Fonologia 音 · 12

Fonologia do português europeu e do brasileiro

O que separa, à escuta, as duas grandes normas do português — vocalismo átono, palatalização de t/d, coda de l e de s, e róticos — e porque soam tão diferentes.

pt

À escrita, o português europeu (PE) e o português do Brasil (PB) são quase a mesma língua; à escuta, separam-se de imediato. As diferenças mais salientes entre as duas normas não estão na gramática nem no léxico, mas na fonologia — no modo como cada uma trata as vogais átonas, palataliza certas consoantes e fecha as sílabas. Este artigo descreve os contrastes sistemáticos, deixando de fora a imensa variação interna de cada país, que cada secção própria detalha.

A grande divisória: as vogais átonas

O traço que mais distancia as duas normas é o tratamento das vogais não acentuadas. O PE reduz-as drasticamente: fecha-as, centraliza-as e, com frequência, apaga-as, comprimindo a palavra em torno da sílaba tónica. O PB conserva-as muito mais cheias e abertas, dando a cada sílaba um peso semelhante.

O resultado é uma diferença de ritmo. O PE aproxima-se de um ritmo acentual (stress-timed), em que as átonas se encolhem entre tónicas salientes; o PB tende para um ritmo mais silábico, em que as vogais resistem. Para muitos ouvintes estrangeiros, é isto — e não os sons isolados — que torna o PE difícil de segmentar e o PB mais “claro”.

menino

[PE mɨˈninu · PB meˈninu]

O e átono inicial fecha-se em [ɨ] no PE, podendo quase desaparecer; no PB mantém-se cheio.

O e átono é o caso emblemático: a mesma letra vale [ɨ] (ou zero) no PE e [e] ou [i] no PB. Por isso uma palavra como telefone soa, em Portugal, com as átonas quase elididas [tɫˈfɔnɨ] , ao passo que no Brasil cada vogal se ouve distintamente [teleˈfoni] .

Consoantes: o t e o d antes de i

A diferença consonântica mais reconhecível é a palatalização (africação) de /t/ e /d/ diante de [i] no PB, ausente no PE. No Brasil, tia soa [ˈtʃiɐ] e dia soa [ˈdʒiɐ] ; em Portugal mantêm-se as oclusivas puras [ˈtiɐ] e [ˈdiɐ] . Como o e átono final se ergue a [i] no PB, o fenómeno alcança quase todas as palavras terminadas em -te e -de: noite, cidade, gente.

O l e o s em final de sílaba

Em fim de sílaba (a chamada coda), duas consoantes separam nitidamente as normas.

O /l/ velar — o “l escuro” [ɫ] do PE em mal ou Brasilvocaliza-se no PB, transformando-se na semivogal [w] . Daí que Brasil seja [bɾɐˈziɫ] em Portugal e [bɾaˈziw] no Brasil, e que mal e mau se tornem homófonos em boa parte do território brasileiro.

O /s/ em coda realiza-se como chiante [ʃ] no PE (pasta, os livros). No PB padrão domina a sibilante [s] , embora o chiante reapareça em algumas variedades — com destaque para o carioca, do Rio de Janeiro.

Os róticos

Ambas as normas distinguem o r simples (caro) do r forte (carro), mas realizam o forte de modos distintos. No PE contemporâneo, o r forte é tipicamente uvular [ʁ] ; no PB, é mais comummente uma fricativa velar ou glotal — carro soa [ˈkaxu] ou [ˈkahu] . O r em coda diverge ainda mais: tenso e por vezes apagado no Brasil (mar, cantar), onde a sua queda nos infinitivos é quase geral na fala corrente.

O mesmo som, duas normas
PalavraPortuguês europeuPortuguês do Brasil
*dia*[ˈdiɐ][ˈdʒiɐ]
*leite*[ˈlɐjtɨ][ˈlejtʃi]
*menino*[mɨˈninu][meˈninu]
*Brasil*[bɾɐˈziɫ][bɾaˈziw]
*pasta*[ˈpaʃtɐ][ˈpastɐ]
*carro*[ˈkaʁu][ˈkaxu]

Timbres vocálicos tónicos

Mesmo na sílaba acentuada há divergências de timbre, muitas vezes refletidas na ortografia. Diante de consoante nasal, o PB tende a fechar a vogal onde o PE a mantém aberta: daí o par António (PE, com [ɔ] ) / Antônio (PB, com [o] ), ou género / gênero. São diferenças regulares, não exceções isoladas, e por isso a própria grafia as regista.

Em síntese: as duas normas partilham praticamente o mesmo inventário de fonemas, mas distribuem-no e realizam-no de maneiras que o ouvido apanha de imediato. A divergência decisiva é a do vocalismo átono — comprimido na margem europeia, preservado na americana — sobre a qual assentam o ritmo e a “cor” sonora de cada uma.

Fontes

  1. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Thaïs Cristófaro Silva. Fonética e Fonologia do Português . Contexto (1999)
  3. Joaquim Mattoso Câmara Jr.. Estrutura da Língua Portuguesa . Vozes (1970)