Fonologia 音 · 06

Redução vocálica

O enfraquecimento, a centralização e o frequente apagamento das vogais átonas — o traço que mais distingue a pronúncia do português europeu e lhe dá o seu ritmo comprimido e consonântico.

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O português europeu reduz drasticamente as vogais que não recebem o acento. Esta redução vocálica — o enfraquecimento, a centralização e, muitas vezes, o apagamento puro e simples das vogais átonas — é o traço fonético que mais distingue a pronúncia de Portugal das restantes variedades da língua. É ela que dá ao português europeu o seu característico som comprimido, denso em consoantes, e que tantas vezes leva o ouvido estrangeiro a confundi-lo com uma língua eslava.

A assimetria entre tónica e átona

Em sílaba tónica, o português europeu distingue sete vogais orais/i/, /e/, /ɛ/, /a/, /ɔ/, /o/, /u/ —, um sistema rico que sustenta numerosos pares mínimos, como [se] e [sɛ] , ou avô [ɐˈvo] e avó [ɐˈvɔ] .

Fora do acento, porém, esses contrastes desmoronam. As sete vogais colapsam num inventário átono reduzido a quatro timbres — essencialmente [i], [ɨ], [ɐ] e [u] —, e mesmo estes tendem a enfraquecer-se quanto mais longe estão da sílaba tónica. A vogal, em português europeu, só revela plenamente o seu timbre quando é tónica; nas restantes posições, vive de empréstimo.

Os padrões de redução

A redução segue um padrão regular, melhor visível quando o acento se desloca na derivação e uma vogal antes tónica passa a átona:

Redução das vogais orais átonas (padrão geral)
Vogal tónicaRealização átonaExemplo
[a], [ɐ][ɐ]*falar* [fɐˈlaɾ]
[ɛ], [e][ɨ]*pegar* [pɨˈɣaɾ]
[i][i]*pirata* [piˈɾatɐ]
[ɔ], [o][u]*morar* [muˈɾaɾ]
[u][u]*juntar* [ʒũˈtaɾ]

As séries anterior e posterior comportam-se de forma paralela: as vogais médias fecham-se ao máximo (o e para [ɨ], o o para [u]) e a vogal baixa centraliza-se (o a para [ɐ]). As vogais já altas, [i] e [u], mantêm o timbre, embora percam intensidade.

*belo* [ˈbɛlu] → *beleza* [bɨˈlezɐ] · *porta* [ˈpɔɾtɐ] → *porteiro* [puɾˈtɐjɾu]

Quando o acento muda na derivação, a vogal que deixa de ser tónica reduz-se: [ɛ] passa a [ɨ] e [ɔ] passa a [u].

A vogal central [ɨ] e o apagamento

A peça-chave de todo o sistema é a vogal central fechada [ɨ], escrita quase sempre com a letra e — o chamado e mudo. É ela que se ouve, fraca e breve, em pegar [pɨˈɣaɾ] , em menino [mɨˈninu] ou nas preposições e artigos átonos de [dɨ] e se [sɨ] .

O passo seguinte é o seu apagamento. Em fala corrente, o [ɨ] desaparece com grande frequência, sobretudo entre consoantes e em final de palavra, deixando atrás de si aglomerados consonânticos que noutras variedades seriam impensáveis.

*telefone* [tlɨˈfɔn] · *desenvolvimento* [dʃẽvɔlviˈmẽtu] · *de repente* [dɾɨˈpẽt]

O apagamento do e átono cria sequências de consoantes que dão ao português europeu a sua textura densa e «fechada».

É este traço, mais do que qualquer outro, que faz o português europeu soar tão diferente — e tão difícil — para quem o ouve pela primeira vez.

Ritmo de compasso acentual

A redução não é um detalhe isolado: organiza todo o ritmo da língua. O português europeu é uma língua de compasso acentual (stress-timed), em que as sílabas tónicas funcionam como balizas regulares e tudo o que está entre elas é comprimido, encurtado e, no limite, suprimido. As vogais átonas são o material que cede para que esse ritmo se mantenha. É por isso que uma frase longa pode parecer, ao ouvido desprevenido, uma sucessão de consoantes pontuada por poucas vogais nítidas — as tónicas.

O contraste com o português do Brasil

Limites e variação

A redução não é absoluta. Palavras eruditas e estrangeirismos resistem-lhe em parte, e o ritmo cuidado da leitura ou do discurso formal recupera vogais que a fala espontânea apaga. Há ainda variação dialetal: alguns falares do norte de Portugal reduzem menos do que a norma de Lisboa, e o [ɐ] átono pode aproximar-se de [a] em certas posições pretónicas. Ainda assim, o princípio mantém-se firme em todo o português europeu: a vogal átona é, por natureza, uma vogal em recuo.

Fontes

  1. Maria Helena Mateus & Ernesto d'Andrade. The Phonology of Portuguese . Oxford University Press (2000)
  2. Madalena Cruz-Ferreira. European Portuguese (Illustrations of the IPA) . Journal of the International Phonetic Association, Cambridge University Press (1995)
  3. Celso Cunha & Lindley Cintra. Nova Gramática do Português Contemporâneo . Edições João Sá da Costa (1984)