processo gradual e contextual: a mesma palavra surge com oclusiva plena depois de pausa (Gato!) e com aproximante no interior do enunciado (o gato).

O l velar

Em PE, o l é articulado com o dorso da língua recuado em direção ao véu palatino — um l “escuro” ou velarizado [ɫ] . Esta coloração existe em todas as posições, mas é mais nítida em final de sílaba: mal [ˈmaɫ] , sol [ˈsɔɫ] , Portugal [puɾtuˈɣaɫ] . É um som próximo do l do inglês full e bem distinto do l claro e anterior do espanhol ou do italiano.

As consoantes e a posição na sílaba

A posição condiciona profundamente a realização. Em final de sílaba (coda), o sistema sofre várias neutralizações características:

  • as sibilantes [s z] palatalizam-se: s e z finais soam [ʃ] antes de pausa ou consoante surda, e [ʒ] antes de sonora — lápis [ˈlapiʃ] , desde [ˈdeʒdɨ] ;
  • a oposição entre os dois róticos anula-se: o contraste caro ~ carro só é possível entre vogais, nunca em coda, onde ocorre apenas o vibrante simples;
  • as nasais em coda não se realizam como consoante plena: nasalizam a vogal anterior e desaparecem como segmento — fim é [ˈfĩ] , não [fim].

as casas são azuis

[ɐʃ ˈkazɐʃ ˈsɐ̃w̃ ɐˈzujʃ]

O s de as soa [z] antes de vogal, o s de casas e o de azuis seguem a regra da coda; a frase ilustra a alternância sibilante num só fôlego.

Esta sensibilidade ao contexto explica por que a mesma letra — s, l, r — representa sons tão diferentes conforme onde se encontra, e por que a transcrição fonética de uma frase corrida raramente coincide com a soletração das palavras isoladas.

Fontes

  1. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Eduardo Buzaglo Paiva Raposo et al. (orgs.). Gramática do Português . Fundação Calouste Gulbenkian (2013)
  3. International Phonetic Association. Handbook of the International Phonetic Association . Cambridge University Press (1999)